Quando me ofereceram O Livro dos
Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, procurei imediatamente na letra B
o verbete sobre o autor.
Afonso Cruz
12 dezembro 2016
[ às janelas verdes ]
07 dezembro 2016
estamos a menos de um mês do fim do ano, e penso que já o posso afirmar:
para mim, o melhor disco de dois mil e dezasseis foi o de miss olsen.
04 dezembro 2016
" lunchtime atop a skyscraper "
(construção do edifício rca, new york, 1932)
fotógrafo desconhecido
"It’s
the most perilous yet playful lunch break ever captured: 11 men casually
eating, chatting and sneaking a smoke as if they weren’t 840 feet above
Manhattan with nothing but a thin beam keeping them aloft, with Central Park
behind – and low. That comfort is real; the men are among the construction
workers who helped build Rockefeller Center. But the picture, taken on the 69th
floor of the flagship RCA Building (now the GE Building), was staged as part of
a promotional campaign for the massive skyscraper complex. While the
photographer and the identities of most of the subjects remain a mystery—the
photographers Charles C. Ebbets, Thomas Kelley and William Leftwich were all
present that day, and it’s not known which one took it—there isn’t an
ironworker in New York City who doesn’t see the picture as a badge of their
bold tribe. In that way they are not alone. By thumbing its nose at both danger
and the Depression, Lunch Atop a Skyscraper came to symbolize American
resilience and ambition at a time when both were desperately needed. It has since
become an iconic emblem of the city in which it was taken, affirming the
romantic belief that New York is a place unafraid to tackle projects that would
cow less brazen cities. And like all symbols in a city built on hustle, Lunch
Atop a Skyscraper has spawned its own economy. It is the Corbis photo agency’s
most reproduced image. And good luck walking through Times Square without
someone hawking it on a mug, magnet or T-shirt."
03 dezembro 2016
e talvez a primeira morada (e)s(t)eja sempre na casa oposta
como bem me recorda este meu americano tranquilo.
The ceiling is on the floor Floor in the refrigerator
What
of the door? It's there no more
When it rains inside There is nowhere to hide
Which is why I'm all sunshine Ain't nobody want
you
Ain't nobody want me too If hell is above you You're even lower
than I do
Oh why Why does it rain inside?
Mine is in a busted house Rain inside when it's sunny
out
Outside in/ Inside out One step forward two steps back
They say opposites attract
But they haven't tracked In my heart shack
The opposite
of white Isn't white but rainbow blood
This house is too
narrow And made from endangered wood
Oh why Why does it rain inside?
How do you make a magnet? You create a potential
Just an old refrigerator magnet Repelled and pulled
Ooohhhh why so needy? Tell me why
Living in a golden age Why do these words sound so
strange?
Nothings changed Inside this cage From the window
I can see
You coming back to me How can this be? My windows
a dream
Pet snakes in the hall Pet snakes wall to wall
Coiling where the mice crawl Winter, spring, summer and
fall
Oh why Why does it rain inside?
01 dezembro 2016
primeira morada
talvez seja sempre difícil o azul
quando atrás das casas não se fala de árvores
nem de peixes
quando o corpo não consegue a liquidez dos aquários
a luz a trespassar pequenos seixos e guelras
talvez seja difícil respirar pelo beijo
quando não há mar onde afogar os cabelos
eu queria esse segredo de barcos de papel abandonados à
corrente
fechar os olhos e trazer-te à língua dos lençóis
uma cama virada a sul onde as aves assobiassem de madrugada
e a pele soubesse a mel e figos
onde toda a geometria fosse a lentidão das mãos
sobre porcelana ou vidro
e nada quebrasse a moldura dos dias
Ana Caeiro
30 novembro 2016
e é verdade. quinze meses após as “fábulas de lisboa” aventurei-me de novo a escrever um livrinho. e, em resumo, este consiste no recontar de alguns conhecidos mitos gregos clássicos (rapto de europa, minos e pasífae, teseu e o minotauro, a queda de ícaro…) dentro de uma espécie de biografia de dédalo, o conhecido inventor/arquitecto/engenheiro, para sempre ligado à concepção do labirinto de cnossos. é uma edição totalmente de autor, sem qualquer apoio de uma editora. estou orgulhoso do resultado.
e, claro, estão todos convidados para uma breve e indolor sessão de lançamento:
[o texto inclui uma "nota ao leitor" final, de onde retirei este pequeno excerto]
(…) e logo
me ocorreu que a história poderia ser a do confronto entre
dois homens, e também que dédalo teria sido vítima
da sua
brilhante inteligência, por ser alguém preocupado
com
essa integridade interior, devotado à salvaguarda
não
apenas do seu espírito criativo mas também da liberdade
de
poder pensar por si, desejando proteger de tudo e todos
os seus
pensamentos mais profundos, o mais íntimo da alma.
e nisso
teria decerto sido muito semelhante a montaigne,
que consagrou
toda uma vida a observar-se, crítico de si
mas
vivendo-se em si e permanecendo sempre ele próprio,
passando
para o papel essa observação da condição humana,
fiel às
suas ideias e íntegro para com a sua consciência.
