24 outubro 2015






num barco no rio




num barco no rio,
num barco subindo
o rio te peço
que amanhã não vás,
que não vás embora
deste rio minho,
que não te separes
do rasto do barco,
dessa ágil espuma,
do vento a passar
pelos teus cabelos
e do sol na cara,
nem de mim que te olho
nos olhos, pedindo.
há gente nas margens?
haverá, não sei.
há velas, motores,
arvoredos, ilhas?
há esquiadores?
pedregulhos, perigos,
sombras da boega?
é forte a corrente?
sei lá. sei que peço
fiques mais um dia
e não quero, não,
que te vás embora.







Vasco Graça Moura






22 outubro 2015







já fez quarenta anos esta colaboração de brian eno com phil manzanera - e a voz e percussão de robert wyatt. 
estas canções devem ter envelhecido mesmo bem porque há quem as ouça agora pela primeira vez e as considere "muito à frente" (ah estes teenagers…)



We are the 801
We are the central shaft
And we are here to let you take advantage
Of our lack of craft
Certain streets have certain corners
Sooner or later we'll turn yours

We are the 801
We are the central shaft
And thus throughout two years we've crossed the ocean
In our little craft (row, row, row)
Now we're on the telephone
Making final arrangements (ding, ding)

We are the 801
We are the central shaft
Looking for a certain ratio
Someone must have left it underneath the carpet
Looking up and down the radio
Oh, oh, nothing there this time
Looking for a certain ratio
Someone said they saw it parking in a car lot
Looking up and down the radio
Oh, oh, nothing there this time
Going back down to the rodeo

Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, here we go!

We are the table the captain's table let's get it understood
We are the losers we are the cruisers let's get it understood
We are the diners the final diners let's get it understood
Most of us are tinkers, some of us tailors
And we've got candlesticks and lots of cocktail sticks
We saw the lovers the modern lovers and they looked very good
They looked as if they could
We are the neighbors the nosy neighbors we think just like you would
We think just like you should.







20 outubro 2015







fábula  da  orla  do  mar






não consegui voltar a ver no teu rosto os contornos da orla do mar
e nos teus olhos deixou de haver aquele brilho de espuma na praia
algo fez naufragar em mim o sereno torpor da ondulação da tua pele
nas noites despertas no sono que pairava sob um oceano de estrelas
perdeu-se o rumo apenas adivinhado nas sonhadas cartas de marear
que outrora lia ou julgava ler no pergaminho da nudez do teu corpo
submerso e turvo o desejo de sempre aportar ao teu porto de abrigo
já nada me recorda em ti a caravela mágica em que tanto naveguei


… apenas o silêncio das conchas onde se ouvia a canção das ondas








19 outubro 2015








saunders terrell nasceu na georgia e cegou aos dezasseis anos. impossibilitado de trabalhar, aprendeu a tocar harmónica e, como sonny terry, veio a ser um dos maiores virtuosos do instrumento, num estilo sincopado muito próprio. 
tornou-se lendária a sua associação com walter brown mcghee, nascido no tennessee e vítima juvenil da poliomielite, que aprendeu a tocar numa guitarra caseira feita a partir de uma lata de biscoitos. era uma vez dois inválidos que tocavam azuis… o resto é história.



(este azul é aqui chamado "hootin' blues", mas também é conhecido por "whoopin' blues"; e este clip é todo um documento: num cenário idealizado para uma televisão de público maioritariamente branco - a casinha do cenário é um must - retrata-se com alguma veracidade o que poderia ter sido uma noite de música e dança algures no delta do mississippi)







18 outubro 2015







fui aos perdidos e achados
minha senhora disse-me o polícia
sua o caraças senhora talvez
aqui não recolhemos objectos dessa natureza
tão pouco material
juraria ter ouvido comercial
vá antes à câmara municipal
serviço de saneamento básico
resíduos esgotos sarjetas
em suma, escoamentos
coisa que como podeis ler
não fiz nem farei
se ele se perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se deve contrariar um poema tão original








Bénédicte Houart







16 outubro 2015







No primeiro dia que saí contigo 
disseste que o teu trabalho era estranho. 
Mais nada. Todavia, eu sentia
a pele a rasgar-se como trapos 
de cada vez que me tocavas com a mão. 
E os teus olhos pareciam-me punhais
a fazer-me doer os meus. 
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa: 
tu orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil e directo em cada dia
e eu nunca percebia nada. 
Mas agora sei. 
Já conheço o teu ofício: 
Atirador de facas. 
A mais certeira atiraste-ma ao coração. 







Amalia Bautista







15 outubro 2015







eu sei que disse que a grande beleza reside em momentos mais-que-perfeitos onde não cabem as palavras, por estar a pensar na versão do kronos quartet para o magnífico tema de vladimir martynov incluído na banda sonora de "la grande bellezza" (a que retorno vezes sem conta…) e que por aqui já apareceu. mas ditas em russo pelas vozes do sirin ensemble, as bíblicas bem-aventuranças adquirem um encanto inigualável e são - mesmo - um pouco de céu na terra.



(mais curioso é ainda o facto de se conseguir copiar o texto bíblico do evangelho segundo são mateus (5, 3-12), colar no tradutor do google, seleccionar a língua russa e obter mesmo o texto cantado. e que começa com "blazhenny nishchiye dukhom"…)






13 outubro 2015






fábula  do  homem  que  tinha  encontrado  um  amor






falaram-me de um homem que tinha encontrado um amor.
disseram que não parecia contente, mas que a luz do sol o
atravessava como se fosse feito de vidro. o homem era para
alguns invisível e um fantasma para outros. não se calava e
falava com as plantas, ria-se para as flores e tinha sido visto 
a cantar com os pardais. também não se lhe conhecia outra
roupagem que não fossem poemas. saía à rua vestido com
versos e depois ficava sentado nos bancos dos jardins. todos
o queriam ler. e alguém me disse que vivia assim porque já
só escrevia, desde o dia em que tinha encontrado um amor.








