25 dezembro 2019





o  quarto  rosa



hoje reparei que a tira magenta
da embalagem de rivotril
combina com as paredes
do meu quarto rosa:
foi a primeira vez que me deram
comprimidos com algodão
menina, é dormir tudo o que eu quero
não é morte o que vim comprar
só preciso de algum descanso,
sabe,
vou confessar-lhe,
é a dormência nas mãos
momentos antes de adormecer
sobretudo adoro
não me preocupar mais
com as horas de sono
que me restam
com os dias de vida
que me gastam
isso e veja bem a harmonia das cores
a caixinha magenta
fica tão bem
no meu quarto rosa.




Francisca Camelo





22 dezembro 2019





a arrumar discos antigos, e como muitas vezes acontece,
voltei a ouvir coisas velhas dos who. esta canção, disse-me
um amigo que foi baixista numa banda, é considerada por muita
gente como a que possui o fraseado de baixo mais peculiar de todas:
parece sempre tratar-se de um instrumento ocupado numa espécie de
solo, independente e alheio à melodia que os restantes vão tocando. genial.










14 dezembro 2019






doenças  que  afligem  a  poesia



sem etiologia definida, a esclerose senil invadiu o poema
de início era quase imperceptível, pequenos lapsos aqui e
ali, faltas de concordância de pessoa ou género atribuíveis
a gralhas na impressão ou omissão de correcção ortográfica 
porém o decurso do tempo agravou os sintomas, inegáveis
os crescentes espaços em branco entre palavras, as muitas
 frases sem sentido, a incoerência desalinhada das estrofes
e até uma curiosa ode alusiva a certas doenças que afligem
a poesia ficou reduzida aos nove versos que acabaste de ler






04 dezembro 2019

29 novembro 2019





Estão  podres  as  palavras




Estão podres as palavras – de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras – como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece o mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.





Jorge de Sena





26 novembro 2019




[ e.f.e.m.é.r.i.d.e ]



miss anna mae bullock festeja
hoje oitenta risonhos outonos.
parabéns tina! & keep rockin'...









25 novembro 2019





regressei a um sítio onde seguramente não entrava
há mais de vinte anos. não me pareceu que tivesse
envelhecido bem mas, por outro lado, parece óbvio
reconhecer que já era velhíssimo quando nasceu.




[ pavilhão chinês ]





19 novembro 2019





agá  agá



e confesso que já pensei nisto a sério:
passar a assinar homero honorato ou
hermínia hungria ou hugo herrera ou
herculano herédia ou heitor horta ou
hélio hamburgo ou heloísa hilário ou
helena holanda ou henrique hogan ou
hortência hermano ou humberto harpa 
ou qualquer possível parelha de nome e
sobrenome ambos iniciados pela letra h   
para poder utilizar o acrónimo agá agá,
o qual, quando pensamos em herberto
helder ou hilda hilst, parece ser garantia
de talento certo e caudalosa veia poética





14 novembro 2019





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :





entre estas duas catedrais góticas, uma feita pelo homem, outra pela natureza













08 novembro 2019





e, sem motivo aparente, vem do fundo perdido da memória aquele verso
you just picked up a hitcher, a prisoner of the white lines on the freeway










06 novembro 2019





Ella  y  Yo



Ella lee libros de yoga, de budismo, de numerología.
Yo leo poesía, teatro, ensayos, novelas, todo
lo que cae en mis manos.

Ella es vegetariana.
Yo, omnívoro.

Ella es disciplinada, ascética, creyente.
Yo, escéptico y perezoso.

Ella cree en la reencarnación de las almas.
Yo soy agnóstico.

Ella está segura.
Yo, no.

Ella es presente de indicativo.
Yo, condicional en mis mejores días
y en los peores pretérito
pluscuamperfecto de subjuntivo.

Ella es un hombre de acción.
Yo, una mujer confundida.

Ella quiere que yo cambie.
Yo, también.

Ella sabe lo que quiere y lo que necesita
y lo que quiero y necesito yo.
Yo sólo sé que no sé nada
pero no estoy muy seguro.

Ella es la luna de día.
Yo, un girasol en la noche.

Ella y yo, contra viento y marea,
nos amamos.



