já fez quarenta anos esta colaboração de brian eno com phil manzanera - e a voz e percussão de robert wyatt. estas canções devem ter envelhecido mesmo bem porque há quem as ouça agora pela primeira vez e as considere "muito à frente" (ah estes teenagers…)
We are the 801
We are the central shaft
And we are here to let you take advantage
Of our lack of craft
Certain streets have certain corners
Sooner or later we'll turn yours
We are the 801
We are the central shaft
And thus throughout two years we've crossed the ocean
In our little craft (row, row, row)
Now we're on the telephone
Making final arrangements (ding, ding)
We are the 801
We are the central shaft
Looking for a certain ratio
Someone must have left it underneath the carpet
Looking up and down the radio
Oh, oh, nothing there this time
Looking for a certain ratio
Someone said they saw it parking in a car lot
Looking up and down the radio
Oh, oh, nothing there this time
Going back down to the rodeo
Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, here we go!
We are the table the captain's table let's get it understood
We are the losers we are the cruisers let's get it
understood
We are the diners the final diners let's get it understood
Most of us are tinkers, some of us tailors
And we've got candlesticks and lots of cocktail sticks
We saw the lovers the modern lovers and they looked very
good
They looked as if they could
We are the neighbors the nosy neighbors we think just like
you would
We think just like you should.
21 outubro 2015
marina abramovic
on subway train (new york, 2010)
martin schoeller
20 outubro 2015
fábula da
orla do mar
não consegui voltar
a ver no teu rosto os contornos da orla do mar
e nos teus olhos deixou de haver aquele brilho de espuma na praia
algo fez naufragar
em mim o sereno torpor da ondulação da tua pele
nas noites
despertas no sono que pairava sob um oceano de estrelas
perdeu-se o rumo
apenas adivinhado nas sonhadas cartas de marear
que outrora lia ou
julgava ler no pergaminho da nudez do teu corpo
submerso e turvo o
desejo de sempre aportar ao teu porto de abrigo
já nada me recorda
em ti a caravela mágica em que tanto naveguei
… apenas o silêncio
das conchas onde se ouvia a canção das ondas
19 outubro 2015
saunders
terrell nasceu na georgia e cegou aos dezasseis anos. impossibilitado de
trabalhar, aprendeu a tocar harmónica e, como sonny terry, veio a ser um dos
maiores virtuosos do instrumento, num estilo sincopado muito próprio. tornou-se lendária a sua associação com walter brown mcghee, nascido no tennessee e
vítima juvenil da poliomielite, que aprendeu a tocar numa guitarra caseira
feita a partir de uma lata de biscoitos. era uma vez dois inválidos que tocavam
azuis… o resto é história.
(este azul é aqui chamado "hootin' blues", mas também é conhecido por "whoopin' blues"; e este clip é todo um documento: num cenário idealizado para uma televisão de público maioritariamente branco - a casinha do cenário é um must - retrata-se com alguma veracidade o que poderia ter sido uma noite de música e dança algures no delta do mississippi)
18 outubro 2015
fui aos
perdidos e achados
minha
senhora disse-me o polícia
sua o
caraças senhora talvez
aqui não
recolhemos objectos dessa natureza
tão pouco
material
juraria ter
ouvido comercial
vá antes à
câmara municipal
serviço de
saneamento básico
resíduos
esgotos sarjetas
em suma,
escoamentos
coisa que
como podeis ler
não fiz nem
farei
se ele se
perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se
deve contrariar um poema tão original
Bénédicte Houart
17 outubro 2015
[ alto dos moinhos ]
16 outubro 2015
No primeiro
dia que saí contigo
disseste que
o teu trabalho era estranho.
Mais nada.
Todavia, eu sentia
a pele a
rasgar-se como trapos
de cada vez
que me tocavas com a mão.
E os teus
olhos pareciam-me punhais
a fazer-me
doer os meus.
Daí para a frente
foi sempre a mesma coisa:
tu
orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil
e directo em cada dia
e eu nunca
percebia nada.
