baseado no cântico dos cânticos, um pouco de céu na terra pela mão de david lang
(…)
just your cheeks just your neck just your
couch and my perfume and my beloved and my breasts and my
beloved and my love just your eyes and my beloved our couch
our house our laughters and my love and my beloved just your shadow just
your fruit
(...)
15 setembro 2015
dream of the hungry ghost
colette calascione
14 setembro 2015
[ leituras ]
“uma história da curiosidade”
alberto manguel
ed. tinta da china
conheci manguel pelo seu
dicionário de lugares imaginários, depois pela sua história da leitura e, mais tarde, através do seu relato dos
tempos em que leu para um borges já cego - e tive agora a confirmação da
profunda influência que o ouvinte exerceu sobre o leitor. numa edição cuidada e
graficamente apelativa, este é um livro pouco comum nos tempos que correm. um
crítico citado refere ser um livro infinito, no sentido borgesiano, e tem toda
a razão. ficamos imediatamente presos a este texto: um encantamento similar ao
da primeira leitura de um dos antigos clássicos, como foi mágico esse momento - e como ainda o recordamos, tão nítido...
manguel apoia-se em dante e, numa espécie de
redescoberta da divina comédia, vai tecendo uma rede em torno da nossa ideia de
curiosidade, fundindo literatura, arte e filosofia. aprisionados nessa teia
ficamos a conhecer um pouco mais de shakespeare, diderot, são tomás de aquino,
oscar wilde, ulisses, sherlock holmes, tennyson e tantos outros, num desfile interminável de
personagens de um país das maravilhas, em que a maior é a curiosidade pela
curiosidade. embora acabe por ser de algum modo um relato autobiográfico, é também muito mais do
que isso: são muitos livros num só. e, à semelhança dos ensaios de montaigne -
o leitor actual mantém a sensação de que foram escritos ontem para serem lidos hoje
por si e para si - há parágrafos verdadeiramente geniais, como o que transcrevo
em seguida.
“A arte de ler é, em
muitas maneiras, contrária à arte de escrever. Ler é um ofício que enriquece o
texto concebido pelo autor, aprofundando-o e tornando-o mais complexo,
concentrando-o para que reflicta a experiência pessoal do leitor e expandindo-o
para que alcance os mais longínquos confins do universo do leitor e mais além.
Escrever, ao invés, é a arte da resignação. O escritor tem de aceitar o facto de
que o texto final não será mais do que um reflexo turvo da obra que concebera
na mente, menos iluminado, menos subtil, menos pungente, menos preciso. A
imaginação de um escritor é todo-poderosa e capaz de sonhar as criações mais
extraordinárias em toda a sua desejada perfeição. Depois, vem a descida à
linguagem e, na passagem do pensamento à expressão, muito – muitíssimo – se
perde. Quase não há excepções a esta regra. Escrever um livro é resignarmo-nos
a falhar, por muito honroso que seja esse falhanço.”
Alberto Manguel
13 setembro 2015
Dinheiro e
Literatura
A viúva do
escritor
pedia esmola
à minha avó
a título de
viúva
do escritor
*
Não percebo
nada
de
literatura
a personagem
principal
é a tia
Emiliana
porque é
quem tem o
dinheiro
*
O livro
inédito
do tio
escritor
havia de
fazer
a fortuna
das
herdeiras
mas o editor
pagou pouco
ou a prima
Berta mentiu
Adília Lopes
[ fabula urbis ]
12 setembro 2015
esta é a canção-assinatura dos starliters, e o meu twist favorito. e fico surpreendido por constatar que só agora me lembrei dele. este clip, que mostra o grupo em palco, é todo um documentário sobre o começo dos anos sessenta. e aquela coreografia, uma delícia inigualável.
