14 novembro 2015







Se todos os que me disseram

Céus,

como te abandonas

tivessem antes pensado

Céus,

quantos não te terão abandonado







Ana Tecedeiro







12 novembro 2015








festeja hoje setenta risonhíssimas translações solares o menino neil percival young, canadiano tranquilo, um dos meus heróis da música pela sua coerência e independência e uma das grandes e boas memórias da minha adolescência. muitos muitos parabéns neil.



Think I'll pack it in
and buy a pick-up
Take it down to L.A.
Find a place to call my own
and try to fix up.
Start a brand new day.

The woman I'm thinking of,
she loved me all up
But I'm so down today
She's so fine, she's in my mind.
I hear her callin'.

See the lonely boy,
out on the weekend
Trying to make it pay.
Can't relate to joy,
he tries to speak and
Can't begin to say.

She got pictures on the wall,
they make me look up
From her big brass bed.
Now I'm running down the road
trying to stay up
Somewhere in her head.

The woman I'm thinking of,
she loved me all up
But I'm so down today
She's so fine she's in my mind.
I hear her callin'.

See the lonely boy,
out on the weekend
Trying to make it pay.
Can't relate to joy,
he tries to speak and
Can't begin to say.













Pedaço 1





E isto te parece estranho
por isso essa palavra
uma só, nada desajeitada de tamanho certo
a palavra em laço
onde embrulhaste o mundo
e eu digo-te nas tuas palavras
que hão-de ser líquidas um dia


que o amor é tudo o que existe
não é tudo o que sabemos do amor






Joana Espain







10 novembro 2015






fábula  do  pesadelo  recorrente






dizem que todos temos um pesadelo recorrente. o meu é assim:
caminho sobre um muro alto e estreito e vejo lá em baixo uma tábua
nela está espetado um prego que aponta para cima, para o muro, para mim
então caio e o meu olho e o prego aproximam-se, aproximam-se cada vez mais 






09 novembro 2015







há muito que a universalidade desta música me deixou de surpreender. recordo sempre o episódio improvável de ter encontrado um grego a tocar john lee hooker em cnossos, como se aqueles azuis fossem a saída para o labirinto cretense. é mais ou menos isso que acontece neste clip, em que o guitarrista andrey dobrovolskiy consegue - com a sua guitarra azul - transformar o rio neva no mississippi.










08 novembro 2015







para além daquele som da guitarra de ry cooder, a banda sonora de "paris, texas" continha esta pérola: uma versão da "canción mixteca" cantada por harry dean stanton, com arranjo do mesmo cooder. no filme original só se podem ver os filmes em super8 mais antigos, quando hunter ainda é uma criança pequena. mas esta soberba montagem inclui footage feita propositadamente por wenders, com uma câmara à mão, numa época mais próxima do tempo real do filme - e há quem diga que estes segundos filmes seriam o primeiro final que teria idealizado para o filme. dá que pensar.




¡Qué lejos estoy del suelo donde he nacido!

inmensa nostalgia invade mi pensamiento;

y al verme tan solo y triste cual hoja al viento,

quisiera llorar, quisiera morir de sentimiento.

¡Oh Tierra del Sol! Suspiro por verte

ahora que lejos yo vivo sin luz, sin amor;

y al verme tan solo y triste cual hoja al viento,

quisiera llorar, quisiera morir de sentimiento.







07 novembro 2015








chamo-me penélope
dizem que passei muitas noites a tecer
é mentira
passei-as a fazer amor
com cada um dos meus pretendentes
e gozei de cada vez a valer
depois chegou o meu velho marido
dizem que não o reconheci
é mentira
ele é que não me conheceu

ítaca onde me deitei
deu-me todas as viagens que desejei







Bénédicte Houart








06 novembro 2015









self-portrait, 1955
vivian maier












“There comes a time when you look into the mirror and you realize that what you see is all that you will ever be. 
And then you accept it. Or you kill yourself. Or you stop looking in mirrors”.





Tennessee Williams







05 novembro 2015







[ in memoriam ]



On our anniversary
There'll be someone else where you used to be

The world don't care and yet it clings to me

The moon is gold and silvery

Who knows where the sidewalk ends
Well the road will turn and the road will bend

They always say he marks the sparrow's fall

How can anyone believe it all



Well the band has stopped playing but we keep dancing
The world keeps turning the world keeps turning

On his hand he wore the ring of another

The world keeps turning, the world keeps turning



We broke the bank and we tore up the place

We disappeared oh without a trace

Now the sun it falls into the sea
I know I'm the only one for me



I was so green and the dress you wore was yellow

The world keeps turning, the world keeps turning

The sun is down and the moon is in the meadow

The world keeps turning, the world keeps turning

Put a hat on your head

Will you paint the whole damn town red with me?

