calçelfie #9 [auto-retrato de uma espécie em vias de extinção]
[ leituras ]
"the self-portrait (a cultural
history)"
james hall
ed. thames & hudson
estou apaixonado por mais uma magnífica
edição da thames & hudson, com capa dura, óptimo papel e inúmeras reproduções
a cores - desta vez uma viagem pela história da arte baseada num dos géneros
mais comuns (ou nem sempre) da pintura/gravura/desenho: o auto-retrato.
desde a idade média até aos nossos dias
vamos encontrando dürer, velázquez, ticiano e tantos outros, e através da
evolução da maneira de encarar o auto-retrato percebemos um pouco melhor o modo
como certas características da arte europeia se foram modificando. com
pormenores sobre os pintores e os retratados e alguns deliciosos detalhes sobre
as obras, a narrativa de james hall tem o mérito de nos manter sempre
interessados.
e, numa época dominada pela
pobreza instantânea das selfies, o auto-retrato assume de novo um encanto muito
especial.
07 outubro 2015
hoje na gulbenkian, durante o lançamento da sua "história da curiosidade", alberto manguel contou-nos um pormenor absolutamente delicioso. ao falar sobre o papel da linguagem e a escolha das palavras referiu que jorge luis borges - para quem leu durante alguns anos quando já se encontrava cego - lhe contara que no seu soneto sobre os antepassados portugueses (uma maravilha que já por aqui apareceu), aquele penúltimo verso havia sido escrito inicialmente como "son el rey que en el mágico desierto", porque sempre tinha imaginado o nosso d. sebastião como um jovem adolescente, mas que alguém lhe contara mais tarde que o rei morrera com vinte e quatro anos, o que o fizera modificar o adjectivo para "son el rey que en el místico desierto"…
06 outubro 2015
d e s c u b r a a s s e t e d i f e r e n ç a s :
sua alteza real, o candeeiro do chiado
- mais uma vez numa exibição gratuita da sua força hercúlea -
soerguendo um edifício no largo de belas artes
05 outubro 2015
um original de muddy waters, numa boa cover de clapton.
Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.
Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.
Lord I love you little girl, you're always resting on my
mind.
Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my
automobile.
Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my
automobile.
You got so many men, I'm afraid you may get me killed.
Oh baby, you ain't nothing like you used to be.
Oh baby, you ain't nothing like you used to be.
When I was deep in love with you, little girl, you were just
sweet as an apple on a tree.
04 outubro 2015
é extraordinário como este concerto de colónia
festeja os quarenta anos com o mesmo brilho
03 outubro 2015
[a minha lisboa é mais linda que a tua]
Alguém diz
com lentidão:
"Lisboa,
sabes..."
Eu sei. É
uma rapariga
descalça e
leve,
...um vento
súbito e claro
nos cabelos,
algumas
rugas finas
a
espreitar-lhe os olhos,
a solidão
aberta
nos lábios e
nos dedos,
descendo
degraus
e degraus
e degraus
até ao rio.
Eu sei. E
tu, sabias?
Eugénio de
Andrade
02 outubro 2015
[largo de belas artes]
01 outubro 2015
Paris
Quando vi o
mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu
itinerário. Ao descer para a praia
já era quase
escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas
dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas
recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas
as famílias eram negligentes
e estavam em
férias.
O coreto
tinha sido assaltado
por jovens
excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas
cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro
dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia
ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um
lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma
história à minha espera na Gare du Nord essa noite.
Rui Pires
Cabral
retirado do seu maravilhoso "birds requiem",
um pouco de céu na terra pelo oud e voz de dhafer youssef
30 setembro 2015
lisboa e o tejo, domingo
carlos botelho
29 setembro 2015
fábula do homem que tinha perdido um amor
falaram-me de um homem que tinha perdido um amor.
disseram que não parecia triste, mas que a luz do sol o
atravessava como se fosse feito de vidro. o homem era
para alguns invisível e um fantasma para outros. nunca
falava, mas contavam que tinha sido visto a discutir com
os pardais. também não se lhe conhecia outra roupagem
que não fossem poemas. saía à rua vestido com versos e
depois ficava sentado nos bancos dos jardins. ninguém
o lia. e alguém me disse que vivia assim porque deixara
de escrever, desde o dia em que tinha perdido um amor.
28 setembro 2015
[ inevitável na noite de hoje, um azul sobre a lua ]
It is a brand new moon, since two men walked up there
Yes, we got a brand new moon, since the two men they walked
up there
But it's the same old world for us. babe, you know we ain't
goin nowhere
They got all of that bread, just to send people into space
You know they got all of that bread, just to send people up
in space
But there's trouble there for us, baby we aint goin any
place
I saw a flag on the moon, and I was just as proud as I could
be
I saw a flag on the moon, and I was just as proud as I could
be
You know, I love my country, baby, but my country dont love
me
Ooh ooh ooh, you know I just got the moon blues
Yes, I said ooh ooh ooh, peoples I just got the moon blues
Cause all we got down here on earth, babe, I think we might
as well go to the moon
27 setembro 2015
Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta
y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna
y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.
