29 maio 2023






leituras  de  maio





 


 


 


 


 


 




:: notas ::

 

the life and death of ancient cities

greg woolf

ed. oxford univ. press

 

o que nos leva a ser gregários? por que razão, após milhares e milhares de anos de individualismo nómada, nos fixámos em pequenos grupos em torno de terra arável? e o que aconteceu a algumas aldeias para se tornarem centro urbanos? este livro interessantíssimo explora essa “história natural” - a do nascimento, apogeu e queda das grandes cidades da civilização, sobretudo das mediterrânicas, e proporciona pistas para possíveis respostas. apenas um reparo: como é possível que um livro com a chancela de oxford veja a luz do dia contendo tantas falhas gramaticais e gralhas tipográficas?


 

how words get good

rebecca lee

ed. profile books

 

livros sobre livros... como resistir? este é fascinante do ponto de vista editorial (“onde as palavras se tornam boas”), desde o texto inicial até ao aparecimento do livro numa montra. repleto de referências a escritores, pequenas anedotas sobre falhas gramaticais, plágios, as inevitáveis gralhas, o mistério das notas de rodapé, passando pelo drama das traduções, até se chegar à concepção do produto final com a escolha de tipos gráficos e imagens para a capa, ao longo deste livro percebemos como ele nasceu e cresceu, num relato divertido e muitíssimo informativo.


 

levar caminho I

manuel de freitas

ed. averno

 

reunião dos livros iniciais, primeiro de pelo menos três volumes (saga interminável?)

 


whale

cheon myeong-kwan

ed. europa

 

até ao momento, o livro do ano. estamos numa aldeia remota da coreia, num passado recente. e vamos conhecer a vida de geumbok, que persegue um sonho desde que viu uma baleia no mar, e a da sua filha chunhui, que nasceu muda e só consegue comunicar com elefantes. entretanto, uma mulher vende a sua filha a um apicultor por dois potes de mel, uma tempestade revela uma fortuna escondida num telhado, ficamos a saber que a rapariga controla as abelhas, a aldeia ganha uma fábrica de tijolos e um cinema em forma de baleia - palco de uma tragédia anunciada. esta é uma novela maravilha, com algo que lembra o realismo mágico sul-americano, porém narrada com uma originalidade surpreendente, um fresco épico repleto de aventuras bizarras e humor perverso. está na lista restrita para o booker deste ano. sinceramente, gostava que ganhasse.

 


the sorrow of angels

jón kalman stefánsson

ed. maclehose press

 

passaram algumas semanas desde que o rapaz regressou, para devolver ao velho capitão o livro de poesia co-responsável pela morte do seu amigo bárdur. e agora vai acompanhar o carteiro jens numa viagem que vai ser um desafio contra a morte de ambos... segundo livro desta magnífica trilogia, passada no início do séc. xx numa islândia remota, um belo exercício sobre o poder das palavras e a magia da literatura, num texto sempre brilhante que justapõe o diálogo, o monólogo interior e o fluxo de consciência.

 

 

 




15 maio 2023

 

 

 

 

Dentes  podres  em  Lisboa


 

 

 

O poeta medíocre

encheu os pulmões

de ar maligno
e disse para as paredes

que como sempre

o cercavam:

“chega de poemas de amor”.

 

Não demorou a perceber,

o poeta medíocre,

que sem poemas de amor

ele não existia sequer

- ou era ainda,

na melhor das hipóteses,

mais medíocre

do que se acostumara a ser.

 

As palavras afluíram-lhe então

como um vómito frio e cansado,

dentes podres de uma musa

“que já foi com todos”

e com ele também.

 

 

 



Manuel de Freitas

 





05 maio 2023

 


 


 

Tece perfumes e rendas, dobra palavras, efémeros silêncios.
Para o corpo pede uma qualquer hora de encanto, um olhar.

Falo da beleza dos seus olhos e o rosto estremece, cúmplice.

 

 





Helga Moreira

 






29 abril 2023

 





leituras  de  abril






 


 


 


 


 


 





:: notas ::

 


porn - an oral history

polly barton

ed. fitzcarraldo

 

polly barton, que conheço de muitas e excelentes traduções de livros japoneses, coloca interrogações: por que razão falar sobre pornografia permanece um tabu? quase nenhum adulto gosta de falar na sua experiência pessoal e tende a tecer opiniões em abstracto... porquê? este livro questiona a ausência de discussões abertas sobre o tema e, basicamente, é a transcrição de dezanove entrevistas a pessoas de idade, género e estado civil muito diferentes. hábitos, emoções, vergonha, culpa, desejo - tudo isso compõe a nossa relação com a pornografia e, lidos estes depoimentos fascinantes fica-se (talvez) com uma outra visão sobre o assunto.

 


spark

naoki matayoshi

ed. pushkin press

 

mais do que a história de dois comediantes que praticam manzai (uma espécie de stand-up comedy em dueto), esta é uma novela divertida - e por vezes crua e amarga - sobre os limites do humor e da amizade. ganhou o akutagawa de 2015.

 


tutankhamun

joyce tyldesley

ed. headline

 

a pessoa foi só uma - mas há (pelo menos) dois faraós com este nome. um é aquele cujo túmulo foi descoberto há cem anos e que, como nenhum outro, deu origem a mitos, lendas, maldições e fez da egiptologia muito daquilo que é actualmente. porém, há outro: aquele que viveu há mais de três mil anos e reinou inesperadamente no egipto. é sobre a vida deste último que a autora desvenda mistérios e propõe hipóteses, numa narrativa fascinante.

