09 julho 2012





este azul é o cartão de apresentação de muddy waters (estranhamente baptizado de mckinley morganfield). 
nesta gravação ao vivo em 1963 vale a pena referir a presença de sonny boy williamson na harmonica, otis spann no piano e o grande willie dixon no contrabaixo. 
quem me dera ter ouvido este grupo...




Got my mojo working, but it just won't work on you
I wanna love you so bad till I don't know what to do

I'm going down to Louisiana to get me a mojo hand
I'm gonna have all you women right here at my command

Got my mojo working
Got my mojo working
Got my mojo working, but it just won't work on you

I got a gypsy woman giving me advice
She got some red hot tips I'm keepin' them on ice.

Got my mojo working
Got my mojo working
Got my mojo working, but it just won't work on you








08 julho 2012











Outra canção diurna







Abro as janelas do amor com as mãos do ocaso,
vendo fechar-se a noite quando entra a madrugada.
E tu sais do sol nascente, como se fosse um acaso,
e deixas no chão um rasto de flores, quase nada.


Luz que atravessa a sombra que o dia leva,
dizes-me o teu nome como se fosse um segredo.
É a tua voz branca e desperta que ao vento se eleva
e desfaz em fumo e nuvem o que antes era medo.


Tens nos olhos a manhã que vai durar,
levas nas mãos o orvalho que não secou.
E há um céu estranho que não passou


pelas palavras que insistem em ficar.
Desta maneira é mármore a pedra mais dura,
e é pele, e linho, e lago, este desejo que perdura.











Nuno Júdice























janelas de lisboa












07 julho 2012







ainda me lembro dos tempos em que ouvia esta canção vezes sem conta (durante a ressaca de um desgosto de amor, é verdade...)
hoje é só um grande diálogo entre bette midler e tom waits, jovens muito bem comportados que sabem que nunca se fala com estranhos em bares



bartender, i'd like a manhattan, please

stop me if you've heard this one
i feel as though we've met before
perhaps I am mistaken

but it's just that i remind you
of someone you used to care about
oh but that was long ago
now tell me do you think i'd fall for that old line
I was none born just yesterday
besides i never talk to strangers anyway

well I ain't a bad guy when you get to know me
i just thought there ain't no harm

hey just try minding your own business
but who asked you to annoy me
with your sad, sad repartee
besides i never talk to strangers anyway
your life's a dimestore novel
this town is full of guys like you
and you're looking for someone to take the place of her

you must be reading my mail
and you're bitter cause he left you
that's why you're drinkin' in this bar

well, only suckers fall in love with perfect strangers
it always takes one to know one stranger
maybe we're just wiser now
yeah and been around the block so many times
that we don't notice
that we're all just perfect strangers as long as we ignore
that we all begin as strangers just before we find
we really aren't strangers
anymore

ah you don't look like such a chump
err… hey babe










(…)

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
(…)
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas.
(…)









Bernardo Soares


















jardim da estrela












06 julho 2012










fábulas de lisboa








xxvii. escadinhas das portas do mar








( lê-se melhor aqui )






















Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre num acidente


Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora
Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias


Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres









Adília Lopes











05 julho 2012









escrita em 1941, muito rapidamente passou a integrar o american songbook, e hoje é um standard incontornável.
foi irresistível para billie holiday, nat king cole, sarah vaughan, ella fitzgerald, etta james e muitos outros.
uma das grandes interpretações é no entanto a do trio de jarrett, em que as palavras não estão tão escondidas como parece.






















Despedida









Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento. 











José Agostinho Baptista




















elevador de santa justa












04 julho 2012








d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






o argentino astor piazzolla, um dos pais da modernização do tango, escreveu esta canção de liberdade sem palavras:




mas a jamaicana grace jones, alguns anos mais tarde, soube de alguma maneira preencher essa aparente lacuna:


















“A Balada do Café Triste”









Comprei-lhe «A Balada do Café Triste»
depois de quase ter passado por ladrão
de livros, mexendo-lhes sem olhar
para eles enquanto rondava de todos
os lados aqueles olhos que se viam
de qualquer ponto da feira, mesmo
se houvesse obstáculos o verde
atravessava-os, o verde tornava tudo
verde entre mim e ela, e no meio
dessa cor unânime a rapariga
era ainda mais. Pouco importa,
leitor, se houve depois alguma história,
entre homem e mulher não se passa
muito mais: uns olhos que de repente
são necessários e pelos quais passamos
por ladrões de livros ou pior.
Nunca li «A Balada do Café Triste».












Pedro Mexia






















cais da rocha

















03 julho 2012












hoje quase ninguém se lembra dela, mas esta parisiense de montmartre é para mim inesquecível e, à sua maneira, um ícone dos anos oitenta. 
muito cedo conotada com edith piaf, miss pigalle soube reinterpretar no ambiente pop toda a atmosfera do cabaret. 
esta é uma canção imortal: desde a abertura, num francês melancólico, até ao desenvolvimento da melodia com nuances de tango, passando pelo sumptuoso arranjo orquestral - tudo aqui é perfeito.
há dias referi esta canção a duas pessoas, que entretanto me confessaram terem ficado viciadas... e tu?




