leituras de abril
24 abril 2020
21 abril 2020
15 abril 2020
12 abril 2020
partes de mim
lisboa é uma cidade em que é fácil perderes-te.
comigo passou-se assim: andava pelas calçadas
a pensar nas mesmas pedras pisadas pelo eça e
pelo cesário, depois via irmãos pessoa em todo
o lado, o bernardo nas arcadas do terreiro do
paço, o álvaro no elevador de santa justa. mas
o pior foi quando comecei a perder partes de
mim, deixava a cabeça no castelo ou o ombro
no cais das colunas. durante um tempo ainda
conseguia recuperar certas peças nos perdidos
e achados, mas depois desisti, o que aparecia
por lá eram partes de outros, esquecidas aqui
e ali, restituídas anonimamente. e agora não
sei quem sou, nem onde possa estar. acredita
que foi apenas uma mão quem escreveu isto.
26 março 2020
O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.
(Cnossos, 1984)
Jorge Luis Borges
21 março 2020
18 março 2020
15 março 2020
a literatura foi tão efémera
se eu soubesse que ia ser assim, jamais a literatura
teria entrado na minha vida. ela alicia-nos desde a
adolescência com romances, novelas, poesia e até
teatro e depois é isto. instala-se em mim, em ti, em
todos nós esta espécie de insatisfação permanente.
sim, diz-me, o que fez por ti a literatura senão dar-te
a consciência da tua insuficiência perante um texto
que te aperta a garganta ou faz o teu coração falhar
um batimento. ou enumera lá as grandes vantagens
obtidas por deixares que essas letras alheias criassem
no teu espírito imagens irreais, situações impossíveis
e emoções pouco saudáveis. a verdade é que aquilo
que foste lendo, as dezenas de livros, os milhões de
palavras, se perdeu ao longo dos anos. guarda-se em
ti uma vaga memória de um ou outro personagem
célebre e daqueles enredos mais famosos, mas sabes
no teu íntimo que leste para esquecer, a literatura foi
tão efémera quanto a recordação dos seus benefícios.
05 março 2020
na eterna demanda do nocturno mais-que-perfeito,
dou por mim muitas vezes a trautear este velho tema
de victor young/ned washington, recriado pelo trio de
bill evans ao vivo em 1961, numa gravação que veio a
tornar-se um instant classic. podia ser apenas mais uma
versão de um standard, mas não conheço outra superior.
29 fevereiro 2020
26 fevereiro 2020
20 fevereiro 2020
16 fevereiro 2020
fábula das aves decapitadas
as aves decapitadas continuam a inventar
asas para evitar a vertigem da queda. elas
apenas desejam estar mais além, parar de
pensar, deixar de ser. e as suas pequenas
cabeças cortadas acumulam-se em nós, os
que deixámos de voar julgando ser assim
possível não sermos proscritos, que fomos
inventando palavras aladas para não mais
nos obrigarem a pousar nestas páginas. as
aves decapitadas dormem em nós, como
se continuassem deitadas sobre árvores.
lê as palavras no papel e, não te esqueças,
o livro provém da árvore. é como o filho
distante que sabemos estar bem próximo.
os escritores gostam do outono porque os
bosques se despem, as letras se soltam dos
troncos, e na terra são por fim recolhidas
por quem tanto deseja escrever sobre elas.
e só depois essas folhas caídas se agrupam
em palavras impressas e regressam à árvore
que as aves decapitadas usam como diário.
que as aves decapitadas usam como diário.
12 fevereiro 2020
07 fevereiro 2020
04 fevereiro 2020
29 janeiro 2020
fábula para manuel resende
desculpa, não fui capaz de rasgar aquele poema
depois de o ler. jamais poderia suportar a ideia
de espalhar esses fragmentos pelo vasto mundo,
esperar pelas intempéries ou os homens do lixo
ou sei lá o quê mais que acabasse com ele de vez.
depois de o ler. jamais poderia suportar a ideia
de espalhar esses fragmentos pelo vasto mundo,
esperar pelas intempéries ou os homens do lixo
ou sei lá o quê mais que acabasse com ele de vez.
é que também sinto uma dor no peito pelo peso
dos anos, não me abandona a imagem daquele
zarolho a salvar das águas um livro, quando se
alongava a peregrinação cansada sua, a idade
se gastava e crescia o dano. é que também ele,
náufrago na sua poesia, deitou tantas palavras
sobre o mundo a ver se o mundo se arrependia.
dos anos, não me abandona a imagem daquele
zarolho a salvar das águas um livro, quando se
alongava a peregrinação cansada sua, a idade
se gastava e crescia o dano. é que também ele,
náufrago na sua poesia, deitou tantas palavras
sobre o mundo a ver se o mundo se arrependia.
é que aqueles versos compareceram em peso,
alvos impolutos ferindo a língua na aresta das
páginas, autênticos acrobatas erectos salvando-
-se a nado do dilúvio gramatical. é que eu gosto
das palavras e do canto, talvez tanto como tu,
e prefiro sentar-me algum tempo junto a mim
ouvindo esse grito irresoluto, lendo o manual
de instruções onde o poeta é subitamente um
animal que tem uma imensa boca, aberta em
cada poro do seu corpo, para matar a fome das
palavras, pois a fome é o pão mais duro de roer.
alvos impolutos ferindo a língua na aresta das
páginas, autênticos acrobatas erectos salvando-
-se a nado do dilúvio gramatical. é que eu gosto
das palavras e do canto, talvez tanto como tu,
e prefiro sentar-me algum tempo junto a mim
ouvindo esse grito irresoluto, lendo o manual
de instruções onde o poeta é subitamente um
animal que tem uma imensa boca, aberta em
cada poro do seu corpo, para matar a fome das
palavras, pois a fome é o pão mais duro de roer.
27 janeiro 2020
24 janeiro 2020
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