11 agosto 2018





Contra Remedia Amoris




Não sou desse género de mulheres
incapazes de amor e de ternura.
Odeio o sacrifício e repugna-me
a vaidade que nasce da violência,
mas sei o que é valor e o que é sangue.
Quero ser a mulher de um mercenário,
de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.
Porque sei olhar nos olhos dos homens.
Conheço quem merece a minha ternura.





Amalia Bautista






03 agosto 2018






Prazer. Mais do que isso. A pureza de uma tarde de sol sem
humidade nem nuvens.
Deserto. Não propriamente deserto.
Mas o tumulto estático da areia infinita.

Corpo. Não propriamente um corpo.
Um elo. Um anel não fechado.

Um homem.
Não propriamente um homem.

Um deus.
Exactamente um deus.





Alberto de Lacerda




30 julho 2018





uma das coisas boas da net é o acesso fácil a entrevistas como estas
há tanta, tanta coisa que desconhecia sobre o apocalypse now
e, do nada, aparecem estas duas conversas fascinantes entre
o realizador e o argumentista e um dos actores principais
nunca mais a minha visão sobre o filme será a mesma












28 julho 2018





Eu gosto das palavras




Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança,
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dançe, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.




Manuel Resende





25 julho 2018





a recordar os king crimson revisitei esta pequena maravilha
dos crimson jazz trio, um nocturno mais-que-perfeito baseado
num velho e idolatrado tema do senhor fripp, de que já aqui falei











21 julho 2018






não escrever  nada  sobre ninguém


  


uma vez pediram-me que escrevesse um texto
sobre os heterónimos do fernando antónio,
o que não é coisa que se peça a uma pessoa.
mas lá me enchi de boa vontade, afiei o lápis
e decidi enfrentar a folha de papel em branco,
o desafio habitual. e agora, por onde começar,
perguntei-me, talvez pelo álvaro, sempre era
engenheiro, pensei, mas depois lembrei-me
de que o ricardo era melhor poeta. e estava
quase a citar uma ode quando me ocorreu
que o alberto era o mestre de todos, naquela
sua ingenuidade pastoril. pus-me a imaginar
um jardim de palavras quando recordei que
pensar é estar doente dos olhos, e esse vago
desassossego trouxe-me à memória o pobre
bernardo, o que guardava livros em vez de
rebanhos. foi então que me veio uma ideia
melhor, por que não escrever umas linhas 
sobre o próprio fernando antónio, afinal foi 
ele que imaginou os outros. mas logo então 
percebi que nesses irmãos todos faltariam 
sempre alguns, de tão inumeráveis que são, 
e por esse motivo acabei por pousar o lápis.
é melhor não escrever nada sobre ninguém.





08 julho 2018





encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar.




Renata Correia Botelho





30 junho 2018





Princípio da inércia




As coisas caem
de uma altura incalculável.
Antes fossem estantes de silêncio.

Livre de Newton,
separei para mim
um coração.




Marta Chaves






26 junho 2018





não vale sequer a pena pensar num "descubra as sete diferenças",
tal é o premeditado afastamento desta interpretação do conhecido
standard de gershwin. melhor será ouvir hiromi uehara e desfrutar.









23 junho 2018






nova  fábula  da  lebre  e  a  tartaruga


  


e era uma vez uma tartaruga que sonhou ser uma lebre
que desafiava uma tartaruga para uma corrida decisiva.
mas essa mesma lebre havia sonhado ser uma tartaruga
que no seu passo pausado iria chegar primeiro à meta.


restaria apenas saber quem as teria sonhado. fui eu, e
sou assim. quando à tarde os levo a passear no jardim
acabo sempre por açaimar os meus dois cães de louça.
pelo sim pelo não, também rego as plantas de plástico,
jamais elas me dizem que têm sede mas nunca se sabe.





20 junho 2018





igualo hoje em idade o meu ano de nascimento.
não, não festejo 1959 risonhas translações solares
(há que descontar exactamente dezanove séculos)
mas lembrei-me de alinhavar aqui seis momentos
de uma espécie de play-list para a banda sonora 
desse ditoso ano vintage, que tal recém-nascido teve

















15 junho 2018






não tenho nada contra certos nomes conotados com profissões antigas,
mas devo confessar que, lola por lola, prefiro a dos kinks à da ministra









13 junho 2018





sei muito bem
que o cavalo branco de Napoleão
é preto.


quem aprende a ver essências
não se deixa iludir pela linguagem.




André Tecedeiro






10 junho 2018





escrita por bart howard em 1954, e originalmente intitulada "in other words",
esta canção tornou-se um standard instantâneo quando, dez anos depois, foi
gravada pela orquestra de count basie, com um novo arranjo de quincy jones.
e, claro, a voz e o estilo de francis albert sinatra encarregaram-se de tudo o resto.










08 junho 2018




Gnossienne nº 1




Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.


Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.





Rui Pires Cabral





03 junho 2018





Lentamente

  

Desaparecem os rostos
entrevistos na infância.
Nesse tempo cada um
tinha apenas uma cara.




Marta Chaves





27 maio 2018





na  tabacaria





oscar wilde entrou na tabacaria e pediu um pacote
de cigarros franceses, fortes e sem filtro. enquanto
pagava disse-me com voz doce que se eu quisesse
ser um militar, um veterinário ou um carpinteiro
acabaria invariavelmente por sê-lo, e que isso era 
o meu castigo. mas que se aspirasse a ser alguém
sem crenças firmes, sempre inseguro de si, nunca
sabendo o que queria ser, então nunca seria nada
e que essa era a minha recompensa. pouco depois
um dos irmãos pessoa entrou na tabacaria, olhou 
para mim como se esperasse uma inábil pergunta,
previsível por parte de um lojista sem metafísica,
e confessou num tom amargo que não era nada,
nunca seria nada, não podia querer ser nada, mas
aparte isso tinha em si todos os sonhos do mundo.







25 maio 2018





Onde me encontro,

Cruzam-se,
Sem que eu na realidade o saiba,

A obscura narração do íntimo

E
Rumores lentos
Que se evadem das pedras

E avançam
Até ao cume do poema
Por enquanto ilegível.





Yves Namur






16 maio 2018





Sai de casa



Rasga este poema depois de o leres
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,
Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.




Manuel Resende




14 maio 2018





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






a) o espião na versão final que veio a integrar o disco:




b) o espião numa versão rejeitada nas sessões de gravação:



i'm a spy in the house of love
i know the dream that you're dreamin' of
i know the word that you long to hear
i know your deepest secret fear
i'm a spy in the house of love
i know the dream that you're dreamin' of
i know the word that you long to hear
i know your deepest secret fear
i know everything
everything you do
everywhere you go
everyone you know

i'm a spy in the house of love
i know the dream that you're dreamin' of
i know the word that you long to hear
i know your deepest secret fear
i know your deepest secret fear
i know your deepest secret fear
i'm a spy 
i can see
what you do
and i know





11 maio 2018





Última hora




Sempre tive o pressentimento
de que morreria alvejada
por uma bala perdida.

Aconteceu hoje numa cidade
onde nem sequer estava,
num tiroteio que não vi.




Marta Chaves