Mas agora
sei.
Já conheço o
teu ofício:
Atirador de
facas.
A mais
certeira atiraste-ma ao coração.
Amalia
Bautista
15 outubro 2015
eu sei que disse que a grande beleza reside em momentos mais-que-perfeitos onde não cabem as palavras, por estar a pensar na versão do kronos quartet para o magnífico tema de vladimir martynov incluído na banda sonora de "la grande bellezza" (a que retorno vezes sem conta…) e que por aqui já apareceu. mas ditas em russo pelas vozes do sirin ensemble, as bíblicas bem-aventuranças adquirem um encanto inigualável e são - mesmo - um pouco de céu na terra. (mais curioso é ainda o facto de se conseguir copiar o texto bíblico do evangelho segundo são mateus (5, 3-12), colar no tradutor do google, seleccionar a língua russa e obter mesmo o texto cantado. e que começa com "blazhenny nishchiye dukhom"…)
14 outubro 2015
crianças e flores
rui chafes
13 outubro 2015
fábula do homem que tinha encontrado
um amor
falaram-me de um homem que tinha encontrado um amor.
disseram que não parecia contente, mas que a luz do sol o
atravessava como se fosse feito de vidro. o homem era
para
alguns invisível e um fantasma para outros. não se calava
e
falava com as plantas, ria-se para as flores e tinha sido
visto
a cantar com os pardais. também não se lhe conhecia outra
roupagem que não fossem poemas. saía à rua vestido com
versos e depois ficava sentado nos bancos dos jardins.
todos
o queriam ler. e alguém me disse que vivia assim porque
já
só escrevia, desde o dia em que tinha encontrado um amor.
12 outubro 2015
esta cover de um azul clássico (uma das pérolas de robert johnson) foi incluído
no disco de estreia de otis spann, lançado, um pouco tardiamente, em 1960. a letra foi modificada e o
ritmo também, num curioso jogo de cadências entre o piano de spann e a guitarra e voz de
robert lockwood.
I've got ramblin', I've got ramblin' on my mind
I've got ramblin', I've got travellin’ on my mind
I still love you pretty baby, but you treats me
so unkind
When i first met you baby, you
treated me like a king
When i first met you pretty baby, you
treated me just like a king
Yes we’ve been together so long until
my little love don’t mean a thing
That’s why I've got ramblin',
I've got travellin' on my mind
I've got ramblin', I've got ramblin' on my mind
Yes I still love
you pretty baby, but you treats me so unkind
I believe, I believe I’ll go back
home
I believe, I believe I’ll go back home
I just wanna tell the little girl who I’m in love with that she haven’t done me
wrong
I hate to leave my baby, standin’ in
the backdoor cryin’
I hate to leave my baby, standin’ in
the backdoor cryin’
Yes she done me so lowdown lately, I
got ramblin’ all on my mind
11 outubro 2015
“Ler para Borges era ouvir os comentários de Borges sobre
aquela leitura. Quando lemos para nós escolhemos os livros, damos uma certa
entoação ao texto, descobrimos coisas por nós, reflectimos sobre o que estamos
a ler. Nada disto acontecia quando eu lia para Borges. Estava apenas a
emprestar-lhe os meus olhos. A escolha do texto era dele, o tom era o dele e,
sobretudo, os comentários eram dele. Não era um acto colaborativo – era
simplesmente Borges. Ele dizia, “começa”, e eu lia duas linhas e ele
mandava-me parar e fazia um comentário, mas o comentário, ainda que fosse dito
alto, era para ele próprio, não para mim. Por isso tive esta estranha
experiência de ser a testemunha da leitura privada de alguém – e não era
qualquer um, mas um dos maiores leitores de todos os tempos. Isso foi um grande
privilégio”.
