16 janeiro 2020






Linguagem  figurada



Se eu fosse árvore crescia-
-te numa mão cheia
se fosses o mar fazia-
-te castelos brancos de areia.

Se fosses flor arancava-
-te com raiz e tudo
se eu fosse fogo fazia-
-te a casa em cinzas-veludo.

Se eu fosse ninfa sugava-
-te para o fundo do mar
se fosses estrela dava-
-te um tiro para caíres do ar. 




Ulla Hahn





14 janeiro 2020

09 janeiro 2020






bibliosmia



é a primeira coisa que faço quando abro um livro:
aproximá-lo das narinas abertas e inalar aquele seu
perfume, como se dependente de qualquer droga.
cedo percebi que todos os livros possuem um odor
corporal próprio. oliver tearle cunhou uma palavra
para referir esse aroma pessoal e intransmissível, a
belíssima bibliosmia, derivada dos termos em grego
para designar livro e cheiro. não será um fenómeno
científico, há que admiti-lo, mas algo leva as pessoas
a considerarem que o aroma do livro é afinal uma
parte importante da experiência da sua leitura. esse
perfume individual identifica o livro, há quem diga
mesmo que pode identificar um título pelo cheiro
do volume. e por que razão os livros nos chegam às
mãos assim embuídos de aroma característico, pode
perguntar-se. pois bem, para além do cheiro típico
de tintas e colas, que desaparecem após alguns dias,
o verdadeiro odor de um livro resulta a mais longo
prazo da degradação química de compostos dentro
da folha de papel. e também isso é poético: aquilo
que inalamos é a morte lenta do livro, aspiramos o
seu fim, respiramo-lo depois em nós, inconscientes
de que nos sobreviverá por muitos séculos. e reside
nesse decaimento aquela conhecida regra geral que
afirma ser tanto melhor o cheiro quanto mais velho
for um livro. porque todo o papel contém celulose e 
lenhina, polímero de álcoois aromáticos que é ainda
responsável pelo amarelecimento das páginas, embora
os livros velhos contenham também muitas substâncias
químicas específicas, tais como benzaldeído, etilbenzeno,
tolueno ou vanilina, e este nome sugere que a bibliosmia
resultante só poderia ser doce. mas um livro velho e em
segunda mão também pode cheirar ao tabaco que o seu
leitor prévio fumava, à madeira da estante onde alguém
o pousou, e isso torna-o um arquivo único de memórias.
muito se falou na morte, esta bem mais rápida, do livro
tradicional com o advento da electrónica. acontece que
a bibliosmia jamais permitiria que o livro feito de papel
alguma vez pudesse desaparecer, é algo tão impossível
como inalar um desses livros em formato electrónico.
não há futuro para os livros electrónicos porque não
são livros, cheiram a combustível queimado, disse-o
uma vez ray bradbury, talvez evocando uma distopia
que ardeu aos quatrocentos e cinquenta e um graus
fahrenheit. e se o devir do livro é incerto, para mim
ele apenas é pautado por esse lento e suave declínio
dos materiais que o compõem, em decadência quase
imperceptível. por vezes penso que gostaria de sentir
o meu próprio odor impregnado nas folhas que leio,
poder deixar uma herança aromática aos bibliósmicos
vindouros que abram e inalem os livros que certamente
me sobreviverão. até lá, vou aspirando linhas de poesia.





04 janeiro 2020

30 dezembro 2019






desde que anoto os livros que leio (creio que comecei a fazê-lo
com a chegada do novo milénio) nunca tinha atingido um tão
grande número, parece-me mesmo inultrapassável nos anos mais
próximos. e, de novo, voltei a registar essas leituras no goodreads
em resumo: consegui ultrapassar a meta de 50 (foram 67 livros),
revisitar os contistas americanos (14 livros) e aumentar a quota
da poesia (32 livros). vontades para o ano que vem? se possível,
voltar a ler pelo menos cinco dezenas de livros, manter a presença
incontornável da poesia e ainda duas novidades: voltar a ler em
francês (tentei e gostei) e dedicar-me mais à leitura de teatro.











