20 junho 2013











esta pérola de um dos pais do rock&roll foi gravada no ano em que nasci.
é... sou quase crescido.



Yeah 'n' I'm doin' all right in school.
They ain't said I broke no rule.
I ain't never been in Dutch.
I don't browse around too much

Don't bother me leave me alone
Anyway I'm almost grown

I don't run around with no mob.
Got myself a little job
I'm gonna buy me a little car,
Drive my girl in the park

Got my eye on a little girl.
Ah, she's really out this world.
Yeah, and I take her to a dance,
We steady talk about romance.

You know I'm still livin' in town.
But I done married and settled down.
Now I really have a ball
So I don't browse around at all

















Let Me Die A Youngman's Death





Let me die a youngman's death
not a clean and inbetween

the sheets holywater death

not a famous-last-words

peaceful out of breath death



When I'm 73

and in constant good tumour

may I be mown down at dawn

by a bright red sports car

on my way home

from an allnight party



Or when I'm 91

with silver hair

and sitting in a barber's chair

may rival gangsters

with hamfisted tommyguns burst in

and give me a short back and insides



Or when I'm 104

and banned from the Cavern

may my mistress

catching me in bed with her daughter

and fearing for her son

cut me up into little pieces

and throw away every piece but one



Let me die a youngman's death

not a free from sin tiptoe in

candle wax and waning death

not a curtains drawn by angels borne

'what a nice way to go' death







Roger McGough








18 junho 2013










Escreve sempre que precisares







Escreve sempre que precisares de me dizer 
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico. 
Os legumes que trouxe ontem 
não sobrevivem a mais do que uma geada, 
muito menos nós.

Escreve sempre que precisares, podes 
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos 
se somos nós ou se somos aquelas 
quatro pessoas que vão à rua agora, 
encontraram a porta certa.

Escreve sempre que precisares, faz 
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste 
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares 
de mais um postal com selo e carimbo. 
Escreve sempre que riscares 
na tua agenda mais uma morada.

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua, 
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos, 
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar, 
as frases podem desviar deixas decoradas, 
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.

Escreve em vez de costurares. 
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos, 
os cotovelos e as canelas 
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas 
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.

Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de 
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais 
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas, 
nunca trago chaves comigo.









Margarida Ferra











( agora já nem adianta dizer que não foi desviado daqui









desde 1991 que esta grande canção de daniel lanois se tornou uma das da minha vida.
inesperada e escondida na banda sonora de um filme de wim wenders, por vezes dou por mim - ainda hoje - a trauteá-la.




I thought of you in blue and red
I thought of you where you were playing
I thought of you in my bed
You were there bound and chained

I thought of you there next to me
Wearing your pretty face
I thought of everything you could be
Sleeping in the devil's bed

I looked for you when lights were low
And I payed for what I had
I looked for you way down below
Till I felt I was going mad

I think of you and I tell myself
And the fever rises high
I think of you and I get what’s coming
Sleeping in the devil's bed

Oh why why why why, baby why?
Oh why why why why why why, baby why?

I thought of you up there on the ladder
I thought of you when I heard the news
I thought of you when it didn't matter
If I accepted or refused

I warned you when I wanted more
I wanted everything
I wanted what I couldn't give
Sleeping in the devil's bed

I woke up in the steady rain
I woke up when you said
It's late and I'm feeling heavy
Could you hold my aching head

I found myself tangled in wire
I found you there in my dreams
I found you in desire
You had left the devil's bed





















24th street intersection
wayne thiebaud










17 junho 2013








Survivor





Everyday,

I think about dying.

About disease, starvation,

violence, terrorism, war,

the end of the world.




It helps

keep my mind off things.








Roger McGough








(dedicado à ana cristina)










Declaração de amor





Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter subtilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.
(…)
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita.
(…)
O que recebi de herança não me chega. Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.







Clarice Lispector



















saunders terrell nasceu na carolina do norte e cedo começou a tocar harmonica. perdeu a vista ainda adolescente. ficou conhecido como sonny terry e a sua colaboração com brownie mcghee tornou-se lendária. neste azul instrumental apenas se ouve uma locomotiva a vapor, o resto é ilusão.















16 junho 2013














[ alcainça ]




















Flores






Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.








Mia Couto









13 junho 2013









os fabulosos irmãos pessoa 






alberto ergueu a mão e tentou esconder o sol abrasador, voltando a recordar o pastor sem rebanhos que naqueles últimos dias não lhe saía do pensamento


o gesto não passou despercebido a álvaro, que julgou ver nele um impulso dinâmico provocado por esse estranho mecanismo de músculos e tendões encerrado num braço humano


ali perto, à sombra de uma árvore, ricardo despertara envergonhado de um vago sonho amoroso, e olhando para eles disfarçara o remorso num suspiro


suspirar de sofrimento pelo mal de poder sofrer, foi o que bernardo sentiu, percebendo que andava desassossegado por estar no campo com eles


fernando estava muito longe dali, num café da cidade, levando um copo aos lábios... mas naquele preciso momento pensou nos irmãos e, pela primeira vez na sua vida, desejou ser filho único








(versão não revista e sempre por aumentar)












Santo António





Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante… Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.
Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não consertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz,
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto; é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo? O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas ou não-coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arroste
Na nora de erros duns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história
Quem foste tu ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E, cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Por que demónio
É que foram pregar contigo em santo?









Fernando Pessoa