Well they've got a new dance and it goes like this
(Bop shoo-op, a bop bop shoo-op)
Yeah the name of the dance is the Peppermint Twist
(Bop shoo-op, a bop bop shoo-op)
Well you like it like this, the Peppermint Twist
It goes round and round, up and down
Round and round, up and down
Round and round and up and down
And a one two three kick, one two three jump
Well meet me baby down at 45th street
Where the Peppermint Twisters meet
And you'll learn to do this, the Peppermint Twist
It's alright, all night, it's alright
It's okay, all day, it's okay
You'll learn to do this, the Peppermint Twist Yeah, yeah
11 setembro 2015
[ travessa do marquês de sampaio ]
10 setembro 2015
Tisana 28
Era uma vez
duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho
muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando
cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra
que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.
Ana Hatherly
avenue d and east 10th street
berenice abbott
09 setembro 2015
e, quebrando a promessa de não voltar a fazer referências à superlativa banda sonora de "la grande bellezza", numa súbita ânsia de um pouco de céu na terra, recordo este tema vocal de david lang sobre um texto yiddish.
Leyg ikh mir in bet arayn Un lesh mir oys dos fayer Kumen
vet er haynt tsu mir Der vos iz mire tayer Banen loyfn tsvey a tog Eyne kumt in
ovnt KhÕher dos klingen Ð glin glin glon Yo, er iz shoyn noent Shtundn hot di
nakht gor fil Eyns der tsveyter triber Eyne iz a fraye nor Ven es kumt mayn
liber Ikh her men geyt, men klapt in tir, Men ruft mikh on baym nomen Ikh loyf
arop a borvese Yo! er iz gekumen!
08 setembro 2015
fábula do consultório
sentimental
não aceites o amor que julgas ser o anjo
caído mas apenas é um nós imerecido –
sonha em mim o desejo que sinto em ti
e mantém aberto o teu coração fechado
07 setembro 2015
memphis minnie, aliás minnie lawlars, aliás kid douglas, aliás lizzie douglas, é uma das grandes vozes femininas dos azuis. hoje quase esquecida, gravou cerca de duzentas canções, sobretudo na década de trinta. gosto particularmente desta.
Hoodoo Lady, how do you do?
They tell me you take a boot and turn it to a brand new shoe
But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee
Hoodoo Lady, you can turn water to wine
I been wondering where have you been all this time
I'm setting here, broke, and I ain't got a dime
You ought to put something in these dukes of mine
But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee
Hoodoo Lady, I want you to unlock my door
So I can get in and get all my clothes
But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee
Now, look-a here, Hoodoo Lady, I want you to treat me right
Bring my man back home but don't let him stay all night
And don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee
Why, look-a here, Hoodoo Lady, I'm your friend
When you leave this time, come back again
But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee
06 setembro 2015
[ largo gen. sousa brandão ]
Uma noite,
quando o
mundo já era muito triste,
veio um
pássaro da chuva e entrou no teu peito,
e aí, como
um queixume,
ouviu-se
essa voz de dor que já era a tua voz,
como um
metal fino,
uma lâmina
no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento
move as cortinas desta casa.
O silêncio é
como uma pedra imensa,
encostada
à garganta.
José
Agostinho Baptista
05 setembro 2015
[ leituras ]
“frank lloyd wright - a life” ada louise huxtable ed. penguin (lives)
como refere a autora nesta pequena (grande) biografia, há -
e sempre houve - duas vidas de frank lloyd wright: a que ele criou e a que ele
viveu. a primeira, a sua versão embelezada, consiste em todas as mitologias que
associamos de imediato ao grande arquitecto - o génio sem par, o solitário
incompreendido, o cruzado visionário. a segunda, não menos rica, abarca a
realidade mais prosaica de uma vida amorosa cheia de tumultos, do dia-a-dia no
estúdio, das evasões fiscais e das dívidas permanentes nunca saldadas - um
retrato de alguém que soube criar uma existência acima das suas posses, e
talvez a única que seria capaz de igualar a primeira.
quase no final do livro, fico com a sensação que ambas foram
e são verdadeiras e que a verdade está, isso sim, inscrita na sua obra. os seus
edifícios permanecem no nosso imaginário e revelam-nos o significado da(s)
sua(s) vida(s) e da sua arte, que ele soube tão bem combinar para modificar a
arquitectura - e o nosso modo de a olhar - para sempre.
