19 janeiro 2017







Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro 
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de 
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas 
novíssimas nuvens em pé.





Cláudia R. Sampaio







17 janeiro 2017





lista de livros lidos em 2017 :


1. strange weather in tokyo, hiromi kawakami, portobello books



2. the book, keith houston, w. w. norton





3. ...






13 janeiro 2017





Considerações



1.
Só poetas muito pobres
falarão da riqueza destas casas.

As casas que limpo habitam o nadir
da hierarquia poética das casas
Mas com elas se paga o preço da arte.
Imprestável e luxuosa, dizem
Vital, penso, enquanto limpo casas.

2.
São-me muito próximas, estas casas vazias
Não há comunhão com uma casa até assoar cotão
Sentindo a casa sair de mim

Quando me mudei para a minha casa
Também a limpei dos pés ao tecto
E por isso me foi habitando nariz e poros.

No fim do dia enquanto a casa escorria
pelo branco da banheira, pensei:
o habitante é o meio pelo qual uma casa regressa a si.

3.
Se passares um dia a limpar uma casa
Ficarás muito limpo por dentro e
Muito sujo por fora.

4.
Teorema:
Quanto mais suja está uma casa, mais limpa está a sua esfregona.

5.
Não é vergonha que o poeta tenha que limpar casas.
Vergonha seria não escrever sobre elas.

6.
Há casas tão sujas que pedem black metal por banda sonora.

7.
Estas casas nunca se ocupam por muito tempo.
São prostitutas, não são casas para casar.
Entre um e outro ocupante
tenho que apagar as marcas dos corpos

Descobri uma esponja mágica
Que limpa dedadas da parede.
Custa o preço de duas cervejas
A terceira bebo-a ao fim do dia.

8.
Limpar-me com cerveja.

9.
Por vezes os lençóis são abandonados
ainda deitados nas camas.
São um arrepio estes lençóis.
Sair para comprar tabaco e não voltar.

10.
Uma casa não pode ser só bela
Tem que ter qualquer coisa de triste,
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Teria escrito Vinicius de Moraes
Se fosse um poeta tão pobre quanto eu.

11.
Trapos são os velhos.
As minhas t-shirts mais amadas terminam a vida
a esfregar paredes.

12.
Abandonam-se nas casas coisas sem préstimo
Móveis que não valem o seu peso às costas,
Canetas de apelo político que nunca escreveram senão listas de compras
(o poeta usará estas canetas para escrever sobre casas).

13.
Por vezes, nestas casas, também encontro fotografia.
Evidência:
Algumas fotografias pesam tanto nas costas como móveis.

14.
Com uma casa,
pago a água ou a luz
da minha casa.

15.
Nalgumas casas cortaram água e luz.
há que trocar horas de sol por horas na casa
há que levar a água nas mãos
(neste caso o poeta é também aguadeiro,
Direi rio, escada acima, rio Nilo).

16.
Por não ter medo de mexer nas zonas que outros evitam
O poeta é campeão a lavar sanitas.

17.   
Limpar casas é o preço de coisas muito caras,
como a arte.




Ana Tecedeiro





08 janeiro 2017






a primeira grande surpresa musical do ano chega-me cheia de esperança: o jazz não morreu, não senhor. quando se ouve o trompetista john raymond naquele seu estranho trio, com o guitarrista gilad hekselman e o baterista colin stranahan, sente-se instintivamente que ali nasceu algo maior, e que tocado ao vivo ainda mais nos surpreende.









04 janeiro 2017


{ ora vamos lá… }




lista de livros lidos em 2017 :


1. strange weather in tokyo, hiromi kawakami, portobello books 

2





01 janeiro 2017









lascia ch'io pianga mia cruda sorte, e che sospiri la libertà! 
il duolo infranga queste ritorte de miei martiri sol per pietà.





29 dezembro 2016






. resoluções para o ano novo .

{sim, daquelas que repetiremos daqui a um ano por as não termos cumprido}


há algumas mas quero sobretudo destacar estas:


1. elaborar finalmente, à semelhança de amigos e familiares que a conseguem completar, uma lista dos livros (com actualização e publicação regular) que fui lendo durante o período de tempo equivalente a uma translação solar.

2. formular o desejo de esperar que no ano que vem toda a classe política (governativa, parlamentar, autárquica, etc) deixe finalmente, independentemente da faixa etária, de estar tão bem retratada naquela velha canção do meu querido brassens:









26 dezembro 2016






um dos grandes azuis de willie dixon fecha o novíssimo disco dos rolling stones. 
para dinossauros que começaram por ser uma blues band de teenagers, há que admitir que ainda não esqueceram nada.