Well the band has stopped playing but we keep dancing
The world keeps turning, the world keeps turning

On his hand he wore the ring of another

The world keeps turning, the world keeps turning







03 novembro 2015






fábula do coração no fundo do mar






ouve, se encontrares o meu coração no fundo do mar
faz de conta que já sabias que ele estava por ali assim
não queiras saber a razão de parecer ter adormecido
não interrogues a água para saber quando se perdeu
nem vás perder o teu tempo nos perdidos e achados







02 novembro 2015






após a 2ª guerra, mathis james reed viu-se desmobilizado e foi trabalhar para um matadouro em chicago. ouvia grupos a tocar nos bares e achou que podia tentar imitá-los. comprou uma guitarra no início dos anos cinquenta - teve a visão de comprar um dos novos modelos electrificados - e uma harmónica, tendo começado a praticar sozinho. foi de facto o arquétipo do self-taught bluesman e a sua mulher ajudou-o a escrever canções. gravou umas demos em 78 rpm e levou-as ao maior divulgador do género na cidade: leonard chess, o fundador da lendária chess records. e esse é um dos grandes enigmas da história dos azuis: o que o teria levado a não o contratar?

(porque sabe-se hoje que nessa audição esteve presente jimmy bracken, cuja mulher vivian carter era disc-jockey numa rádio local. bracken e carter planeavam lançar uma editora, a não menos célebre vee-jay records (nome formado pela combinação das suas iniciais). gostaram imenso do estilo de reed, aquela estranha mistura de voz lânguida com frases de guitarra e solos de harmonica simples, e o resto é história…)



Hush, hush
Honey don't believe a word
Well, you don't know nothin'
But believe everything you heard

Hush, hush
Yakkyyak' all the time
Well, if you don't stop yakkin'
You're goin' to drive me out of my mind

Hush, hush
Didn't hear a word you said
If you don't stop talkin'
I'm gonna leave and I'm mighty 'fraid








01 novembro 2015








Neste lugar de autocarro
sentou-se antes de mim
um outro
alguém
munido de uma faca e de tal
incisiva inquietação que
eram mais de cem os cortes nas costas
do banco em frente.

Terá quem estava à sua frente
pressentido
a lâmina dirigida às costas?

E em que pensava o esquartejador de bancos?

Quem sabe
imaginou-se a cortar alguém.
Provavelmente
a si mesmo

e o banco tem costas largas.








Ana Tecedeiro





31 outubro 2015







numa noite de chuva, um pouco de céu na terra numa ária de handel pela voz superlativa de mlle. petitbon, que vou poder rever em abril.



Lascia ch'io pianga mia cruda sorte
E che sospiri la liberta

Lascia ch'io pianga mia cruda sorte
E che sospiri la liberta
E che sospiri
E che sospiri la liberta

Lascia ch'io pianga mia cruda sorte
E che sospiri la liberta

Il duolo infranga queste ritorte
De miei martiri sol per pieta
De miei martiri sol per pieta

Lascia ch'io pianga mia cruda sorte

E che sospiri la liberta







29 outubro 2015





  
sou eu




sussurro muito baixinho que gosto de ti. parece que não ouves, mas sentes. não é da voz que me saem as palavras, é da alma e de mansinho, é a alma feita voz, reivindicando a sua percentagem de condição humana. gosto de ti, e este gostar envolve-te em pedacinhos de algodão, beija-te na testa, tacteia o teu rosto, passeia as pontas dos dedos pela tua mão. 

a minha alma hoje dá-se os direitos do corpo, e quando estiveres a dormir, vai enroscar-se nos teus braços, num aconchego morno. tu nem vais dar por ela, vais pensar que é um sonho e sorrir. sou eu.






Ana Paula Esteves






(lê-se num sussurro muito melhor aqui)

28 outubro 2015







há dias "postei" uma fotografia de uma mesa posta (passe o pleonasmo...), à espera de amigos. e lembrei-me que se tivesse que escolher uma banda sonora para o momento, ela recairia sempre nesta balada clássica dos stones. o clip retrata um grupo de amigos que são músicos e vão tocar num bar, mas não faz justiça ao que parece sempre ausente: 
o saxofonista. e que na gravação em estúdio era nem mais nem menos que o grande sonny rollins, um dos gigantes
do jazz. o solo original que improvisou ficou como um daqueles raros momentos mais-que-perfeitos.



Watching girls go passing by
It ain't the latest thing
I'm just standing in a doorway
I'm just trying to make some sense
Out of these girls go passing by
The tales they tell of men
I'm not waiting on a lady
I'm just waiting on a friend

A smile relieves a heart that grieves
Remember what I said
I'm not waiting on a lady
I'm just waiting on a friend
I'm just waiting on a friend

Don't need a whore
I don't need no booze
Don't need a virgin priest
But I need someone I can cry to
I need someone to protect
Making love and breaking hearts
It is a game for youth
But I'm not waiting on a lady
I'm just waiting on a friend






26 outubro 2015






permanece aberta a controvérsia em torno da autoria deste "azul em verde". apareceu nesses dois grandes discos de 1959 (no "portrait in jazz" de bill evans e no "kind of blue" de miles davis) e ambos afirmaram na altura serem os autores do tema. apesar das muitas histórias que se contam, o mais lógico ainda parece ter sido evans o autor da melodia para piano (e o seu trio) e davis escrito o solo para trompete da sua versão, que já por aqui apareceu.









25 outubro 2015






“I’ve been working on the same Olympus Typewriter since I was 16. All of my films were written on that typewriter, but until recently I couldn’t even change the color ribbon myself. There were times when I would invite people over to dinner just so they would change the ribbon. It’s a tragedy.”




Woody Allen