[aniversário]
festeja hoje sessenta e nove
(bonita idade) risonhas translações solares o cantor parsi farrokh bulsara, mais conhecido por alfredo mercúrio. vi-o uma vez ao vivo com os
rainha e devo confessar que nunca mais encontrei aquele tipo de presença sobre um palco. e sei que se
tornou imortal, como sempre acontece a quem morre por causa dessa pequena coisa
maluca chamada amor. parabéns - e que contes muitos.
Sometimes I get to feelin'
I was back in the old days - long ago
When we were kids, when we were young
Things seemed so perfect - you know?
The days were endless, we were crazy - we were young
The sun was always shinin' - we just lived for fun
Sometimes it seems like lately - I just don't know
The rest of my life's been - just a show.
Those were the days of our lives
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing is true -
When I look and I find I still love you.
You can't turn back the clock, you can't turn back the tide
Ain't that a shame?
I'd like to go back one time on a roller coaster ride
When life was just a game
No use sitting and thinkin' on what you did
When you can lay back and enjoy it through your kids
Sometimes it seems like lately I just don't know
Better sit back and go - with the flow
Cos these are the days of our lives
They've flown in the swiftness of time
These days are all gone now but some things remain
When I look and I find - no change
Those were the days of our lives yeah
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing's still true
When I look and I find, I still love you,
I still love you.
04 setembro 2015
[calçada do conde de penafiel]
03 setembro 2015
A cura
1
O poema
é mais
emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a
mesma
lesma é o
meu lema
2
O poema não
é
forma de
bolo
é barca de
tolo
(o tolo
saúda o velho mar
a seguir
despede-se ou despe-se)
3
O poema é
esconjuro do
escuro
ao meio-dia
coisa de
Kepler
e de bruxas
(eclipses e
elipses)
4
Vão-se os
poemas
fique o
poeta
por muito
pateta
para bater
na neta
5
A ira
pôs-me a
dançar
o vira
(só a
coitada
fica
sentada)
Adília Lopes
02 setembro 2015
formaram-se no início da década de trinta em indianápolis, estiveram na génese do doo-wop e todos os grupos vocais que se tornaram populares nos anos seguintes lhes devem imenso. esta canção é simplesmente… uma delícia.
Address unknown,
not even a trace of you.
Oh what I'd
give to see the face of you.
I was a fool
to stay away from you so long,
I should have
known there'd come a day when you'd be gone.
Address unknown
oh, how could I be so blind?
To think that
you would never be hard to find.
From the
place of your birth
To the end of
the earth
I've searched
only to find, only to find Address unknown.
01 setembro 2015
fábula a bordo
a verdade é que a bordo tudo se torna mais turvo
embarco neste navio
sem saber que é o teu corpo
e escrevo de cor atlas e mapas náuticos só para mim
sei que sou um
náufrago voluntário no teu mar sem fim
e me perco em cada vaga tua, como o vento na espuma
que a ondulação do teu corpo revive nesta maré nossa
anda, escreve-me
uma carta de amor numa carta de marear
guarda-a bem dentro de um envelope feito de pano de vela
e manda-ma num cofre escondido no porão de uma velha nau
ou então nesse convés cintilante do teu corpo de veleiro nu
e faz-me um soneto
em verso salgado por todo esse teu oceano
um daqueles que me põem o coração pequenino, onde há
velas
e caravelas que descobrem caminhos marítimos para âncoras
porque bem sabes que eu apenas tenho medo de me afundar
e não ter lugar no salva-vidas deste navio que é o teu
corpo