16 setembro 2015






Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado,

cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos días.

Nadie pierde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente

para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.







Jorge Luis Borges











baseado no cântico dos cânticos, 
um pouco de céu na terra pela mão de david lang



(…) 
just your cheeks just your neck just your couch and my perfume and my beloved and my breasts and my beloved and my love just your eyes and my beloved our couch our house our laughters and my love and my beloved just your shadow just your fruit 
(...) 







14 setembro 2015





[ leituras ]








“uma história da curiosidade”
alberto manguel
ed. tinta da china



conheci manguel pelo seu dicionário de lugares imaginários, depois pela sua história da leitura e, mais tarde, através do seu relato dos tempos em que leu para um borges já cego - e tive agora a confirmação da profunda influência que o ouvinte exerceu sobre o leitor.
numa edição cuidada e graficamente apelativa, este é um livro pouco comum nos tempos que correm. um crítico citado refere ser um livro infinito, no sentido borgesiano, e tem toda a razão. ficamos imediatamente presos a este texto: um encantamento similar ao da primeira leitura de um dos antigos clássicos, como foi mágico esse momento - e como ainda o recordamos, tão nítido... 
manguel apoia-se em dante e, numa espécie de redescoberta da divina comédia, vai tecendo uma rede em torno da nossa ideia de curiosidade, fundindo literatura, arte e filosofia. aprisionados nessa teia ficamos a conhecer um pouco mais de shakespeare, diderot, são tomás de aquino, oscar wilde, ulisses, sherlock holmes, tennyson e tantos outros, num desfile interminável de personagens de um país das maravilhas, em que a maior é a curiosidade pela curiosidade.
embora acabe por ser de algum modo um relato autobiográfico, é também muito mais do que isso: são muitos livros num só. 

e, à semelhança dos ensaios de montaigne - o leitor actual mantém a sensação de que foram escritos ontem para serem lidos hoje por si e para si - há parágrafos verdadeiramente geniais, como o que transcrevo em seguida.












“A arte de ler é, em muitas maneiras, contrária à arte de escrever. Ler é um ofício que enriquece o texto concebido pelo autor, aprofundando-o e tornando-o mais complexo, concentrando-o para que reflicta a experiência pessoal do leitor e expandindo-o para que alcance os mais longínquos confins do universo do leitor e mais além. Escrever, ao invés, é a arte da resignação. O escritor tem de aceitar o facto de que o texto final não será mais do que um reflexo turvo da obra que concebera na mente, menos iluminado, menos subtil, menos pungente, menos preciso. A imaginação de um escritor é todo-poderosa e capaz de sonhar as criações mais extraordinárias em toda a sua desejada perfeição. Depois, vem a descida à linguagem e, na passagem do pensamento à expressão, muito – muitíssimo – se perde. Quase não há excepções a esta regra. Escrever um livro é resignarmo-nos a falhar, por muito honroso que seja esse falhanço.”







Alberto Manguel







13 setembro 2015





Dinheiro e Literatura




A viúva do escritor
pedia esmola
à minha avó
a título de viúva
do escritor

*

Não percebo nada
de literatura
a personagem principal
é a tia Emiliana
porque é
quem tem o dinheiro

*

O livro inédito
do tio escritor
havia de fazer
a fortuna
das herdeiras
mas o editor pagou pouco
ou a prima Berta mentiu







Adília Lopes













[ fabula urbis ]





12 setembro 2015






esta é a canção-assinatura dos starliters, e o meu twist favorito. 
e fico surpreendido por constatar que só agora me lembrei dele. 
este clip, que mostra o grupo em palco, é todo um documentário 
sobre o começo dos anos sessenta. e aquela coreografia, uma delícia inigualável.



Well they've got a new dance and it goes like this

(Bop shoo-op, a bop bop shoo-op)

Yeah the name of the dance is the Peppermint Twist

(Bop shoo-op, a bop bop shoo-op)

Well you like it like this, the Peppermint Twist
It goes round and round, up and down

Round and round, up and down

Round and round and up and down
And a one two three kick, one two three jump
Well meet me baby down at 45th street

Where the Peppermint Twisters meet

And you'll learn to do this, the Peppermint Twist
It's alright, all night, it's alright

It's okay, all day, it's okay

You'll learn to do this, the Peppermint Twist

Yeah, yeah






10 setembro 2015





Tisana 28



Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.






Ana Hatherly













avenue d and east 10th street 
berenice abbott





09 setembro 2015







e, quebrando a promessa de não voltar a fazer referências à superlativa banda sonora de "la grande bellezza", 
numa súbita ânsia de um pouco de céu na terra, recordo este tema vocal de david lang sobre um texto yiddish.



Leyg ikh mir in bet arayn Un lesh mir oys dos fayer Kumen vet er haynt tsu mir Der vos iz mire tayer Banen loyfn tsvey a tog Eyne kumt in ovnt KhÕher dos klingen Ð glin glin glon Yo, er iz shoyn noent Shtundn hot di nakht gor fil Eyns der tsveyter triber Eyne iz a fraye nor Ven es kumt mayn liber Ikh her men geyt, men klapt in tir, Men ruft mikh on baym nomen Ikh loyf arop a borvese Yo! er iz gekumen!





08 setembro 2015






fábula  do  consultório  sentimental





não aceites o amor que julgas ser o anjo
caído mas apenas é um nós imerecido –
sonha em mim o desejo que sinto em ti
e mantém aberto o teu coração fechado






07 setembro 2015







memphis minnie, aliás minnie lawlars, aliás kid douglas, aliás lizzie douglas, é uma das grandes vozes femininas dos azuis. hoje quase esquecida, gravou cerca de duzentas canções, sobretudo na década de trinta. gosto particularmente desta.