Juan Vicente Piqueras



28 outubro 2019

25 outubro 2019






fábula  para  jimi  hendrix 




na manhã seguinte ao dia em que fez dezasseis anos, após contar o
dinheiro recebido em prendas na véspera, deus apanhou o metro
e dirigiu-se ao centro comercial. entrou na loja de discos e por fim
decidiu comprar o álbum que há tanto tempo andava a namorar.
de regresso a casa fechou-se no quarto, removeu a rodela de vinilo
preto de dentro da capa cartonada, onde sobre a imagem daquelas
dezanove mulheres nuas se podia ler electric ladyland, e pousou-a
cuidadosamente sobre o prato do gira-discos. e depois, assim que
começaram a ouvir-se os primeiros riffs de voodoo child, deus fez
um gesto com a mão imitando james marshall hendrix, que num
velho poster pendurado na parede apontava a sua stratocaster na
direcção do público, e voltou a reparar que jimi tinha fechado os
olhos. cerrou os seus também e imaginou-se sobre aquele palco,
a tocar com ele, a ser ele até. então, empunhando uma guitarra 
imaginária e com o pé sobre um pedal wah-wah, deus sorriu de
felicidade. pela primeira vez na sua vida, sentiu que era imortal.






17 outubro 2019





o pessimista que habita em mim diz-me que a caneca está já meio vazia
o optimista que mora em mim refere que o prato ainda está meio cheio
porém o engenheiro que há em mim esclarece que a caneca e o prato
possuem muito provavelmente o dobro do tamanho que deviam ter










15 outubro 2019





a mais recente formação dos king crimson, 
com os três bateristas, é qualquer coisa...










10 outubro 2019






canção  da  infância 




quando a criança era uma criança
caminhava a balouçar os braços,
queria que o regato fosse um rio,
que o rio fosse uma torrente
e que este charco fosse o mar.

quando a criança era uma criança
não sabia que era uma criança,
tudo tinha alma
e todas as almas eram uma.

quando a criança era uma criança
não tinha opinião sobre nada,
não possuía hábitos,
sentava-se muitas vezes de pernas cruzadas,
saía a correr,
tinha uma madeixa despenteada no cabelo
e não fazia caras quando era fotografada.

quando a criança era uma criança
era o tempo destas perguntas:
por que sou eu, e por que não tu?
por que estou aqui, e por que não ali?
quando começou o tempo, e onde acaba o espaço?
é a vida sob o sol não apenas um sonho?
não é aquilo que vejo e ouço e cheiro
apenas uma ilusão de um mundo perante o mundo?
a maldade existe mesmo e
existem pessoas que são mesmo más?
como pode ser que eu, que sou eu,
não existisse antes de vir a ser eu,
e que um dia eu, que sou eu,
não mais serei quem sou?

quando a criança era uma criança,
engasgava-se com espinafres, ervilhas, pudim de arroz
e couve-flor cozida em vapor,
e agora come isso tudo, e não apenas porque tem de ser.

quando a criança era uma criança,
acordou uma vez numa cama estranha
e agora fá-lo repetidamente.
muitas pessoas pareciam então bonitas,
e agora apenas algumas parecem, por pura sorte.
visualizara uma imagem clara do paraíso
e agora pode no máximo adivinhar,
não conseguia conceber o nada
e hoje estremece ao pensar nisso.

quando a criança era uma criança
brincava com entusiasmo,
e, agora, tem tanta emoção quanto então,
mas apenas quando se trata do seu trabalho.

quando a criança era uma criança
bastava comer uma maçã, ... pão,
e o mesmo é assim agora.

quando a criança era uma criança
as bagas enchiam a sua mão como só as bagas fazem
e ainda é assim agora,
as nozes frescas tornavam a sua língua áspera
e ainda o fazem agora,
tinha, no cume de cada montanha,
o desejo de uma montanha ainda mais alta,
e em cada cidade
o desejo de uma cidade ainda maior,
e ainda é assim.
alcançava cerejas nos ramos mais altos das árvores
com uma alegria que ainda hoje possui,
tinha uma timidez em frente de estranhos
e ainda a sente mesmo agora.
esperava pela primeira neve
e assim a espera ainda agora.

quando a criança era uma criança
atirava um galho qual lança contra uma árvore,
e ela estremece ainda agora.





Peter Handke





(tradução mais-que-imperfeita minha)