27 dezembro 2020

 


 

O  outro

 

 

 

Porquê pronunciar nomes de deuses, astros,

espumas de um oceano invisível,
pólenes dos jardins mais remotos?

Se nos dói a vida, se cada dia chega

rasgando as entranhas, se cada noite cai

convulsa, assassinada.

Se nos dói a dor de alguém, de um homem

que não conhecemos, mas que está

sempre presente e é a vítima

e o inimigo e o amor e tudo

o que nos falta para sermos inteiros.

Nunca digas que é tua a escuridão,

não bebas de um trago a alegria.

Olha à tua volta: há outro, há sempre outro.

O que ele respira é o que a ti te asfixia,

o que come é a tua fome.

Morre com a metade mais pura da tua morte.

 

 


 


Rosario Castellanos

 

 




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