23 dezembro 2016





{ excerto de um episódio :: a queda de ícaro }



()

e esse conceito, posteriormente tão propagado,
do jovem ícaro como vítima da arrogância humana,
talvez seja desproporcionado e esteja até errado,
porque a sua morte se sucedeu a um feito extraordinário,
uma aventura ímpar não mais repetida pelo homem:
porque para ícaro a fuga, apesar da consequência trágica,
terá sempre valido a pena, pois pagaria qualquer preço
por esse sentimento de vitória sobre os muros do labirinto.

e ícaro tornou-se realmente imortal, tendo ganho um lugar
eterno na nossa imaginação por ter sido o único a conseguir
o que toda a humanidade desde sempre desejara fazer
ao observar fascinada o voo livre e sem esforço das aves:
poder um dia simplesmente imitá-las.

porque, como refere o perspicaz ovídio,
se algum pescador empunhando a sua cana,
ou um lavrador manobrando o cabo do arado
ou até um pastor apoiado no seu cajado
tiver erguido os seus olhos naquele momento,
e estupefacto visto pai e filho a voar pelos céus,
terá decerto ficado a pensar que só poderiam
ser dois deuses a caminho do eterno olimpo.

inúmeros são os artistas que a seu modo tentam,
muitos séculos depois, captar nas cores de uma tela
esse dramático episódio que a todos continua a fascinar,
como joos de momper e a sua visão do preciso momento
da queda, em que imaginamos as gotas da cera derretida
a cair sobre a água, e carlo saraceni e peter paul rubens,
ambos com a terrível imagem da desagregação das asas,
enquanto antoon van dyck e frederick leighton optam
pelo retrato de dédalo a dar os últimos conselhos a ícaro
antes do fatídico voo. para herbert james draper o filho
de dédalo mais não é que um glorioso anjo caído e, para
henri matisse, um vulto negro de coração ao rubro,
que dança triunfante ao redor de estrelas cadentes.

mas o melhor retrato é para mim o de pieter bruegel,
o qual, quando pintou “a queda de ícaro” que lhe é atribuída,
colocou em primeiro plano o lavrador, o pastor e o pescador,
mas mostra-os no desempenho dos seus afazeres quotidianos, 
compenetrados e quase indiferentes à pequena figura secundária
de ícaro que, no canto inferior direito do quadro, desaparece
no mar, não nos deixando sequer ver as fantásticas asas,
somente uma mão que cai inerte como uma pena na água,
numa alegoria ao triunfo da nudez crua da realidade
sobre a fantasia dos antigos mitos e a presunção estéril
de transcendência que habita qualquer vã aspiração humana,
como se alguém numa tragédia o dissesse melhor do que nós:

coro:
funesta máquina, que puseste a voar o homem que somos.
a terra e o mar sucumbiram ao nosso poder: só restava o céu.
os deuses deram como prenda duas asas à genial ave,
e do brilho da plumagem e do voo nasce a sua alegria,
embora apenas as aves sejam companheiras das nuvens.
o imenso espaço azul, os fortes ventos e as aves coloridas
são todos da mesma raça. mas nós não: o nosso único
génio é o de criar deuses que gostaríamos de poder imitar.

()






de val van icarus
óleo sobre tela, atribuído com reserva a
pieter bruegel





{ excerto do final do livro :: morte de dédalo }




()

dédalo:
vejo que chegas com um macio manto azul
nas mãos, para me envolver no teu abraço.
parece-me que será nas margens deste rio
que farás o suave leito onde irei descansar.
e sinto que esta beleza e esta paz são ofertas tuas.

coro:
abram a porta. deixem-no entrar
assim que as memórias o abandonarem.

dédalo:
recordo ainda o fio que entreguei a ariadne,
vejo aquele homem infeliz com cabeça de touro
e as asas do meu filho a caírem sobre o mar.
relembro o incessante mar que em cada manhã
voltava a sulcar a areia das praias de creta,
mas já não me é possível, adorada náucrate,
antever a luz do teu rosto sobre o meu.

coro:
assim que das recordações se esqueça.

dédalo:
tenho em mim a memória das tuas mãos, meu filho,
tão pequenas e fechadas nas minhas quando nasceste.
ainda hoje sei de cor as tuas mãos, meu filho,
tão trémulas e resignadas quando não lhes pude valer.

coro:
assim que das recordações se esqueça.

dédalo:
não queria morrer na beleza desta tua terra,
e sim poder viver para sempre no teu peito.
queria apenas pensar na água em que te banhasses,
no fruto que abrisses e na flor que colhesses,
na túnica que vestisses e na canção que cantasses
mas o meu coração, se assim pudesse pensar, pararia.

coro:
assim que das recordações se esqueça.

dédalo:
pois neste palco de formas infinitas que é o mundo,
desempenhei o meu papel sem dele saber ser actor.

coro:
abram a porta, deixem-no entrar.

dédalo:
porta que sempre para mim estiveste aberta,
mesmo quando os olhos do céu pareciam fechados,
sei que o teu apelo solene nunca se silencia.
da semente à flor, da flor ao fruto e de novo
 do fruto à semente, por ti passa o caminho.
só quem não sabe o que há no teu interior
tem medo de te abrir e receia afinal entrar.

coro:
as coisas aconteceram assim no mundo:
nem dédalo nem os deuses podiam saber
que no fim do labirinto estava outro labirinto,
este invencível, que é o do tempo que jamais cessa,
pois num lugar já fixado o hades a todos espera.
o industrioso fio de ariadne perdeu-se no tempo
e nesse labirinto até o labirinto se perdeu também,
mas é nosso dever imaginar que há um labirinto e um fio
mesmo que jamais, nem em sonhos, encontremos algum.

(a luz da manhã desponta no horizonte. o corpo de dédalo jaz imóvel na cadeira.
e o seu espírito, enquanto vai caindo o pano, lentamente sai de cena.)