14 agosto 2015







dois imprevistos surpreendentes: um imprevisível schiele onde menos se espera…







casa com roupa a secar
egon schiele











…e a surpresa de, por vezes, ser dos grupos complexos que surgem as canções mais simples










13 agosto 2015








"watuppa", from brooklyn waterfront
berenice abbott










radar (1)




Há noites assim não de outra coisa
que são de si mesmas cheias
até ser insuportável
até cada corpo cheirar exactamente
ao cheiro da sua alma. Há noites assim
que somos nós: Deus nos defenda
de tanta noite haver por dentro
por fora de nós mesmos.






Bernardo Pinto de Almeida






08 agosto 2015





Velhice




os barcos da idade, o último aceno
devagar recolhido e a que pertence
o sulco de outra casa, cujo centro
se aviva em qualquer rosto, e eram redes

de veias, neste azul, ao percorrerem
o sono, onde começa o tão funesto
brilho dos olhos que se oculta e veste
de sombra os nossos corpos, a que o tempo

já distende o seu círculo, para abrirem
da casa maternal os ramos leves
e frustes que tocaram este espaço

porque mais nada existe: assim as ondas
que cercam só a margem de chegar
junto a um desenho calmo, se era o mar.






Fernando Guimarães













(sem título)
hans staudacher

[uma das boas surpresas no albertina]






07 agosto 2015






uma das minhas canções favoritas de peter gabriel.
tenho uma vaga ideia de a ouvir pela primeira vez.



I got no means to show identification
I got no papers show you what I am
You'll have to take me just the way that you find me
What's gone is gone and I do not give a damn
Empty stomach, empty head
I got empty heart and empty bed
I don't remember

I don't remember, I don't recall
I got no memory of anything at all

Strange is your language and I have no decoder
Why don't you make your intentions clear
With eyes to the sun and your mouth to the soda
Saying: Tell me the truth, you got nothing to fear
Stop staring at me like a bird of prey
I'm all mixed up, I got nothing to say
I don't remember

I don't remember, I don't recall
I got no memory of anything at all
Absolutely anything at all
I don't remember












[estrada da luz]





06 agosto 2015







Um calculador de improbabilidades




O poeta é
um calculador de improbabilidades limita
a informação quantitativa fornecendo
reforçada informação estésica.
É uma máquina eta-erótica em que as discrepâncias
são a fulgurância da máquina.
A crueldade elegante da máquina resulta da
competição pirotécnica da circulação íntima
e fulgurante do seu maquinismo erótico.
A psicologia do maquinal sabe que basta
que se crie um pólo positivo para que o pólo
negativo surja
ou vice-versa
e as evoluções telecinéticas pela força
das catástrofes desenvolvem suas faculdades
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve
as águas variáveis dos humores
que transforma em polaridade.
O maquinal eta-erótico está em astrogação
curso hipnótico dos polímeros.
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal
circula em sua hiperesfera da maneira mais
excêntrica.
Digo e garanto:
o maquinal absolutamente absorve suas águas
variáveis e isso é o seu amplexo.
O maquinal eta-erótico é tu-eu.
O maquinal tu-eu
cuja tarefa árdua não é
definir a verdade está no meio da profusão
dos objectos
e considera o consumo a verdade deslocada
deslocação de grande tonelagem
laboriosa alfaiataria de eros
constante moribunda
e esse opróbrio dispersivo e vexável
indifere a vida esponjosa.
A história agrega a dificuldade essencial
das variáveis e o ensejo das coisas
prática difícil
está para o maquinal como uma indústria apócrifa






Ana Hatherly
(1929-2015…(







05 agosto 2015









sonnenkreissteher
gunter damisch













fábula  minha  e  tua





uma flor nem sempre é uma flor

(nunca o disse
quando via rosas
crescerem em ti)

um veleiro sem mastros pode navegar

(nunca o confessaste
quando remendavas
velas em mim)







03 agosto 2015






outro azul de elmore james, aqui numa cover coooool de sir eric:



The sky is crying,
Look at the tears rolling down the streets.
The sky is crying,
Look at the tears rolling down the streets.
I looked out my window,
The rain was falling down in sheets.

My baby left me this morning,
Lord knows I don't know the reason why.
My baby left me this morning,
I don't know the reason why.
And everytime I think about it,
I hang my head and cry.

The sun is shining,
Although it's raining in my heart.
The sun is shining,
Although it's raining in my heart.
I love my baby,
I hate to see us part.





27 julho 2015






um velho azul de elmore james, recordando aquela sua slide-guitar e o inconfundível bottle-neck



Well I'm standin' at the crossroads,

With my head hung down and cryin'

Well I was lookin' for my baby,

And I know she’s not around


I work hard for my baby,

And she treats me like a slave

Well she was be tired of livin',

I'll put her six feet in the grave


Well I'm standin' at the crossroads,

And my baby's not around

Well I began to wonder,

If this is Elmore's second down



I'm standin' here waitin' baby,

With my heart right in my hand

I'm lookin' for my baby,

And she's out with another man









Arte poética




Tu lês este poema. E para quê?
Que procuras tu nele? O movimento
dos mesmos lábios, sombra que se vê
cair sobre as palavras, o tão lento
bafo animal pela atmosfera fria
ou talvez, junto a um rio, esta viagem
que ignoramos e cerca a noite e o dia
com outra face? A metáfora, a imagem?