 


cinza, agulha, lápis e fosforozitos

robert walser

ed. assírio & alvim

 

é nestes "brevíssimos textos sobre quase nada" que damos conta de um facto simples: walser disse-nos quase tudo sobre a razão de ser da escrita.

 


o livro da patrícia

david-alexandre guéniot

ed. ghost

 

(por razões pessoais) é-me difícil falar deste livro, tão belo quanto triste.

 


melancholy I - II

jon fosse

ed. fitzcarraldo

 

foi a primeira destas duas novelas que definitivamente colocou o autor num pedestal elevado. partindo de uma narrativa ficcionada da vida do pintor lars hertervig, que pintou a natureza como poucos antes de ser internado como demente e morrer na miséria, jon fosse funde o monólogo interior com uma espécie de fluxo de consciência e mergulha nos pensamentos de um jovem artista à beira da loucura, primeiro como estudante de pintura em dusseldorf, depois como doente mental e, mais tarde, a sua invocação chega-nos por terceiros: um escritor que o quer reviver e uma sua irmã, também ela à beira do fim. é opressivo e desesperançado mas, sem dúvida, um marco literário.


the stasi poetry circle

philip oltermann

ed. faber & faber

 

estamos em 1982, na antiga alemanha de leste. a stasi, a célebre polícia secreta - convencida de que há escritores que podem estar a encriptar mensagens subversivas nos seus textos - decide treinar os seus homens, criando em berlim um círculo de poesia. estes homens, soldados e guardas do muro, reunem-se mensalmente e aprendem com escritores a escrever poesia. este é um relato verídico - a realidade suplanta sempre a ficção - baseado em depoimentos e entrevistas, uma espécie de policial literário cheio de espiões moldados em poetas e poetas a espiar colegas. a cantiga é uma arma? pfff, a poesia é mais certeira!

  








21 abril 2023

11 abril 2023

 



 

 

de tanto correr

a fugir do meu inimigo
esqueci-lhe o rosto

agora receio

encontrá-lo de frente

e não o reconhecer

 

 

 


Ferran Fernández

 







30 março 2023

 





leituras  de  março






 


 

 
 


 


 


 





:: notas ::

 


provas irrefutáveis da minha inferioridade mental

diogo paiva

ed. cutelo

 

são alguns poemas longos, espaçados por textos mais breves, quase aforismos - e tudo a propósito dessa sã loucura de quem se sabe ser poeta. um grande pequeno livro que contém provas irrefutáveis de que a poesia não se pode comprovar, apenas provar.

 


ex-libris

anne fadiman

ed. penguin

 

dúzia e meia de curtos ensaios sobre livros, prateleiras, citações, bibliotecas, palavras, leituras e tudo aquilo que interessa a um bibliófilo. um pequeno grande livro para quem gosta deles. 

 


vozes

antonio porchia

ed. língua morta

 

completíssima edição dos pensamentos de porchia tornados palavras escritas, essas quase mil e duzentas vozes que não são apenas breves aforismos poéticos e sim um dos retratos mais profundos do que é o cerne da poesia enquanto voz interior e pensamento sem fim. homem íntegro e austero, nunca se disse poeta mas foi-o sempre. neste livro fundamental estão ainda incluídos: um belo prefácio de jorge luis borges, um ensaio de roberto juarroz, entrevistas, testemunhos vários e ainda duas cartas de alejandra pizarnik.

 


the trouble with happiness (and other stories)

tove ditlevsen

ed. penguin

 

reunião de dois livros de contos da autora dinamarquesa, muito subordinados a essa ideia do problema da felicidade estar/ser frequentemente n/aquilo que não se pode ter. conjunto de contos curtos e agridoces, centrados no casamento e na família, em que situações quotidianas (a ansiedade de uma esposa para não acordar o marido, o terror de um rapaz pela perda de uma faca oferecida pelo pai, a dona de casa ciumenta que despede a empregada, o desânimo de uma mãe abandonada por ser obrigada a vender a casa, a rapariga que sonha com um baile de máscaras, etc.) se tornam inesperadamente densas pelos brilhantes retratos (sempre e apenas psicológicos) dos personagens. muito bom, merecia uma tradução em português são e escorreito.

 


idol, burning

rin usami

ed. canongate

 

um relato ficcionado, belo e perturbador, do que é hoje um traço da cultura adolescente japonesa: o culto dos oshi. ganhou o akutagawa de 2020.

 


beat

vv. aa.

ed. do lado esquerdo

 

uma surpreendente e boa selecção de poetas da geração ‘beat’, que tem a virtude de incluir biografias e saber conjugar poemas traduzidos de nomes mais ‘consagrados’ (ginsberg, o’hara, ferlinghetti, brautigan) com outros menos conhecidos (cowen, sanders, corso). 

 







18 março 2023

 


 

 

Um  amor

 

 


Se eu pudesse capturar a luz verde do pirilampo, conseguiria 
ver para te escrever uma carta.

 

 




Amy Lowell

 






12 março 2023

 




revi há dias o belo "dracula" de francis ford coppola,
decerto a melhor adaptação do romance de bram stoker
ao grande ecrã. a banda sonora assinada por wojciech kilar
é de uma perfeição incomparável. este tema ficou-me no ouvido