The rumour has arrived 

He has been here since noon 

A funny name he wears 

We can’t trust him, we stare

Where are you from stranger

What trick makes you danger 

Frontiers might well close down

But we’ll protect our town

He stranger 
He stranger

Can you tell a story 

He stranger 
He stranger

Which makes our sound silly

You see the law has a face

And our child fight in space 

Computers complex free 

We’ll have to pay the fee

How much for your problems 

We’ll make it our emblem 

The doubt is a torture 

We can’t live insecure

He stranger 
He stranger

Can you tell a story 

He stranger
 He stranger

Which makes our sound silly

He stranger
 He stranger

Have you got a story

He stranger
 He stranger

We’ve never heard before

He stranger
 He stranger

Have you got a story

He stranger
 He stranger

We’ve have heard so many

He stranger
 He stranger

Have you got a story

He stranger

We’ve have heard so many

He stranger
 He stranger

Don’t make it too easy

















Eu contarei a beleza das estátuas
- Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios
Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos










Sophia de Mello Breyner Andresen























autoportrait

amedeo modigliani












02 julho 2012









(…)
ce sont les mots qui prennent une attitude, non pas le corps;
qui se tissent, non pas les vêtements;
qui scintillent, non pas les armures;
qui grondent, non pas l’orage;
(…)
qui saignent, non pas les plaies
(…)










Pierre Klossowski




















sintra




















o irlandês rory gallagher, um dos grandes guitarristas do rock, nunca escondeu o seu fascínio pelas raízes. 
neste azul talvez profético (veio a morrer prematuramente por complicações após um transplante de fígado) 
já se contabilizavam os prós e contras do álcool puro...





I went down on 31st Street,
To pick up a jug of alcohol,
Well, I went down on 31st Street,
To pick up a jug of alcohol.
Told the man to put in some water,
But he wouldn't put in a drop at all.

I was drinking my straight alcy,
And I went walking on down the street,
Well, I was drinking my straight alcy,
And I went walking on down the street.
Well, my eyes got so heavy,
I nearly fell half asleep.

Well, I like sherry brandy,
My baby sure like gin,
Well, that little girl I got,
Sure put me in the shape I'm in.
Well, I went down on 31st Street,
To pick up a jug of alcohol.
I told the man to put in some water, 
But he wouldn't put in a drop at all.

Whisky make me drowsey,
And gin can make you think,
Well, a common cold can kill ya,
But, my baby tell me to drink,
I went down on 31st Street,
To pick up a jug of alcohol,
I told the guy to put in some water, 
But he wouldn't put in a drop at all.

One hundred per cent alcohol, 
Well, let me have some.
Well, I like sherry and brandy,
My baby sure likes gin,
And that little girl I got,
Sure put me in the shape I'm in.
I went down on 31st Street,
To pick up, pick up a jug of alcohol,
I told the man to put in some water, 
But he won't put in a drop at all.

Ninety one per cent,
Better make it ninety two,
Ninety three per cent,
Ninety four, that'll do,
Ninety five, ninety six,
Ninety seven per cent,
Ninetyeight,
Bartender that's ninety nine,
Make it one hundred per cent,
One hundred per cent,
One hundred per cent,
Wanna try some,
I wanna try some,
One hundred per cent,
Then I won't feel a thing at all.









01 julho 2012





(…) 
Acreditava-se então que a Terra era um disco, dividido em duas partes iguais pelo Mar, tal como os Gregos o denominavam – e que nós hoje conhecemos como Mediterrâneo – e pelo que chamamos Mar Negro. (Os Gregos designaram-no, primeiramente, de Axino, que significa mar Hostil, e, depois, talvez porque começaram a ficar familiarizados com ele, Euxino, o mar Favorável. Algumas vezes, sugere-se que lhe foi atribuída essa designação agradável para que a influência benéfica do nome se fizesse sentir nas suas águas, poupando assim as embarcações gregas). Em redor da Terra corria o grande rio Oceano, nunca perturbado por qualquer vento ou tempestade. Na outra margem do Oceano havia um povo misterioso, cujo acesso poucos seres humanos conheciam. Sabia-se que eram os Cimérios que lá viviam, mas desconhecia-se se a este, a oeste, a norte ou a sul. Tratava-se de uma terra envolta em nuvens e névoas, onde jamais a luz do dia raiava e sobre a qual o Sol cintilante nunca fazia incidir o seu esplendor, nem quando se erguia no Céu estrelado pela aurora nem à noitinha, quando voltava do Céu para a Terra. Sobre esse povo melancólico pairava uma noite profunda e eterna.
Com excepção dessa região única, todos os povos que viviam do outro lado do Oceano eram muitíssimo felizes.
(...)





Edith Hamilton
















montras de lisboa