06 setembro 2014






Do Amor





Meu nome é:

eu-te-lavro-na-manhã-na-memória
eu-estou-estarei-contigo-para-sempre

Meu desejo é:
atenderei a tua sede
e esquecerei meu nome

Eternamente







Lindolf Bell













dark matter
graceann warn





05 setembro 2014





sei que sou um privilegiado por ter conhecido a música de j. j. cale a tempo (quando ainda era mortal, quero dizer).
alguns sabem da saudade que ficou desde que nos disse adeus e resolveu tornar-se imortal. 
como aqui já referi, o senhor clapton pertence ao nosso clube e tenta, à sua maneira, perpetuar esse imenso legado. 
esta cover é particularmente feliz, por captar a atmosfera de cale e nela se inscrever uma verdade universal: os azuis são os azuis (e não há nada a fazer quando eles tomam conta de nós). 



rain keeps fallin' on my head
sun keeps burnin' out my eyes
lord the moon he knows I'm blue
and it's all because of you
ever since you said goodbye

black cloud hangin' over me
i just can't seem to do it right
lord the wind it never blows
the river never flows
ever since you said goodbye

sunny days have come and gone
heaven knows i'm here cryin'
lord the moon he knows i'm blue
and it's all because of you
ever since you said goodbye





04 setembro 2014






Rua do Alecrim





Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.








Matilde Campilho












[rua do alecrim]





03 setembro 2014






voltei há tempos a recordar os b-52s, uma das melhores bandas a fazer música irresistível para dançar. 
e, em maré de confissões, sim, é verdade, não há nada a fazer, continuo apaixonado pela kate pierson.



Doin' it right, day and night Yeah, tell it, tell it, tell it like it T-I-is I gotta feel it, you gotta move it You gotta move it, move it, move it To the deep, deep rhythm Tell it, tell it, tell it like it T-I-is
Seems like things are gettin' so bad That you can smell it Yeah, so open those eyes And get the real picture It's time to tell it
I wanna talk, baby I wanna say something I've got to tell it like it T-IE-IE-IE-I is
Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Like it T-I-is Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Whoahh!
Tell it, tell it I've got to tell it I want to tell it-whoo! You got me talkin' I wanna say something Got me talkin' I wanna say somethin'-yeah!
If you're looking for a moving sidewalk Dreamin' 'bout a monorail to take you away Well, the day is now, And her's the biz- You better get the real picture Tell it like it T-I-is
I'm spinnin' to the rhythm of the earth And the ocean See the situation Oh what a sight
I wanna talk, baby I wanna say something I've got to tell it like it is T-IE-IE-IE-is Like it T-I-is
Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Like it T-I-is Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Tell it, tell it, tell it, like it T-I-is Whoahh!
Ooh, don't upset The balance of your nature Make the jump when the coast is clear Ooh, don't upset The balance of your nature Reach the level above your fears
Can you feel the movement Hear the untamed melody Tell it like it is and was and Always should be-yeah! Like it is and was, and always should be Is and was, and always should be
Tell it, tell it, I've got to tell I wanna tell it-whoo! You got me talkin' I wanna say something' Got me talkin' I wanna say somethin'
Tell it Tell it Tell it Tell it Like it T-I-is T-I-is!












abend in aegypten
paul klee





02 setembro 2014






fábula  da  lista  de  coisas  a  fazer





encontrar na noite o silêncio cego dos olhos mortos
impedir que a luz me recorde o brilho de certo verso
ignorar o olhar que nunca perdoa palavras por dizer
saber que há uma ilha dos amores na foz do teu rio
afastar as sílabas desse verso para entrar no poema
escolher só palavras sem as tuas letras na memória
procurar essa frase que sei escondida no teu coração
escrever apenas um livro, sem essas e outras palavras
sorrir ao ler uma fábula sobre listas de coisas a fazer
desenhar o teu nome com a curva das ondas do mar







01 setembro 2014





já aqui falei de henry saint clair fredericks, que adoptou o nome de taj mahal e que é para mim um dos maiores cultores de azuis de todos os tempos. porque quando ouço este longo e pausado azul, assim que se começa a notar aquele bandolim penso sempre: devia haver alguém que inventasse uma coisa assim, só que cantada em português - e com a nossa guitarra. mas depois há uma voz que me diz: olha que já se inventou, chama-se fado.



I woke up this morning I looked around for my shoes
You know I had those mean old walkin' blues

Yeah, I woke up this morning I looked around for my shoes
Girl, I had those mean old walkin' blues

Some people tell me that worried blues ain't bad

It's the worst old feeling I ever had

People tell me that worried blues ain't bad

It's the worst old feeling, uh child, I ever had

Looks you ran to the ocean and the ocean runs to the sea

If I don't find my baby, don't bury me

Went to the ocean and the ocean went to the sea

Yeah, if I don't find my baby, oh yeah, don't bury me

Minutes seem like hours and hours seem like days

Since my baby started her low down ways

Minutes seem like hours and hours seem like days

Since my baby, uh, started her low down ways

I woke up this morning, people, I looked around for my shoes

You know I had those mean old walkin' blues

Yeah, I woke up this morning I looked around for my shoes

Yeah, you know I had those, uh, mean old walkin' blues






31 agosto 2014







[parque eduardo vii]









d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






george gershwin escreveu esta canção há setenta e sete anos para o musical “shall we dance”, em que astaire a canta para rogers. infelizmente morreu pouco tempo após o filme estrear, não tendo assistido à popularidade que foi ganhando, tornando-se num dos standards incontornáveis do chamado american songbook. no filme, ao contrário do habitual, ginger & fred não dançam na sequência da canção mas, nítida embora longíngua, tenho uma memória dos meus pais a dançarem ao som da cover de frank sinatra. e isso não me podem tirar.




a) ella + louis


b) jane + john



Our romance won't end on a sorrowful note
Though by tomorrow you're gone
The song has ended but as the songwriter wrote,
The melody lingers on.
They may take you from me,
I'll miss your fond caress
But though they take you from me,
I'll still possess...