Jorge Luis Borges
26 setembro 2015
nemo portrait / self-portrait
mary britton clouse
25 setembro 2015
d e s c u b r a a s s e t e d i f e r e n ç a s :
o terceiro planeta vai descrevendo a sua trajectória elíptica em redor
da pequena estrela e afasta-se definitivamente. a estação do ano mudou. gosto
do outono, do tempo a arrefecer e das cores das folhas. lembrei-me de vivaldi
mas logo a seguir ocorreram-me as estaciones porteñas de piazzolla. descobre as
diferenças do otoño cantado
a) pelo bandoneón de astor
b) pelo violino de arabella
24 setembro 2015
De que
serviria
Aquilo que
somos não é aparente,
não podemos
explicar o sofrimento
de onde
procede este amor.
Mas eu não
vim para te dizer
como as
sombras mistificam
o mundo: não
me perguntes nada.
Tu já és a
causa por detrás da máquina
dos dias, se
eu for por essa terra fora
será para
chamar por ti.
Rui Pires Cabral
23 setembro 2015
só hoje termina o verão mas parece-me ter passado há muito tempo. do magnífico e intemporal "from gardens where we feel secure", recordarei sempre aqueles momentos bucólicos de encantamento infantil que virginia astley me proporcionou na adolescência - não o sabia então, mas era já um pouco de céu na terra.
22 setembro 2015
[artista desconhecido]
c.a.m. da f.c.g.
fábula do destino
numérico
assim que o espelho caiu no frio chão de pedra
e se estilhaçou em mil e um pedaços brilhantes
pensou nos sete anos de azar que lhe estavam
desde logo destinados. e maldisse essa injusta
falta de sorte, não ter ali à mão mais dezanove
espelhos que pudesse deixar cair, um após outro,
até ao fim: sempre viveria até aos cento e quarenta.
21 setembro 2015
eddie james “son” house, jr. é autor de uma das grandes
epifanias dos azuis. cresceu num ambiente religioso e ainda adolescente iniciou
uma carreira de pregador nas igrejas baptista e metodista episcopal. o seu
inimigo preferido era a música, para ele um sinónimo de degenerescência moral e
perdição eterna. mas diz-se que aos vinte e cinco anos teria ouvido alguém
tocar bottleneck slide guitar, num
estilo para ele até então desconhecido, o que o levou a comprar uma guitarra. nesse
dia perdeu-se um pregador... e o resto é história.
I
got a letter this mornin, how do you reckon it read?
It
said, "Hurry, hurry, yeah, your love is dead"
I
got a letter this mornin, I say how do you reckon it read?
You
know, it said, "Hurry, hurry, how come the gal you love is dead?"
So,
I grabbed up my suitcase, and took off down the road
When
I got there she was layin' on a coolin' board
I
grabbed up my suitcase, and I said and I took off down the road
I
said, but when I got there she was already layin on a coolin' board
Well,
I walked up right close, looked down in her face
Said,
the good ol' gal got to lay here 'til the Judgment Day
I
walked up right close, and I said I looked down in her face
I
said the good ol' gal, she got to lay here 'til the Judgment Day
Looked
like there was 10,000 people standin' round the buryin' ground
I
didn't know I loved her 'til they laid her down
Looked
like 10,000 were standin' round the buryin' ground
You
know I didn't know I loved her 'til they damn laid her down
Well,
I folded up my arms and I slowly walked away
I
said, "Farewell honey, I'll see you on Judgment Day"
Ah,
yeah, oh, yes, I slowly walked away
I
said, "Farewell, farewell, I'll see you on the Judgment Day"
You
know I didn't feel so bad, 'til the good ol' sun went down
I
didn't have a soul to throw my arms around
I
didn't feel so bad, 'til the good ol' sun went down
You
know, I didn't have nobody to throw my arms around
You
know, it's hard to love someone that don't love you
Ain't
no satisfaction, don't care what in the world you do
Yeah,
it's hard to love someone that don't love you
You
know it don't look like satisfaction, don't care what in the world you do
Got
up this mornin', just about the break of day
A-huggin'
the pillow where she used to lay
Got
up this mornin', just about the break of day
A-huggin'
the pillow where my good gal used to lay
Got
up this mornin', feelin' round for my shoes
You
know, I must-a had them old walkin' blues
Got
up this mornin', feelin' round for my shoes
Yeah,
you know bout that, I must-a had them old walkin' blues
Ah,
hush, thought I heard her call my name
If
it wasn't so loud and so nice and plain
Ah,
yeah
Mmmmmm
mmmmm mmmmmm
20 setembro 2015
Tisana 29
Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever
à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que
estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o
papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha
retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse
momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na
metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos
talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a
grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à
máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição.
Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.
Ana Hatherly
19 setembro 2015
la haine
félix valloton
a remexer em discos desarrumados, fui reencontrar este
lamento amargo dos blur.
como um amor antigo mal resolvido, nem a idade o conseguiu adoçar.