22 agosto 2016





penso que nunca aqui falei dele, este outro dos meus americanos tranquilos. mas a verdade é que esta canção, muitos anos depois, veio a ser a minha banda sonora deste verão. e, para além de ser uma melodia cheia de soul, não consigo explicar por que razão nos tornámos inseparáveis durante estas últimas semanas.







gravity is working against me

and gravity wants to bring me down

oh, i'll never known what makes this man

with all the love that his heart can stand

dream of ways to throw it all away

whoa, gravity is working against me

and gravity wants to bring me down

oh, twice as much ain't twice as good

and can't sustain like one half could

it's wanting more that's gonna send me to my knees

oh twice as much ain't twice as good

and can't sustain like one half could

it's wanting more that's gonna send me to my knees

whoa, gravity, stay the hell away from me

whoa, gravity has taken better men than me

now how can that be?

just keep me where the light is

come on keep me where the light is







19 agosto 2016







"There once was a man whose wife was dead. She was dead when he fell in love with her, and she was dead for the twelve years they lived together, during which time she bore him three children, all of them dead as well, and at the time of which I am speaking, the time during which her husband began to suspect that she was having an affair, she was still dead."




- Kelly Link
 
in "The great divorce"






14 agosto 2016





ésse éme ésse





enviei uma mensagem a dizer apenas faz as malas, fugimos hoje
e tu tinhas de responder com posso levar o nécessaire da mamã
se fiquei desiludido, claro que não, gosto de ti por seres prática
até me pus a pensar que talvez fosse bom levar mais uma escova
de dentes e aquela pasta que sabe a pastilha elástica, nunca se sabe







21 julho 2016






fábula  dos  jogos  de  palavras  sem  graça





a primeira vez que fui à alemanha procurei beber água de colónia,
comer uma bola em berlim e, claro, encontrar um pastor alemão:
muitos campos percorri até encontrar um rebanho com esse pastor,
depois pareceu-me que a água de colónia sabia indecentemente a cloro
e, pelos vistos, já desconfiava, não existem bolas de berlim nessa cidade.
após estas desilusões, desisti de procurar alguma podridão na dinamarca
e deixei de tentar provar determinadas couves em bruxelas e na galiza,
mas estes jogos de palavras sem graça não me fazem esquecer os livros.
é que, se eu mandasse, livros seria a única prenda que se poderia oferecer.
e se eu mandasse mesmo muito, creio que teriam de ser livros de poesia.





13 julho 2016





Morro todos os dias
especialmente depois do lanche
quando pego no regador fininho
onde despejo o dilúvio dos olhos
e vou regando as plantas
à espera de descendência.




Cláudia R. Sampaio




26 maio 2016





festeja hoje noventa risonhas primaveras o meu herói miles dewey davis iii.
ninguem o vê desde noventa e um, mas isso não interessa nada: há quem o ouça quase todos os dias.
parabéns miúdo, que contes muitas.











30 abril 2016







"A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso."




(excerto de "Morrer é mais difícil do que parece")
Paulo Varela Gomes (1952-2016…(







25 abril 2016






para mim este príncipe foi sempre "sua alteza". recriou o funk e a pop de um modo único e era um raro talento multidisciplinar: tocava guitarra, piano, bateria e não sei quantos mais instrumentos, cantava e dançava, para além de escrever as letras e a música das suas canções e ainda oferecer músicas para outros. foi também um dos meus heróis simbólicos nos anos oitenta e acompanhei-o sempre, mesmo quando deixou de estar na moda. uma vez estava em londres e pude vê-lo ao vivo, na lovesexy tour – e ocorreu uma revelação. talvez só o grande alfredo mercúrio tivesse o mesmo tipo de presença sobre um palco. há uns quatro anos voltou a reinventar-se, rodeando-se de três princesas e regressando ao formato nuclear do quarteto rock (duas guitarras, baixo e bateria), assumindo essa herança de hendrix no seu virtuosismo como solista. quem ocupa agora este lugar?





soube-se entretanto que nas últimas actuações que deu recentemente se apresentara sozinho, cantando apenas acompanhado por si ao piano, possivelmente uma nova experiência que estaria a explorar. gostava de o ter ouvido e de ver como teria adaptado a sua música a um piano solo. mas tive ainda a sorte de o voltar a reencontrar há três anos, naquela noite mágica no coliseu de lisboa. o concerto abriu exactamente com esta canção, revisitando num modo rock um seu êxito antigo, e é isso o que me magoa mais no seu desaparecimento: não podermos a partir de agora voltar a ser com ele assim doidos.








24 abril 2016






she believed in fairy tales and princes,
he believed in jazz, rhythm&blues
and this thing called soul,
he believed in rock&roll







nothing compares 2 u
prince rogers nelson
(1958-2016…(...