Alberto Manguel
10 outubro 2015
untitled
(soap bubble set)
joseph cornell
09 outubro 2015
as palavras fazem muitos estragos
partem coisas, quero dizer
se não as vemos despedaçadas
é defeito nosso, não delas
seja como for, é justo acrescentar
dão-se também cabo umas das outras
e ficam todas escavacadas
e seja palavras, seja coisas
tornam-se pó, tanto,
tal como nós, pouco
Bénédicte Houart
08 outubro 2015
calçelfie #9 [auto-retrato de uma espécie em vias de extinção]
[ leituras ]
"the self-portrait (a cultural
history)"
james hall
ed. thames & hudson
estou apaixonado por mais uma magnífica
edição da thames & hudson, com capa dura, óptimo papel e inúmeras reproduções
a cores - desta vez uma viagem pela história da arte baseada num dos géneros
mais comuns (ou nem sempre) da pintura/gravura/desenho: o auto-retrato.
desde a idade média até aos nossos dias
vamos encontrando dürer, velázquez, ticiano e tantos outros, e através da
evolução da maneira de encarar o auto-retrato percebemos um pouco melhor o modo
como certas características da arte europeia se foram modificando. com
pormenores sobre os pintores e os retratados e alguns deliciosos detalhes sobre
as obras, a narrativa de james hall tem o mérito de nos manter sempre
interessados.
e, numa época dominada pela
pobreza instantânea das selfies, o auto-retrato assume de novo um encanto muito
especial.
07 outubro 2015
hoje na gulbenkian, durante o lançamento da sua "história da curiosidade", alberto manguel contou-nos um pormenor absolutamente delicioso. ao falar sobre o papel da linguagem e a escolha das palavras referiu que jorge luis borges - para quem leu durante alguns anos quando já se encontrava cego - lhe contara que no seu soneto sobre os antepassados portugueses (uma maravilha que já por aqui apareceu), aquele penúltimo verso havia sido escrito inicialmente como "son el rey que en el mágico desierto", porque sempre tinha imaginado o nosso d. sebastião como um jovem adolescente, mas que alguém lhe contara mais tarde que o rei morrera com vinte e quatro anos, o que o fizera modificar o adjectivo para "son el rey que en el místico desierto"…
06 outubro 2015
d e s c u b r a a s s e t e d i f e r e n ç a s :
sua alteza real, o candeeiro do chiado
- mais uma vez numa exibição gratuita da sua força hercúlea -
soerguendo um edifício no largo de belas artes
05 outubro 2015
um original de muddy waters, numa boa cover de clapton.
Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.
Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.
Lord I love you little girl, you're always resting on my
mind.
Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my
automobile.
Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my
automobile.
You got so many men, I'm afraid you may get me killed.
Oh baby, you ain't nothing like you used to be.
Oh baby, you ain't nothing like you used to be.
When I was deep in love with you, little girl, you were just
sweet as an apple on a tree.
04 outubro 2015
é extraordinário como este concerto de colónia
festeja os quarenta anos com o mesmo brilho
03 outubro 2015
[a minha lisboa é mais linda que a tua]
Alguém diz
com lentidão:
"Lisboa,
sabes..."
Eu sei. É
uma rapariga
descalça e
leve,
...um vento
súbito e claro
nos cabelos,
algumas
rugas finas
a
espreitar-lhe os olhos,
a solidão
aberta
nos lábios e
nos dedos,
descendo
degraus
e degraus
e degraus
até ao rio.
Eu sei. E
tu, sabias?
Eugénio de
Andrade
02 outubro 2015
[largo de belas artes]
01 outubro 2015
Paris
Quando vi o
mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu
itinerário. Ao descer para a praia
já era quase
escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas
dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas
recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas
as famílias eram negligentes
e estavam em
férias.
O coreto
tinha sido assaltado
por jovens
excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas
cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro
dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia
ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um
lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma
história à minha espera na Gare du Nord essa noite.
Rui Pires
Cabral
retirado do seu maravilhoso "birds requiem",
um pouco de céu na terra pelo oud e voz de dhafer youssef