20 setembro 2014





Que nenhum se aflija
da pulsação tremida com que o outro
filigrana o seu coração.
Como guitarra incerta
nos fossos do silêncio,
como voz coroada
no heroísmo de falhar.
Assim, e só assim, encontraremos
a nossa religião:
sem o escândalo de a cultivarmos.







Vasco Gato













il teatro della crudeltà
roberto ferri





19 setembro 2014





a quatro de julho do ano passado escrevi:
"há coisas assim, sem explicação: estive hoje a recuperar o meu cd mais antigo dos dave's true story e só depois constatei que nunca aqui os referi - mais que um crime, um pecado que não sei se remível...
 pouca gente conhece este duo maravilha (david cantor & kelly flint) mas algo do melhor que a fusão jazz/pop tem para oferecer passa inevitavelmente por eles."
…e continua muita coisa por explicar



You are looking my way
 and it's driving me crazy

Now you're looking away 
and it's driving me crazy
It's not my style to be bold

Or this blue

But it's time you were told

All the harm such a sweet glance can do

But it's nothing to you 
and it's driving me crazy

There's a spell that you've cast

In the unlikeliest places

Like this doorway I pass

Where I've watched those embraces

Does it make you see red

When she cries

And when you call her to bed

Does she run when she runs to your side

Either way I can't hide

That it's driving me crazy

Such tender words
 but you've heard them all before

Fine words
 can be such a bore

I would throw in the towel but mere logic deserts me

If you gave me the power 
I would show far more mercy
At this moment of truth
 I would say

That it's the stone simple truth

That I would kill 

Just to thrill
You this way

So I wait for the day

That I'll be driving you crazy

Yes I wait for the day

That I'll be driving you crazy






(para a Filipa)

18 setembro 2014

17 setembro 2014






ainda a banda sonora de "la grande bellezza" e este exercício para coro do grande john tavener, 
sobre um poema de william blake: um pouco de céu na terra.



Little Lamb who made thee 
Dost thou know who made thee 
Gave thee life & bid thee feed. 
By the stream & o'er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing wooly bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice! 
Little Lamb who made thee 
Dost thou know who made thee 

Little Lamb I'll tell thee,
Little Lamb I'll tell thee!
He is called by thy name,
For he calls himself a Lamb: 
He is meek & he is mild, 
He became a little child: 
I a child & thou a lamb, 
We are called by his name.
Little Lamb God bless thee. 
Little Lamb God bless thee.













free wheeler
cy twombly





16 setembro 2014







fábula  de  alguém  que  não  encontrei





alguém que um dia quisesse ir à islândia
alguém que soubesse uma fábula de cor
alguém para repartir uma garrafa de vinho
alguém que cheirasse a livros e os livros
alguém a desenhar letras como tatuagens
alguém que inventasse palavras só comigo
alguém que gostasse de azuis e de um mar
alguém que olhasse e nem sempre me visse
alguém para desafinar velhas canções pop
alguém que ao acordar tivesse olhos de riso
alguém que fosse assim mais ou menos tu
alguém como tu que procurei e não encontrei


sinto-me o homem mais solitário de lisboa
e a minha única sorte é morar em reykjavik














[ ruas de lisboa ]






15 setembro 2014






lowell fulson nasceu no oklahoma, numa reserva chocktaw, mas gostava de referir que o seu pai era descendente dos cherokee. esse sangue índio nota-se na sua independência: recusou as escolas do delta e de chicago e foi dos poucos cultores de azuis que se estabeleceu na costa oeste. este standard é um dos seus cartões de visita.


So long, oh how I hate to see you go
So long, oh how I hate to see you go
And the way that I will miss you
I guess you will never know

We've been together so long, to have to separate this way
We've been together so long, to have to separate this way
I'm gonna let you go ahead on baby
Pray that you'll come back home some day

You said you once had loved me
But now I guess you have changed your mind
You said you once had loved me
But now I guess you have changed your mind
Why don't you reconsider baby
Give yourself just a little more time














amontoar em carga e descarga
dalila gonçalves






14 setembro 2014





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :





...numa das grandes baladas dos stones, entre uma versão mais crua que a gravação original 
e a belíssima cover de solveig slettahjell…


a)


b)
 


Childhood living is easy to do

The things you wanted I bought them for you

Graceless lady you know who I am

You know I cant let you slide through my hands



Wild horses couldnt drag me away

Wild, wild horses, couldnt drag me away



I watched you suffer a dull aching pain

Now you decided to show me the same

No sweeping exits or offstage lines

Could make me feel bitter or treat you unkind



Wild horses couldnt drag me away

Wild, wild horses, couldnt drag me away



I know I dreamed you a sin and a lie

I have my freedom but I dont have much time

Faith has been broken, tears must be cried

Let’s do some living after we die



Wild horses couldnt drag me away

Wild, wild horses, well ride them some day












foxtrot
piet mondrian






13 setembro 2014







acerados sinais para o desejo,
os bicos do teu peito, quando os mordo,
já me desliza a mão noutro rebordo
e cheiro, provo, apalpo, escuto e vejo

entre o prazer e a sombra algum lampejo,
tropel de sensações em desacordo,
espuma que se forma e corre ao pôr do
sol e ao nascer do sol em cada beijo,

enquanto a tua língua me procura,
me percorre insistente e então, de leve,
refaz o seu caminho de saliva,

até que o cego ser se nos mistura
e o seu fulgor eterno, de tão breve,
faz com que nesse instante morra e viva.