12 outubro 2015






esta cover de um azul clássico (uma das pérolas de robert johnson) foi incluído no disco de estreia de otis spann, lançado, um pouco tardiamente, em 1960. a letra foi modificada e o ritmo também, num curioso jogo de cadências entre o piano de spann e a guitarra e voz de robert lockwood.



I've got ramblin', I've got ramblin' on my mind
I've got ramblin', I've got travellin’ on my mind

I still love you pretty baby, but you treats me so unkind

When i first met you baby, you treated me like a king
When i first met you pretty baby, you treated me just like a king
Yes we’ve been together so long until my little love don’t mean a thing

That’s why I've got ramblin', I've got travellin' on my mind
I've got ramblin', I've got ramblin' on my mind
Yes I still love you pretty baby, but you treats me so unkind

I believe, I believe I’ll go back home
I believe, I believe I’ll go back home
I just wanna tell the little girl who I’m in love with that she haven’t done me wrong

I hate to leave my baby, standin’ in the backdoor cryin’
I hate to leave my baby, standin’ in the backdoor cryin’
Yes she done me so lowdown lately, I got ramblin’ all on my mind







11 outubro 2015








“Ler para Borges era ouvir os comentários de Borges sobre aquela leitura. Quando lemos para nós escolhemos os livros, damos uma certa entoação ao texto, descobrimos coisas por nós, reflectimos sobre o que estamos a ler. Nada disto acontecia quando eu lia para Borges. Estava apenas a emprestar-lhe os meus olhos. A escolha do texto era dele, o tom era o dele e, sobretudo, os comentários eram dele. Não era um acto colaborativo – era simplesmente Borges. Ele dizia, “começa”, e eu lia duas linhas e ele mandava-me parar e fazia um comentário, mas o comentário, ainda que fosse dito alto, era para ele próprio, não para mim. Por isso tive esta estranha experiência de ser a testemunha da leitura privada de alguém – e não era qualquer um, mas um dos maiores leitores de todos os tempos. Isso foi um grande privilégio”.






Alberto Manguel






09 outubro 2015







as palavras fazem muitos estragos
partem coisas, quero dizer
se não as vemos despedaçadas
é defeito nosso, não delas
seja como for, é justo acrescentar
dão-se também cabo umas das outras
e ficam todas escavacadas
e seja palavras, seja coisas
tornam-se pó, tanto,
tal como nós, pouco







Bénédicte Houart







08 outubro 2015








calçelfie #9

[auto-retrato de uma espécie em vias de extinção]










[ leituras ]










"the self-portrait (a cultural history)"

james hall

ed. thames & hudson



estou apaixonado por mais uma magnífica edição da thames & hudson, com capa dura, óptimo papel e inúmeras reproduções a cores - desta vez uma viagem pela história da arte baseada num dos géneros mais comuns (ou nem sempre) da pintura/gravura/desenho: 
o auto-retrato.
desde a idade média até aos nossos dias vamos encontrando dürer, velázquez, ticiano e tantos outros, e através da evolução da maneira de encarar o auto-retrato percebemos um pouco melhor o modo como certas características da arte europeia se foram modificando. com pormenores sobre os pintores e os retratados e alguns deliciosos detalhes sobre as obras, a narrativa de james hall tem o mérito de nos manter sempre interessados.
e, numa época dominada pela pobreza instantânea das selfies, o auto-retrato assume de novo um encanto muito especial.






07 outubro 2015






hoje na gulbenkian, durante o lançamento da sua "história da curiosidade", alberto manguel contou-nos um pormenor absolutamente delicioso. ao falar sobre o papel da linguagem e a escolha das palavras referiu que jorge luis borges 
- para quem leu durante alguns anos quando já se encontrava cego - lhe contara que no seu soneto sobre os antepassados portugueses (uma maravilha que já por aqui apareceu), aquele penúltimo verso havia sido escrito inicialmente como "son el rey que en el mágico desierto", porque sempre tinha imaginado o nosso d. sebastião como um jovem adolescente, mas que alguém lhe contara mais tarde que o rei morrera com vinte e quatro anos, o que o fizera modificar o adjectivo para "son el rey que en el místico desierto"…






06 outubro 2015






d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :









sua alteza real, o candeeiro do chiado 
- mais uma vez numa exibição gratuita da sua força hercúlea - 
soerguendo um edifício no largo de belas artes






05 outubro 2015







um original de muddy waters, numa boa cover de clapton.



Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.
Oh baby, look how you got me standin' 'round crying.

Lord I love you little girl, you're always resting on my mind.

Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my automobile.

Oh baby, I ain't gonna be riding you 'round in my automobile.

You got so many men, I'm afraid you may get me killed.

Oh baby, you ain't nothing like you used to be.
Oh baby, you ain't nothing like you used to be. 

When I was deep in love with you, little girl, 
you were just sweet as an apple on a tree.







04 outubro 2015






é extraordinário como este concerto de colónia 
festeja os quarenta anos com o mesmo brilho








03 outubro 2015








[a minha lisboa é mais linda que a tua]












Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
...um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?






Eugénio de Andrade







01 outubro 2015







Paris





Quando vi o mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu itinerário. Ao descer para a praia
já era quase escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas as famílias eram negligentes
e estavam em férias.

O coreto tinha sido assaltado
por jovens excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma história à minha espera na Gare du Nord essa noite.







Rui Pires Cabral












retirado do seu maravilhoso "birds requiem", 
um pouco de céu na terra pelo oud e voz de dhafer youssef