The way you wear your hat
The way you sip your tea
The memory of all that
No, no they can't take that away from me

The way your smile just beams
The way you sing off key
The way you haunt my dreams
No, no they can't take that away from me

We may never never meet again, on that bumpy road to love
Still I'll always, always keep the memory of

The way you hold your knife
The way we danced till three
The way you changed my life
No, no they can't take that away from me
No, they can't take that away from me.







30 agosto 2014





“Before you criticize someone, you should walk a mile in their shoes. That way, when you criticize them, you are a mile away from them and you have their shoes.”



Jack Handey













[alcatifa em rua de lisboa]





29 agosto 2014







A mais perfeita imagem





Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.






Ana Luísa Amaral












furit aestus
roberto ferri






28 agosto 2014





era um dos discos mais esperados cá por casa e não desiludiu: a homenagem de eric a jay jay é tudo o que devia ser. fugindo à tentação fácil de recriar as canções com um cunho mais pessoal, clapton e os seus convidados optaram por tentar tocá-las "como ele as tocaria connosco". o resultado é uma série de clássicos instantâneos que, se existissem dúvidas, vai assegurar que haverá sempre alguém com vontade de as reviver - e isso faz delas imortais.
his name was j j cale. he was a fantastic musician. and he was my hero.











[ para a anita ]

27 agosto 2014






fábula  de  um  amor  impossível






[sobe o pano. é abril em saint-germain des près, na paris de 1949]

julieta: eu nunca tinha visto um homem assim tão belo. e não voltei a ver. ele tocava e eu observava-o de perfil: um deus egípcio. foi michèle, a mulher de boris vian, quem mo apresentou e eu fiquei fascinada. ele tinha essa beleza e irradiava génio. era força e estranheza ao mesmo tempo. era a diferença e a modernidade do que ele tocava. eu tinha vinte anos e entendia aquela liberdade. tudo era partilhado porque não tínhamos meios, mas estávamos apaixonados. penso que ele ficou algo surpreendido por isso, pela minha liberdade e pela minha ausência de opinião e perspectiva sobre a questão racial. depois, não sei, talvez a música fosse mais forte, ele partiu.

romeu: a música tinha sido toda a minha vida e não tinha olhos nem tempo nem espaço para mais nada, até ao meu encontro com ela. ela trouxe-me isso, o que era gostar de algo que não a música. foi a primeira mulher que amei como um ser humano, num plano de liberdade e igualdade. ela era tão bela. eu não falava francês, ela não falava inglês: comunicávamos por expressões, por linguagem corporal. e depois já só falávamos com os olhos e os dedos. não havia lugar para o falso. durou algumas semanas e depois parti. mais tarde jean-paul sartre perguntou-me porque não tínhamos casado. respondi-lhe que não queria que ela fosse infeliz.

[cai o pano]













juliette gréco & miles davis
jean-phillippe charbonnier








talvez por o icónico e seminal "kind of blue" ter sido editado no ano seguinte, há uma tendência para esquecer o ano de 1958 na carreira de miles davis. mas na verdade este sexteto (com coltrane no sax e bill evans no piano) foi uma das melhores formações de sempre. e este standard diz tudo.







26 agosto 2014






falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida






Bénédicte Houart













[montras de lisboa]





25 agosto 2014






este azul foi gravado originalmente por lowell fulson em 1946, mas meia dúzia de anos depois 
esta versão marcou o início da carreira de riley ben king, tendo desde então passado a fazer parte 
do seu repertório habitual. continua a ouvir-se com agrado, mesmo que não sejam três da manhã.



Well now, it's three o'clock in the morning
And I can't even close my eyes.
Three o'clock in the morning
And I can't even close my eyes.
Can't find my baby
And I can't be satisfied.

I've looked all around me
And my baby can't be found.
I've looked all around me, people,
And my baby can't be found.
You know if I don't find my baby,
I'm going down to the golden ground.

Goodbye everybody,
I believe this is the end.
Oh, goodbye everybody,
I believe this is the end.
I want you to tell my baby,
Tell her please, please forgive me,
Forgive me for my sins.












row
graceann warn





24 agosto 2014







não tenho nada de meu
nem coração, nem cabeça
nem pernas que me levem
nem mãos que me acolham

não tenho nada de meu
e se tivesse, não queria

o peso do ouro
impede-nos de naufragar








Carla Pinto Coelho








[ lê-se melhor aqui ] 

23 agosto 2014





[ o que tem mesmo piada em vermeer é poder subverter toda aquela ordem doméstica que ele tenta desesperadamente imortalizar num momento breve, como se aquelas cenas de interiores da delft do séc. xvii tivessem de ser apenas o que ele nos quer mostrar. 
nesta cena, por exemplo, para mim é evidente que a rapariga de azul está grávida e recebeu uma carta do namorado, um g.i. natural de maryland que conheceu após a libertação da cidade pelo exército americano. ela lê vezes sem conta aquelas curtas linhas e é visível a sua frustração - ele não respondeu à sua pergunta na carta anterior: o que há de novo em baltimore? ]





mulher de azul lendo uma carta
johannes vermeer