20 junho 2018





igualo hoje em idade o meu ano de nascimento.
não, não festejo 1959 risonhas translações solares
(há que descontar exactamente dezanove séculos)
mas lembrei-me de alinhavar aqui seis momentos
de uma espécie de play-list para a banda sonora 
desse ditoso ano vintage, que tal recém-nascido teve

















15 junho 2018






não tenho nada contra certos nomes conotados com profissões antigas,
mas devo confessar que, lola por lola, prefiro a dos kinks à da ministra









13 junho 2018





sei muito bem
que o cavalo branco de Napoleão
é preto.


quem aprende a ver essências
não se deixa iludir pela linguagem.




André Tecedeiro






10 junho 2018





escrita por bart howard em 1954, e originalmente intitulada "in other words",
esta canção tornou-se um standard instantâneo quando, dez anos depois, foi
gravada pela orquestra de count basie, com um novo arranjo de quincy jones.
e, claro, a voz e o estilo de francis albert sinatra encarregaram-se de tudo o resto.










08 junho 2018




Gnossienne nº 1




Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.


Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.





Rui Pires Cabral





03 junho 2018





Lentamente

  

Desaparecem os rostos
entrevistos na infância.
Nesse tempo cada um
tinha apenas uma cara.




Marta Chaves





27 maio 2018





na  tabacaria





oscar wilde entrou na tabacaria e pediu um pacote
de cigarros franceses, fortes e sem filtro. enquanto
pagava disse-me com voz doce que se eu quisesse
ser um militar, um veterinário ou um carpinteiro
acabaria invariavelmente por sê-lo, e que isso era 
o meu castigo. mas que se aspirasse a ser alguém
sem crenças firmes, sempre inseguro de si, nunca
sabendo o que queria ser, então nunca seria nada
e que essa era a minha recompensa. pouco depois
um dos irmãos pessoa entrou na tabacaria, olhou 
para mim como se esperasse uma inábil pergunta,
previsível por parte de um lojista sem metafísica,
e confessou num tom amargo que não era nada,
nunca seria nada, não podia querer ser nada, mas
aparte isso tinha em si todos os sonhos do mundo.







25 maio 2018





Onde me encontro,

Cruzam-se,
Sem que eu na realidade o saiba,

A obscura narração do íntimo

E
Rumores lentos
Que se evadem das pedras

E avançam
Até ao cume do poema
Por enquanto ilegível.





Yves Namur






16 maio 2018





Sai de casa



Rasga este poema depois de o leres
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,
Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.




Manuel Resende




14 maio 2018





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






a) o espião na versão final que veio a integrar o disco:




b) o espião numa versão rejeitada nas sessões de gravação:



i'm a spy in the house of love
i know the dream that you're dreamin' of
i know the word that you long to hear
i know your deepest secret fear
i'm a spy in the house of love
i know the dream that you're dreamin' of
i know the word that you long to hear
i know your deepest secret fear
i know everything
everything you do
everywhere you go
everyone you know

i'm a spy in the house of love
i know the dream that you're dreamin' of
i know the word that you long to hear
i know your deepest secret fear
i know your deepest secret fear
i know your deepest secret fear
i'm a spy 
i can see
what you do
and i know





11 maio 2018





Última hora




Sempre tive o pressentimento
de que morreria alvejada
por uma bala perdida.

Aconteceu hoje numa cidade
onde nem sequer estava,
num tiroteio que não vi.




Marta Chaves





06 maio 2018





fábula  de  adão e  eva





chegou cansado, com um braçado de gravetos mirrados.
sobre o tampo de mármore da pequena mesa repousava
uma maçã. chamou-a uma, duas vezes. mas o que é isto, 
interrogou-a com olhar duro, colheste-a naquela árvore,
não foi. negou uma, duas vezes, bem sabes que jamais o 
faria, acrescentou, sei que é proibido. então ele acendeu 
a fogueira e perguntou pela última vez, juras. ela olhou-o
afirmativamente, aproximou-se do fruto e trincou-o. ele 
sentiu aqueles braços percorrendo-lhe o corpo, o convite
ao abandono, o odor que emanava da sua pele, o abismo.


lá fora, uma diáfana serpente olhou para os céus e sorriu.





02 maio 2018





(re)vi-o há dias, numa selecção de grandes clips publicitários.
continua a ser um dos melhores anúncios de todos os tempos.
depois, claro, fui recordar a canção e a voz de elvis
(and yes, it's true, tomorrow is overrated).













27 abril 2018






Frutos do acaso





Tal como tudo
o cheiro do lápis acabado de afiar
vai-se embora.
No cinzeiro
a ponta do cigarro que arde
desperta o cedro.
Tal como tu
o cheiro regressa. 





Marta Chaves



24 abril 2018






às vezes penso que nick cave só devia escrever baladas
...mas depois não era a mesma coisa.






stay by me, stay by me
you are the one, my only true love

the butcher bird makes its noise and asks you to agree
with its brutal nesting habits and its pointless savagery
now, the nightingale sings to you and raises up the ante
i put one hand on your round ripe heart and the other down your panties

everything is falling, dear, everything is wrong
it's just history repeating itself and babe, you turn me on

like a light bulb, babe, like a song

you race naked through the wilderness and you torment the birds and the bees
you leapt into the abyss, but find it only goes up to your knees
i move stealthily from tree to tree and i shadow you for hours
i make like i'm a little deer grazing on the flowers

everything is collapsing, dear, all moral sense has gone
it's just history repeating itself and babe, you turn me on

like an idea, babe, like an atom bomb

we stand awed inside a clearing, we do not make a sound
the crimson snow falls all about, carpeting the ground

everything is falling, dear, all rhyme and reason gone
it's just history repeating itself and babe, you turn me on

like an idea, babe, like an atom bomb