11 outubro 2015








“Ler para Borges era ouvir os comentários de Borges sobre aquela leitura. Quando lemos para nós escolhemos os livros, damos uma certa entoação ao texto, descobrimos coisas por nós, reflectimos sobre o que estamos a ler. Nada disto acontecia quando eu lia para Borges. Estava apenas a emprestar-lhe os meus olhos. A escolha do texto era dele, o tom era o dele e, sobretudo, os comentários eram dele. Não era um acto colaborativo – era simplesmente Borges. Ele dizia, “começa”, e eu lia duas linhas e ele mandava-me parar e fazia um comentário, mas o comentário, ainda que fosse dito alto, era para ele próprio, não para mim. Por isso tive esta estranha experiência de ser a testemunha da leitura privada de alguém – e não era qualquer um, mas um dos maiores leitores de todos os tempos. Isso foi um grande privilégio”.






Alberto Manguel






2 comentários:

  1. Dos dez aos quinze anos cuidei de uma avó com problemas oftalmológicos graves. Fez várias cirurgias. E eu, no intervalo da escola, limpava-lhe os olhos, aplicava as pomada e as gotas, e dava-lhe de comer.
    Mas não fazia só isso. Quando me pedia, lia-lhe. Hoje, passados cerca de quarenta anos, sei que foi uma experiência marcante. Na altura, porque era muito miúda, não tive essa consciência. Talvez por isso tenha conseguido desempenhar melhor o papel.
    Por vezes, acontecia pedir-me que repetisse a última frase ou que explicasse qualquer coisa que a minha cabeça de criança não atingia.Talvez fossem dúvidas só para ela própria, apesar de proferidas alto.
    Obrigada por me levar a esta memória que, afinal, tem contornos tão nítidos.

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