02 março 2016






[ podia dizer que a escrita neste mural chegou hoje ao fim e encerrar o belogue, mas não o vou fazer. até porque pode 
suceder que daqui a algum tempo volte a sentir motivação para grafitar novamente esta parede branca. até lá, adeus. ]



I vow that it's goodbye
I vow that it's goodbye and God bless
Why did we have to assume
We're exactly the same?
O no, talking about yourself

I vow that it's goodbye to the old ways
Those stories were a good read
They were dumb as well
I could never be seen
Falling down on my knees crawling
O no, talk about a sell

O as the heavens shudder baby
I belong to you
O they said you get what you deserve
And all they said was true

So is this what it's come to?
Am I cold or just a little bit warm?
O well
Just give me an easy life and a peaceful death







01 março 2016






em "palace", um dos meus cornell favoritos, joseph recolheu ramos da árvore que havia nas traseiras da sua casa em 3708 utopia parkway e colocou-os a servir de fundo a uma fachada de um grande edifício, encerrando posteriormente o conjunto numa das suas caixas mais icónicas. em bom rigor, a mim parece-me mais um hotel que um palácio, mas existe um pequeno pormenor que faz toda a diferença: quando nos aproximamos e tentamos olhar para o interior daquelas janelas entreabertas, descobrimos com surpresa que está alguém a olhar para nós, como se os hóspedes do hotel nos observassem numa muda interrogação. e é então que percebemos que existem ali, abrigadas pelas pequenas persianas, superfícies espelhadas: são os nossos olhos que nos olham - e não é uma visão de viajantes a pernoitar num quarto alugado, são os senhores do palácio que nos reprovam a curiosidade, com um olhar de enfado pela nossa imprudente ousadia.







palace
joseph cornell






última  fábula: 






a morte à beira-rio






se eu morrer à beira-rio embrulha o meu corpo num tronco de árvore
deita-o na água e deixa-o flutuar e despede-te e deixa-me partir assim
não chores triste e fica apenas a ver se a corrente me leva tejo abaixo
segue-me pela margem e vais ver que é fácil e que a foz está ali perto
já só tens de fazer mais esse esforço de tentar distinguir-me ao longe
então se observares bem vais ver uma caravela sem mastro nem vela
e acredita que vou dar a volta ao mundo e me lembrarei sempre de ti
que os mares são só sete e que talvez um dia quem sabe até regresse








28 fevereiro 2016







levaram-me mechas de cabelo
pele unhas
eu deixei

levaram-me os dedos das mãos
veias pulmão
eu deixei

levaram-me olhos ossos
rins recordações
algumas dores coração
esperanças loucas
fígado muitas lágrimas
perna braço baço
sangue em circulação

eu evaporei







Carla Pinto Coelho






26 fevereiro 2016






Oferta




Até aqui a rosa. Para além
fica a imagem que nos traz o dia,
a mesma sombra, a curva que contém
tudo o que nela aumenta e não havia.
Um frémito, um vestígio como a renda
que nasce com os gestos, o tecido
em que as mãos (já unidas) são a senda
que nos leva ao limite pressentido:

uma outra rosa, aquela que habitava
nas sementes de tudo o que te dava.






Fernando Guimarães







24 fevereiro 2016







[ leituras ]









“quartos alugados”
alexandre andrade
ed. exclamação



ando muito viciado em livros de contos, é verdade, e tive a sorte de encontrar este pequeno tesouro escrito em português. trata-se de um conjunto de histórias que gira à volta de uma ideia-tronco comum: a de um tempo do corpo no espaço que é um quarto.
há histórias para todos os gostos: em quartos alugados, quartos escuros, quartos esquecidos, quartos estrangeiros, quartos revisitados, quartos sonhados e, pelo meio, há literatura e uma prosa rica em mil e uma referências: proust, beckett e borges (o conto “sul” é uma revisitação quase perfeita de “o aleph”), discussões filosóficas, gastronomia, música, e uma geografia dos quartos que vai de lisboa a paris, passando por coimbra, tondela, braga e outras cidades (em) que (se) abrigam os quartos.
a maior surpresa, para além da riqueza da narrativa, foi para mim o estilo: uma prosa limpa, com um ritmo peculiar e uma escolha de palavras e adjectivos sem mácula. em português – e não acordês. o facto de ser professor universitário (e de física, note-se) ainda mais sublinha a originalidade desta escrita de um autor que, desconfio, não quer(eria) de todo ser um escritor.













surpris!
henri rousseau






23 fevereiro 2016







marear  na  tua  carta






agora que a primeira onda invade o convés desta nossa caravela nua
só queria mesmo afundar-me contigo e salgar-me nas praias do teu amar,
flutuar sem temor no secreto compasso que adivinho em cada maré tua:
lendas de gigantes, musas da nossa canção, cabos ainda por dobrar.


agora que a última onda submergiu esta nau que se afundou em ti
já nem sequer posso içar âncora e marear na tua carta de marear,
desvendar os longínquos reinos que afinal sempre estiveram aqui:
mistérios do teu corpo, oceanos de alva névoa, sete mares por navegar.







22 fevereiro 2016







este azul já por aqui apareceu, mas hoje recordei-o, pela voz incomparável da grande ella.



My mama done tol' me when I was in pigtails

My mama done tol' me, "Hon,

A man's gonna sweet talk and give ya the big eye

But when the sweet talkin's done
A man is a two-face

A worrisome thing who'll leave ya to sing

The blues in the night"

Now the rain's a-fallin'

Hear the train's a callin', whooee

My mama done tol' me

Hear that lonesome whistle

Blowin' 'cross the trestle, whooee!
My mama done tol' me, a-whooee-ah-whooee

Ol' clickety-clack's a-echoin'

Back th' blues in the night


The evenin' breeze'll start the trees to cryin'

And the moon'll hide it's light

When you get the blues in the night
Take my word, the mockingbird'll sing

The saddest kind o' song

He knows things are wrong

And he's right

From Natchez to Mobile, from Memphis to St. Joe

Wherever the four winds blow

I been to some big towns an' heard me some big talk

But there is one thing I know
That a man's a two-face

A worrisome thing who'll leave ya to sing

The blues in the night