03 junho 2020






um  soneto  irónico




o que eu gosto mesmo é das manhãs em que tudo
está no preciso local onde deveria estar: a folhagem
a balouçar no ramo, o pau de giz ao lado do quadro,
o silvo da chaleira, a gaivota aos gritos sobre a praia,

a nuvem indecisa, o mecânico a manobrar o torno,
o selo no envelope, a recém-nascida agarrada à vida,
a relva agradecida pela chuva, o relógio sem pilha há
pelo menos um mês, o autocarro a chegar à paragem,

o livro abandonado no sofá, o carpinteiro a escolher 
o serrote, a borboleta ali pousada, a primeira nota da
ária das variações goldberg, a respiração condensada

na vidraça, alguém na cozinha a preparar uma sopa 
de legumes, a vontade de compor um soneto irónico
e um poeta desesperado perante a página em branco.






30 maio 2020






A  minha  heroína




No momento em que a lebre está a cortar a meta
a tartaruga voltou a parar de novo
à beira da estrada,
desta vez para esticar o pescoço
e mordiscar um pouco de relva doce,
ao contrário da última
em que foi distraída
por uma abelha zumbindo no coração de uma flor silvestre.




Billy Collins





(tradução minha)

18 maio 2020






qual  é  o  sexo  do  mar ?



antes da memória se ter
tornado personagem
era o tempo da infância,
o início do capítulo primeiro:
havia um cheiro a maresia:
brincávamos nos nossos corpos
imberbes: respondíamos às
mais improváveis adivinhas:
qual é o sexo do mar?




Rui Tinoco





16 maio 2020






foi o nick drake e agora o elliott smith
curioso como em tempos depressivos
nos lembramos de finais nada felizes











12 maio 2020

10 maio 2020






Depois  de  amanhã




Se tivesse de escolher um favorito
dentre os quatro heterónimos de Fernando Pessoa,
teria de ser Álvaro de Campos,
escolhido para o papel de Sensacionista Cansado.

Esta manhã nada acontece de especial,
só a gata enrolando-se novamente numa cadeira
e a água para o chá a começar a ferver – 
uma cena que o Álvaro teria achado inteiramente suficiente,

ele que não começou nem terminou nada,
que prefere a janela
à porta, o amanhã ao hoje
ou melhor ainda, o depois de amanhã,

essa cidadela de quietude, intocada
pela ambição ou o trabalho, sem mácula sequer
de uma mão a aproximar a agulha de um disco
ou deslocando uma cadeira do pátio para o sol.

Sim, gosto do Pessoa sonhador
que evita os eléctricos e os mercados,
e que, como um floco de neve, quase nem existe,
mas isso não significa que não goste dos outros.

Agora mesmo, na janela das traseiras,
os quatro Pessoas perseguem-se uns aos outros
à volta de uma grande árvore, segurando os seus chapéus,
cada um deles vestido de forma mais extravagante

que o outro. Acima deles um céu pálido,
nuvens brancas como barcos à vela sobre Portugal.
Consigo ver tudo desde o meu sofá onde
toco algumas melodias tristes no flautim.

Entretanto, a água para o chá evaporou-se no ar,
e a coroa de chamas queima apenas a chaleira,
e a gata mudou de lugar.
Ela adora a cama por fazer, os lençóis montanhosos.





Billy Collins





[ trad. Ricardo Marques e Ricardo Vasconcelos ]
[ e lê-se melhor aqui 

08 maio 2020





saudades de ouvir azuis ao vivo...
como este, que uma vez pude ver
cantado por steve miller num palco










02 maio 2020







partes  de  ti 





surgem vindas do nada em nocturnos que parecem reais
partes de ti feitas memórias nítidas cristalizadas em mim
os silêncios de palavras não proferidas no cântico nosso
a inquieta ansiedade antes do sereno timbre da tua voz
coral rubro em repouso colorindo os lábios dormentes
mãos espraiadas como algas vivas sobre o ventre mudo 
os densos bosques sonhados nos teus cabelos ao vento
acreditar que foi apenas uma mão quem escreveu isto






27 abril 2020







Sobre  a  palavra





Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente







Eugénio de Andrade








21 abril 2020






a recordar os saudosos timbuk3, dei por mim a desejar que o futuro
fosse tão brilhante que tivéssemos mesmo de usar uns óculos de sol











15 abril 2020






não sei dançar. mas, quando ouço esta canção
cantada por helen forrest com a orquestra de
harry james, devo confessar: apetece-me tanto









12 abril 2020





partes  de  mim




lisboa é uma cidade em que é fácil perderes-te.
comigo passou-se assim: andava pelas calçadas
a pensar nas mesmas pedras pisadas pelo eça e
pelo cesário, depois via irmãos pessoa em todo
o lado, o bernardo nas arcadas do terreiro do
paço, o álvaro no elevador de santa justa. mas
o pior foi quando comecei a perder partes de
mim, deixava a cabeça no castelo ou o ombro
no cais das colunas. durante um tempo ainda
conseguia recuperar certas peças nos perdidos
e achados, mas depois desisti, o que aparecia
por lá eram partes de outros, esquecidas aqui
e ali, restituídas anonimamente. e agora não
sei quem sou, nem onde possa estar. acredita
que foi apenas uma mão quem escreveu isto.






26 março 2020







O  fio  da  fábula




O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.


(Cnossos, 1984)




Jorge Luis Borges







21 março 2020






começou a primavera, seguramente uma que não 
imaginávamos possível. gostava que esta canção
de angel olsen a pudesse tornar menos ansiosa...












18 março 2020






não creio que o venha a ouvir em abril. os concertos
de todas as digressões estão a ser cancelados/adiados.
mas esta canção do novo disco era uma daquelas que
queria mesmo ouvir ao vivo. como ele diz: fico à espera.












15 março 2020





a  literatura  foi  tão  efémera




se eu soubesse que ia ser assim, jamais a literatura
teria entrado na minha vida. ela alicia-nos desde a
adolescência com romances, novelas, poesia e até
teatro e depois é isto. instala-se em mim, em ti, em
todos nós esta espécie de insatisfação permanente.
sim, diz-me, o que fez por ti a literatura senão dar-te
a consciência da tua insuficiência perante um texto
que te aperta a garganta ou faz o teu coração falhar
um batimento. ou enumera lá as grandes vantagens
obtidas por deixares que essas letras alheias criassem
no teu espírito imagens irreais, situações impossíveis
e emoções pouco saudáveis. a verdade é que aquilo
que foste lendo, as dezenas de livros, os milhões de
palavras, se perdeu ao longo dos anos. guarda-se em
ti uma vaga memória de um ou outro personagem
célebre e daqueles enredos mais famosos, mas sabes
no teu íntimo que leste para esquecer, a literatura foi
tão efémera quanto a recordação dos seus benefícios.






10 março 2020

05 março 2020





na eterna demanda do nocturno mais-que-perfeito,
dou por mim muitas vezes a trautear este velho tema
de victor young/ned washington, recriado pelo trio de
bill evans ao vivo em 1961, numa gravação que veio a
tornar-se um instant classic. podia ser apenas mais uma
versão de um standard, mas não conheço outra superior.