25 dezembro 2019





o  quarto  rosa



hoje reparei que a tira magenta
da embalagem de rivotril
combina com as paredes
do meu quarto rosa:
foi a primeira vez que me deram
comprimidos com algodão
menina, é dormir tudo o que eu quero
não é morte o que vim comprar
só preciso de algum descanso,
sabe,
vou confessar-lhe,
é a dormência nas mãos
momentos antes de adormecer
sobretudo adoro
não me preocupar mais
com as horas de sono
que me restam
com os dias de vida
que me gastam
isso e veja bem a harmonia das cores
a caixinha magenta
fica tão bem
no meu quarto rosa.




Francisca Camelo





22 dezembro 2019





a arrumar discos antigos, e como muitas vezes acontece,
voltei a ouvir coisas velhas dos who. esta canção, disse-me
um amigo que foi baixista numa banda, é considerada por muita
gente como a que possui o fraseado de baixo mais peculiar de todas:
parece sempre tratar-se de um instrumento ocupado numa espécie de
solo, independente e alheio à melodia que os restantes vão tocando. genial.










14 dezembro 2019






doenças  que  afligem  a  poesia



sem etiologia definida, a esclerose senil invadiu o poema
de início era quase imperceptível, pequenos lapsos aqui e
ali, faltas de concordância de pessoa ou género atribuíveis
a gralhas na impressão ou omissão de correcção ortográfica 
porém o decurso do tempo agravou os sintomas, inegáveis
os crescentes espaços em branco entre palavras, as muitas
 frases sem sentido, a incoerência desalinhada das estrofes
e até uma curiosa ode alusiva a certas doenças que afligem
a poesia ficou reduzida aos nove versos que acabaste de ler






04 dezembro 2019

29 novembro 2019





Estão  podres  as  palavras




Estão podres as palavras – de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras – como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece o mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.





Jorge de Sena





26 novembro 2019




[ e.f.e.m.é.r.i.d.e ]



miss anna mae bullock festeja
hoje oitenta risonhos outonos.
parabéns tina! & keep rockin'...









25 novembro 2019





regressei a um sítio onde seguramente não entrava
há mais de vinte anos. não me pareceu que tivesse
envelhecido bem mas, por outro lado, parece óbvio
reconhecer que já era velhíssimo quando nasceu.




[ pavilhão chinês ]





19 novembro 2019





agá  agá



e confesso que já pensei nisto a sério:
passar a assinar homero honorato ou
hermínia hungria ou hugo herrera ou
herculano herédia ou heitor horta ou
hélio hamburgo ou heloísa hilário ou
helena holanda ou henrique hogan ou
hortência hermano ou humberto harpa 
ou qualquer possível parelha de nome e
sobrenome ambos iniciados pela letra h   
para poder utilizar o acrónimo agá agá,
o qual, quando pensamos em herberto
helder ou hilda hilst, parece ser garantia
de talento certo e caudalosa veia poética





14 novembro 2019





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :





entre estas duas catedrais góticas, uma feita pelo homem, outra pela natureza













08 novembro 2019





e, sem motivo aparente, vem do fundo perdido da memória aquele verso
you just picked up a hitcher, a prisoner of the white lines on the freeway










06 novembro 2019





Ella  y  Yo



Ella lee libros de yoga, de budismo, de numerología.
Yo leo poesía, teatro, ensayos, novelas, todo
lo que cae en mis manos.

Ella es vegetariana.
Yo, omnívoro.

Ella es disciplinada, ascética, creyente.
Yo, escéptico y perezoso.

Ella cree en la reencarnación de las almas.
Yo soy agnóstico.

Ella está segura.
Yo, no.

Ella es presente de indicativo.
Yo, condicional en mis mejores días
y en los peores pretérito
pluscuamperfecto de subjuntivo.

Ella es un hombre de acción.
Yo, una mujer confundida.

Ella quiere que yo cambie.
Yo, también.

Ella sabe lo que quiere y lo que necesita
y lo que quiero y necesito yo.
Yo sólo sé que no sé nada
pero no estoy muy seguro.

Ella es la luna de día.
Yo, un girasol en la noche.

Ella y yo, contra viento y marea,
nos amamos.



Juan Vicente Piqueras