09 outubro 2015







as palavras fazem muitos estragos
partem coisas, quero dizer
se não as vemos despedaçadas
é defeito nosso, não delas
seja como for, é justo acrescentar
dão-se também cabo umas das outras
e ficam todas escavacadas
e seja palavras, seja coisas
tornam-se pó, tanto,
tal como nós, pouco







Bénédicte Houart







08 outubro 2015








calçelfie #9

[auto-retrato de uma espécie em vias de extinção]










[ leituras ]










"the self-portrait (a cultural history)"

james hall

ed. thames & hudson



estou apaixonado por mais uma magnífica edição da thames & hudson, com capa dura, óptimo papel e inúmeras reproduções a cores - desta vez uma viagem pela história da arte baseada num dos géneros mais comuns (ou nem sempre) da pintura/gravura/desenho: 
o auto-retrato.
desde a idade média até aos nossos dias vamos encontrando dürer, velázquez, ticiano e tantos outros, e através da evolução da maneira de encarar o auto-retrato percebemos um pouco melhor o modo como certas características da arte europeia se foram modificando. com pormenores sobre os pintores e os retratados e alguns deliciosos detalhes sobre as obras, a narrativa de james hall tem o mérito de nos manter sempre interessados.
e, numa época dominada pela pobreza instantânea das selfies, o auto-retrato assume de novo um encanto muito especial.






07 outubro 2015






hoje na gulbenkian, durante o lançamento da sua "história da curiosidade", alberto manguel contou-nos um pormenor absolutamente delicioso. ao falar sobre o papel da linguagem e a escolha das palavras referiu que jorge luis borges 
- para quem leu durante alguns anos quando já se encontrava cego - lhe contara que no seu soneto sobre os antepassados portugueses (uma maravilha que já por aqui apareceu), aquele penúltimo verso havia sido escrito inicialmente como "son el rey que en el mágico desierto", porque sempre tinha imaginado o nosso d. sebastião como um jovem adolescente, mas que alguém lhe contara mais tarde que o rei morrera com vinte e quatro anos, o que o fizera modificar o adjectivo para "son el rey que en el místico desierto"






06 outubro 2015






d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :









sua alteza real, o candeeiro do chiado 
- mais uma vez numa exibição gratuita da sua força hercúlea - 
soerguendo um edifício no largo de belas artes






05 outubro 2015







um original de muddy waters, numa boa cover de clapton.



Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.
Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.

Lord I love you little girl, you're always resting on my mind.

Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my automobile.

Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my automobile.

You got so many men, I'm afraid you may get me killed.

Oh baby, you ain't nothing like you used to be.
Oh baby, you ain't nothing like you used to be. 

When I was deep in love with you, little girl, 
you were just sweet as an apple on a tree.







04 outubro 2015






é extraordinário como este concerto de colónia 
festeja os quarenta anos com o mesmo brilho








03 outubro 2015








[a minha lisboa é mais linda que a tua]












Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
...um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?






Eugénio de Andrade







01 outubro 2015







Paris





Quando vi o mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu itinerário. Ao descer para a praia
já era quase escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas as famílias eram negligentes
e estavam em férias.

O coreto tinha sido assaltado
por jovens excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma história à minha espera na Gare du Nord essa noite.







Rui Pires Cabral












retirado do seu maravilhoso "birds requiem", 
um pouco de céu na terra pelo oud e voz de dhafer youssef








29 setembro 2015







fábula  do  homem  que  tinha  perdido  um  amor






falaram-me de um homem que tinha perdido um amor.
disseram que não parecia triste, mas que a luz do sol o
atravessava como se fosse feito de vidro. o homem era
para alguns invisível e um fantasma para outros. nunca
falava, mas contavam que tinha sido visto a discutir com
os pardais. também não se lhe conhecia outra roupagem
que não fossem poemas. saía à rua vestido com versos e
depois ficava sentado nos bancos dos jardins. ninguém
o lia. e alguém me disse que vivia assim porque deixara
de escrever, desde o dia em que tinha perdido um amor.






28 setembro 2015







[ inevitável na noite de hoje, um azul sobre a lua ]



It is a brand new moon, since two men walked up there
Yes, we got a brand new moon, since the two men they walked up there

But it's the same old world for us. babe, you know we ain't goin nowhere

They got all of that bread, just to send people into space

You know they got all of that bread, just to send people up in space
But there's trouble there for us, baby we aint goin any place

I saw a flag on the moon, and I was just as proud as I could be
I saw a flag on the moon, and I was just as proud as I could be

You know, I love my country, baby, but my country dont love me



Ooh ooh ooh, you know I just got the moon blues

Yes, I said ooh ooh ooh, peoples I just got the moon blues

Cause all we got down here on earth, babe, I think we might as well go to the moon






27 setembro 2015






Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta

y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna

y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.

Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.






Jorge Luis Borges






25 setembro 2015






d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






o terceiro planeta vai descrevendo a sua trajectória elíptica em redor da pequena estrela e afasta-se definitivamente. 
a estação do ano mudou. gosto do outono, do tempo a arrefecer e das cores das folhas. lembrei-me de vivaldi mas
logo a seguir ocorreram-me as estaciones porteñas de piazzolla. descobre as diferenças do otoño cantado




a) pelo bandoneón de astor



b) pelo violino de arabella






24 setembro 2015






De que serviria




Aquilo que somos não é aparente,

não podemos explicar o sofrimento

de onde procede este amor.

Mas eu não vim para te dizer

como as sombras mistificam

o mundo: não me perguntes nada.

Tu já és a causa por detrás da máquina

dos dias, se eu for por essa terra fora

será para chamar por ti.






Rui Pires Cabral






23 setembro 2015







só hoje termina o verão mas parece-me ter passado há muito tempo. do magnífico e intemporal "from gardens where we feel secure", recordarei sempre aqueles momentos bucólicos de encantamento infantil que virginia astley me proporcionou na adolescência - não o sabia então, mas era já um pouco de céu na terra.








22 setembro 2015








[artista desconhecido]
c.a.m. da f.c.g.











fábula  do  destino  numérico





assim que o espelho caiu no frio chão de pedra
e se estilhaçou em mil e um pedaços brilhantes
pensou nos sete anos de azar que lhe estavam
desde logo destinados. e maldisse essa injusta
falta de sorte, não ter ali à mão mais dezanove
espelhos que pudesse deixar cair, um após outro,
até ao fim: sempre viveria até aos cento e quarenta.







21 setembro 2015







eddie james “son” house, jr. é autor de uma das grandes epifanias dos azuis. cresceu num ambiente religioso e ainda adolescente iniciou uma carreira de pregador nas igrejas baptista e metodista episcopal. o seu inimigo preferido era a música, para ele um sinónimo de degenerescência moral e perdição eterna. mas diz-se que aos vinte e cinco anos teria ouvido alguém tocar bottleneck slide guitar, num estilo para ele até então desconhecido, o que o levou a comprar uma guitarra. nesse dia perdeu-se um pregador... e o resto é história.


I got a letter this mornin, how do you reckon it read?
It said, "Hurry, hurry, yeah, your love is dead"
I got a letter this mornin, I say how do you reckon it read?
You know, it said, "Hurry, hurry, how come the gal you love is dead?"

So, I grabbed up my suitcase, and took off down the road
When I got there she was layin' on a coolin' board
I grabbed up my suitcase, and I said and I took off down the road
I said, but when I got there she was already layin on a coolin' board

Well, I walked up right close, looked down in her face
Said, the good ol' gal got to lay here 'til the Judgment Day
I walked up right close, and I said I looked down in her face
I said the good ol' gal, she got to lay here 'til the Judgment Day

Looked like there was 10,000 people standin' round the buryin' ground
I didn't know I loved her 'til they laid her down
Looked like 10,000 were standin' round the buryin' ground
You know I didn't know I loved her 'til they damn laid her down

Well, I folded up my arms and I slowly walked away
I said, "Farewell honey, I'll see you on Judgment Day"
Ah, yeah, oh, yes, I slowly walked away
I said, "Farewell, farewell, I'll see you on the Judgment Day"

You know I didn't feel so bad, 'til the good ol' sun went down
I didn't have a soul to throw my arms around
I didn't feel so bad, 'til the good ol' sun went down
You know, I didn't have nobody to throw my arms around

You know, it's hard to love someone that don't love you
Ain't no satisfaction, don't care what in the world you do
Yeah, it's hard to love someone that don't love you
You know it don't look like satisfaction, don't care what in the world you do

Got up this mornin', just about the break of day
A-huggin' the pillow where she used to lay
Got up this mornin', just about the break of day
A-huggin' the pillow where my good gal used to lay

Got up this mornin', feelin' round for my shoes
You know, I must-a had them old walkin' blues
Got up this mornin', feelin' round for my shoes
Yeah, you know bout that, I must-a had them old walkin' blues

Ah, hush, thought I heard her call my name
If it wasn't so loud and so nice and plain
Ah, yeah
Mmmmmm mmmmm mmmmmm







20 setembro 2015






Tisana 29




Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição. Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.





Ana Hatherly




19 setembro 2015