Lê o poema, escuta a própria voz
dele, que não é minha, e só existe em nós.






Fernando Guimarães






25 julho 2015




[febre de sábado à noite]




I don’t want to feel all cooped up
I feel like I’m on a chain
I got my ride all souped up
We’re never coming back again
Time it don’t mean nothing
Money means even less
Don’t bring nothin baby
You’re better then all the rest
I wanna go get lost

When you wear that real tight sweater
You know I can’t resist
It’s been that way forever baby
Ever since we kissed
Roll down all the windows
Turn up Wolfman Jack
Please, please love me tender
Ain’t nothin wrong with that
Let’s go get lost
I wanna go get lost

Whatever that they told you about me
Well all of it’s true
You’re never gonna be with out me baby
I’m never gonna be without you
Top it off, fill it with high test
Think about it what cha gonna tell your boss?
And get lost
I just wanna get lost

All night long…





24 julho 2015





Carta de navegação





Talvez além do que tu vês
não esteja nada
nem a alada criatura com que sonhas
sequer a sombra da sombra de uma sombra

Talvez nisso que vês só haja o espelho
de um desejo sem rosto e sem esperança
que toda a vida (às vezes) seja apenas
esse deserto crescendo à tua volta

Aprende a não amar o amor
a nada querer
não desejar o desejo
nada ter.






Bernardo Pinto de Almeida













[campo das cebolas]





23 julho 2015






Cet amour




Cet amour 
Si violent 
Si fragile 
Si tendre 
Si désespéré 
Cet amour 
Beau comme le jour 
Et mauvais comme le temps 
Quand le temps est mauvais 
Cet amour si vrai 
Cet amour si beau 
Si heureux 
Si joyeux 
Et si dérisoire 
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir 
Et si sûr de lui 
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit 
Cet amour qui faisait peur aux autres 
Qui les faisait parler 
Qui les faisait blémir 
Cet amour guetté 
Parce que nous le guettions 
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié 
Parce que nous l'avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié 
Cet amour tout entier 
Si vivant encore 
Et tout ensoleillé 
C'est le tien 
C'est le mien 
Celui qui a été 
Cette chose toujours nouvelles 
Et qui n'a pas changé 
Aussi vraie qu'une plante 
Aussi tremblante qu'un oiseau 
Aussi chaude aussi vivante que l'été 
Nous pouvons tous les deux 
Aller et revenir 
Nous pouvons oublier 
Et puis nous rendormir 
Nous réveiller souffrir vieillir 
Nous endormir encore 
Rêver à la mort 
Nous éveiller sourire et rire 
Et rajeunir 
Notre amour reste là 
Têtu comme une bourrique 
Vivant comme le désir 
Cruel comme la mémoire 
Bête comme les regrets 
Tendre comme le souvenir 
Froid comme le marbre 
Beau comme le jour 
Fragile comme un enfant 
Il nous regarde en souriant 
Et il nous parle sans rien dire 
Et moi j'écoute en tremblant 
Et je crie 
Je crie pour toi 
Je crie pour moi 
Je te supplie 
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s'aiment 
Et qui se sont aimés 
Oui je lui crie 
Pour toi pour moi et pour tous les autres 
Que je ne connais pas 
Reste là 
Là où tu es 
Là où tu étais autrefois 
Reste là 
Ne bouge pas 
Ne t'en va pas 
Nous qui sommes aimés 
Nous t'avons oublié 
Toi ne nous oublie pas 
Nous n'avions que toi sur la terre 
Ne nous laisse pas devenir froids 
Beaucoup plus loin toujours 
Et n'importe où 
Donne-nous signe de vie 
Beaucoup plus tard au coin d'un bois 
Dans la forêt de la mémoire 
Surgis soudain 
Tends-nous la main 
Et sauve-nous.






Jacques Prévert













la blanche et la noire
félix valloton






21 julho 2015





fábula  da  noite  cá  dentro





a melancolia desceu sobre mim como o escuro desta noite à beira-rio
e a tua memória, outrora gravada a ferro em pedra, esvai-se esvai-se
enquanto a chuva cai sobre a saudade de um tempo de suave recordação


se todas as gotas que já caíram se pudessem esquecer talvez te reinventasse,
talvez a tua imagem não fosse assim difusa e diluída como estas lágrimas,
e estas esferas de sal caíssem e rolassem e seguissem o rio mesmo até à foz


mas não. embaciado como o respirar condensado nos vidros enregelados,
vejo-te desaparecer na sombra dos candeeiros que iluminaram este momento,
porque desponta o dia lá fora mas volta a cair de novo a noite cá dentro














golconde
rené magritte