Hoodoo Lady, how do you do?
They tell me you take a boot and turn it to a brand new shoe 

But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee 



Hoodoo Lady, you can turn water to wine 

I been wondering where have you been all this time 

I'm setting here, broke, and I ain't got a dime 

You ought to put something in these dukes of mine 

But don't put that thing on me 

'Cause I'm going back to Tennessee 



Hoodoo Lady, I want you to unlock my door 

So I can get in and get all my clothes 

But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee 



Now, look-a here, Hoodoo Lady, I want you to treat me right 

Bring my man back home but don't let him stay all night 

And don't put that thing on me 

'Cause I'm going back to Tennessee 



Why, look-a here, Hoodoo Lady, I'm your friend 

When you leave this time, come back again
But don't put that thing on me
'Cause I'm going back to Tennessee






06 setembro 2015








[ largo gen. sousa brandão ]










Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
 encostada à garganta. 







José Agostinho Baptista





05 setembro 2015






[ leituras ]




















“frank lloyd wright - a life”
ada louise huxtable
ed. penguin (lives)


como refere a autora nesta pequena (grande) biografia, há - e sempre houve - duas vidas de frank lloyd wright: a que ele criou e a que ele viveu. a primeira, a sua versão embelezada, consiste em todas as mitologias que associamos de imediato ao grande arquitecto - o génio sem par, o solitário incompreendido, o cruzado visionário. a segunda, não menos rica, abarca a realidade mais prosaica de uma vida amorosa cheia de tumultos, do dia-a-dia no estúdio, das evasões fiscais e das dívidas permanentes nunca saldadas - um retrato de alguém que soube criar uma existência acima das suas posses, e talvez a única que seria capaz de igualar a primeira.
quase no final do livro, fico com a sensação que ambas foram e são verdadeiras e que a verdade está, isso sim, inscrita na sua obra. os seus edifícios permanecem no nosso imaginário e revelam-nos o significado da(s) sua(s) vida(s) e da sua arte, que ele soube tão bem combinar para modificar a arquitectura - e o nosso modo de a olhar - para sempre.











[aniversário]

festeja hoje sessenta e nove (bonita idade) risonhas translações solares o cantor parsi farrokh bulsara, 
mais conhecido por alfredo mercúrio. vi-o uma vez ao vivo com os rainha e devo confessar que nunca mais encontrei 
aquele tipo de presença sobre um palco. e sei que se tornou imortal, como sempre acontece a quem morre 
por causa dessa pequena coisa maluca chamada amor. parabéns - e que contes muitos.



Sometimes I get to feelin'
I was back in the old days - long ago
When we were kids, when we were young
Things seemed so perfect - you know?
The days were endless, we were crazy - we were young
The sun was always shinin' - we just lived for fun
Sometimes it seems like lately - I just don't know
The rest of my life's been - just a show.
Those were the days of our lives
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing is true -
When I look and I find I still love you.
You can't turn back the clock, you can't turn back the tide
Ain't that a shame?
I'd like to go back one time on a roller coaster ride
When life was just a game
No use sitting and thinkin' on what you did
When you can lay back and enjoy it through your kids
Sometimes it seems like lately I just don't know
Better sit back and go - with the flow
Cos these are the days of our lives
They've flown in the swiftness of time
These days are all gone now but some things remain
When I look and I find - no change
Those were the days of our lives yeah
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing's still true
When I look and I find, I still love you,
I still love you.






03 setembro 2015





A cura




1
O poema
é mais emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a mesma
lesma é o meu lema

2
O poema não é
forma de bolo
é barca de tolo
(o tolo saúda o velho mar
a seguir despede-se ou despe-se)

3
O poema é
esconjuro do escuro
ao meio-dia
coisa de Kepler
e de bruxas
(eclipses e elipses)

4
Vão-se os poemas
fique o poeta
por muito pateta
para bater na neta

5
A ira
pôs-me a dançar
o vira
(só a coitada
fica sentada)






Adília Lopes





02 setembro 2015






formaram-se no início da década de trinta em indianápolis, estiveram na génese do doo-wop e todos os grupos vocais que se tornaram populares nos anos seguintes lhes devem imenso. esta canção é simplesmente… uma delícia.




Address unknown, not even a trace of you.


Oh what I'd give to see the face of you.


I was a fool to stay away from you so long,


I should have known there'd come a day when you'd be gone.


Address unknown oh, how could I be so blind?


To think that you would never be hard to find.
From the place of your birth
To the end of the earth
I've searched only to find, only to find


Address unknown.






01 setembro 2015







fábula  a  bordo





a verdade é que a bordo tudo se torna mais turvo


embarco neste navio sem saber que é o teu corpo
e escrevo de cor atlas e mapas náuticos só para mim


sei que sou um náufrago voluntário no teu mar sem fim
e me perco em cada vaga tua, como o vento na espuma
que a ondulação do teu corpo revive nesta maré nossa


anda, escreve-me uma carta de amor numa carta de marear
guarda-a bem dentro de um envelope feito de pano de vela
e manda-ma num cofre escondido no porão de uma velha nau
ou então nesse convés cintilante do teu corpo de veleiro nu


e faz-me um soneto em verso salgado por todo esse teu oceano
um daqueles que me põem o coração pequenino, onde há velas
e caravelas que descobrem caminhos marítimos para âncoras
porque bem sabes que eu apenas tenho medo de me afundar
e não ter lugar no salva-vidas deste navio que é o teu corpo















[cais de alcântara]