julguei
ainda possível que alguma da poesia oriental,
presente
mas dispersa e mascarada ao longo desta história
e que
muito mais tarde nos trouxeram kabir e tagore,
fosse
igualmente já conhecida na orla do mediterrâneo,
talvez
propagada por actores, arautos de uma tradição oral
num tempo
anterior ao do livro escrito, artistas que nas tragédias
gregas
souberam encontrar um veículo para nos contarem os mesmos
episódios,
e que tentei homenagear recriando de forma grosseira
os sumarentos
diálogos retratados nessas antigas peças teatrais.
e, mantendo
aberta a possibilidade de tudo imaginar,
creio
que perante a criatividade polifacetada de dédalo
jamais
o eterno labirinto da heteronímia pessoana
poderia
ser tomado como uma ambiguidade inconcebível,
e vim
descobrir um paralelo com aquele desconsolado
guarda-livros
que à sua maneira foi um ulisses moderno,
à
deriva por lisboa em busca de uma ítaca inatingível
e também ele um minotauro no
labirinto do seu desassossego. (…)
e, por causa de frank zappa, recordei o início da carreira de steve vai como guitarrista da sua banda
e depois esta homenagem que escreveu alguns anos após o seu desaparecimento:
26 novembro 2016
{ o jardim das delícias animadas }
25 novembro 2016
{ saudades daquele tempo em que tirávamos selfies sem imagem }
14 novembro 2016
auto-retrato aos 28 anos
albrecht dürer
11 novembro 2016
…e ao fim de não sei quantos anos, os avôzinho estão de regresso…
(tão bom)
08 novembro 2016
Soneto XXII * Não diga o meu espelho que envelheço, se a juventude e tu têm igual data, mas se os sulcos do tempo em ti conheço então devo expiar no que me mata. Tanta beleza te recobre e deu tais galas a vestir meu coração, que vive no teu peito e o teu no meu. Mais velho do que tu serei então? Portanto, meu amor, cuida de ti como eu, não por mim, por ti somente te cuido o coração, que guardo aqui como à criança a ama diligente. Não contes com o teu se o meu morrer. Deste-me o teu e não o vou devolver. William Shakespeare * numa fabulosa tradução de Vasco Graça Moura
07 novembro 2016
[ chafariz das janelas verdes ]
01 novembro 2016
estranha forma de vida
foi por
vontade de deus
que eu vivo
nesta ansiedade.
que todos
os ais são meus,
que é toda
minha a saudade.
foi por
vontade de deus.
que
estranha forma de vida
tem este
meu coração:
vive de
forma perdida;
quem lhe
daria o condão?
que
estranha forma de vida.
coração
independente,
coração que
não comando:
vives perdido entre a gente,
teimosamente
sangrando,
coração
independente.
eu não te
acompanho mais:
pára, deixa
de bater.
se não
sabes onde vais,
porque
teimas em correr?
eu não te
acompanho mais.
Amália
Rodrigues
28 outubro 2016
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda
27 outubro 2016
[ memória de alcainça ]
26 outubro 2016
e, enquanto se espera o concerto,
21 outubro 2016
[ toledo ]
17 outubro 2016
ouço o rumor lúcido de um motor suave
mais ou menos o que há de agudo no sol
talvez esteja a chegar
o calor é actualizado a cada instante
e já não é o calor do sol
de luz, de avisos:
há barcos que seguem vazios
Joana Espain
13 outubro 2016
creio ter sido aberta uma caixa de pandora. com o nobel da literatura do corrente ano entregue a robert allen zimmerman, a eterna-e-politicamente-correcta-apesar-de-bué-da-calvinista-e-sempre-atormentada-pelo-remorso-e-pela-culpa academia sueca vem preconizar que as categorias do prémio não podem ficar estanques aos ventos de mudança (yes, they are a-changin'). congratulo-me por esta lufada de ar fresco e, em conformidade, aqui ficam desde já os meus prognósticos (perfeitamente imparciais) para os vencedores do ano que vem:
prémio nobel da física (newtoniana ou não) 2017
prémio nobel da química (comigo) 2017
prémio nobel da medicina (paliativa) 2017
prémio nobel da economia (de tecido na saia) 2017
prémio nobel da paz (de espírito) 2017
prémio nobel da literatura (comparada) 2017
09 outubro 2016
são rudes, têm mau feito, sempre a protestar, descontentes com tudo e todos, ríspidos nas perguntas, grosseiros nas respostas, brutos no trato, ásperos, frequentemente intratáveis e inevitavelmente ranzinzas, carrancudos, indelicados e resmungões.
está a família de vito de parabéns, por conceber, realizar e disponibilizar gratuitamente esta pequena grande história, uma maravilha de quinze minutos do mais humano que há, a propósito do que todos pode(re)mos ser, mesmo quando somos curmudgeons.
04 outubro 2016
uma grande (e feliz) surpresa, o último disco de miss olsen.
e esta canção é uma daquelas pérolas a levar para a ilha deserta.
i've seen you
changing
i've seen you
changing
was it me you
were thinking of?
all the time
when you thought of me
was it me you
were thinking of?
all the time
when you thought of me
or was it
your mother?
or was it
your shelter?
or was it
another
with a heart
shaped face
got a heart
shaped face
was it a
feeling you thought i could dig up or erase?
i've seen you
changing
i've seen you
aging
and i learned
how to turn my head
and i learned
how to walk away
and the truth
never really lives
in the story
of words we say
you never
needed anyone to expose you to yourself
and you never
needed anyone to raise you hell out of your mind
i never
wanted to be someone who had to leave it all behind
even still there
is no escape for what i face, i faced before