20 abril 2018





eu usava uma armadura
que me traiu duas vezes:

foi insuficiente para defender o golpe
foi eficaz a esconder a ferida.






André Tecedeiro






12 abril 2018





{ a  fábula  que  a  minha  mãe  merecia }





era uma lenda fabulosa, em que a minha mãe me contava histórias
enquanto passava a sua doce mão pela minha cabeça. narrativas e
viagens jamais realizadas mas que, por uma outra mão, a da sua voz,
aconteciam mesmo, caminhadas escritas com essas mesmas palavras.
e eu queria como o almada que ela atasse as suas mãos às minhas e
desse um nó cego e muito apertado, para nunca delas me separar. as
suas mãos eram o meu refúgio e todo um mundo ainda por descobrir,
quando ela passava a sua mão pela minha cabeça era tudo tão verdade.
mas depois senti que a tinha traído, porque o eugénio me lembrou que
ao crescer tinha deixado de ser o retrato adormecido no fundo dos seus
olhos meigos, embora eu ainda fosse aquele menino que adormecera
no seu olhar. o meu corpo é que crescera, saíra da moldura e voara com
as aves. só queria que soubesses que não me esqueci de nada, mãe, as
tuas mãos continuam nas minhas, as histórias hão-de ser escritas e nem
as palavras se perderam, pois guardei sempre a tua voz dentro de mim.






08 abril 2018





mais um daqueles flashbacks a arrumar os discos antigos:
e em que disco é que alguém cantava "my thinking isn't driven,
but the music always gives me a lift, i'm so easy to please", onde era?











05 abril 2018





elogio  da  preguiça





ai que prazer não cumprir um dever,
dizia o fernando antónio, rendido ao
doce entorpecimento da inacção. eu
também sempre preferi ficar a dever
um dever cumprido do que cumprir
o mesmo dever incumprido. dizem
que a preguiça é a mãe de todos os
vícios mas pelos vistos jamais alguém
tentou indagar quem foi o pai dessa
abençoada e indolente inércia, a que
me entrego sem qualquer remorso.
também acho graça vê-la considerada
um dos sete pecados capitais, e por
muitos enumerada num modestíssimo
sexto lugar, entre a inveja e a soberba.
apenas observo o decurso do tempo,
a vagarosa lentidão dos ponteiros no
relógio, imaginando-me bradípode e
desdentado, pendurado num galho
na selva sul-americana, sublimando
numa morosa oscilação ao sabor da
cálida aragem essa negligente aversão
a todo o labor tornado obrigatório e
qualquer forma de cumprimento do
dever. e assim permaneço, órfão de
pai mas feliz ao colo da minha mãe,
embalado por esse sonolento verso
ai que prazer não cumprir um dever.