Vasco Graça Moura













[ oceano atlântico ]





12 setembro 2014






com a chuva a cair, ontem lembrei-me desta velha canção de jay jay cale. 
não é exactamente um azul na forma - mas podia ser.



Rain keeps falling on my head

Sun keeps burning out my eyes

Lord the moon he knows I'm blue, 
And it's all because of you

Ever since you said goodbye



Black cloud hanging over me

I can't seem to do no right

Lord the wind he never blows, 
River never flows

Ever since you said goodbye



Sunny days are come and gone

Heaven knows, I'm here crying

Lord the moon he knows I'm blue, 
And it's all because of you

Ever since you said goodbye





11 setembro 2014






por tudo isto




gosto de ti e do teu nome por obrigação moral,
uma réstia de culpa que me fará defender-te
das dentuças aguçadas dos ignorantes

gosto de ti e do teu nome rabiscado no canto
de um livro, por um poema lido, um pôr-do-sol
partilhado e tudo o que já foi esquecido








Carla Pinto Coelho













[ altri graffiti ]





10 setembro 2014






"the beatitudes", tema de vladimir martynov recriado pelo kronos quartet, faz parte da superlativa banda sonora do filme "la grande bellezza". podia estar aqui a escrever linhas e linhas sobre o autor, o quarteto e o filme mas, em bom rigor, a grande beleza reside em momentos mais-que-perfeitos onde não cabem palavras.















[ ruas de lisboa ]





09 setembro 2014






fábula  do  naufrágio  em  ti






não sei bem quando foi que me apaixonei pelo mar 
se naquela noite em que um veleiro aportou em mim
se no momento em que as águas não me molharam
ou talvez tenha sido quando as tuas mãos salgadas


se espraiaram como um delta no meu cabelo triste,
ou até muito antes, quando soube que no teu amor
havia marés sem ondas a prometer portos de abrigo


se soubesse que em amar-te se incluia todo esse mar
escrevia-te cartas de marear sem cabos nem tormentas


mas basta-me saber que no fundo do mar naufrago em ti













[oceano atlântico]





08 setembro 2014






nunca se soube ao certo onde nasceu amos wells blakemore jr., e ainda hoje há dúvidas entre o tennessee e o arkansas. mais interessante é ter aprendido a tocar com o grande sonny boy williamson e ainda criança ser desde logo considerado um prodígio. veio a ser um dos grandes executantes da harmónica e mesmo nos instrumentais, como o azul de hoje, se sente que há ali uma voz sem palavras. e vale a pena contar aqui esta história: em 1948, com catorze anos, viu uma harmónica numa loja de penhores e sentiu que tinha de ser sua. custava dois dólares e ele encontrou trabalho como ajudante de camionista durante algum tempo. no final pagaram-lhe um dólar e meio. o lojista não quis baixar o preço e junior wells deixou o dólar e meio sobre o balcão, pegou na harmónica e saiu. no tribunal onde compareceu como réu por furto perguntaram-lhe porque o fizera. voltou a explicar a história e o juiz pediu-lhe então que tocasse um pouco. quando o fez, consta que teria dado do seu bolso os cinquenta cêntimos em falta ao queixoso e sentenciado “caso encerrado”.















sweet heart
christian schloe






07 setembro 2014





chega a primeira chuva de um verão que tarda em morrer e eu gostava de acreditar que o nosso amor é um mistério, que o nosso amor é um pecado; e gostava que me beijasses como um estranho outra vez.



The fire’s dying out
All the embers have been spent
Outside on the street
Lovers hide in the shadows
You look at me
I look at you
There’s only one thing
I want you to do

Kiss me
I want you to kiss me
Like a stranger once again
Kiss me like a stranger once again
I want to believe that our love’s a mystery
I want to believe that our love’s a sin
I want you to kiss me like a stranger once again

You wear the same kind of perfume
You wore when we met
I suppose there’s something comforting in knowing what to expect
But when you brushed up against me
Before I knew your name
Everything was thrilling
Because nothing was the same

I want you to kiss me
I want you to kiss me
Like a stranger once again
Kiss me like a stranger once again

I want to believe our loves a mystery
I want to believe our loves a sin
Oh will you kiss me like a stranger once again
I want you to kiss me like a stranger
Kiss me like a stranger once again