15 julho 2012











Venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.










António Franco Alexandre












4 comentários:

  1. três deuses dentro de um breve amor ... perfeito para roubar.

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  2. não há quem tenha mão nisto?... ai o castigo divino... ;)

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  3. já deve andar por aqui, mas... :)

    «Já dei a volta ao mundo, transportado
    às vezes pelo vento, outras no dorso
    de vigorosas aves migratórias;
    atravessei desertos, vi praias
    que a vaga névoa humana delimita;
    flutuando à deriva no mar alto,
    fui visitar as mais desertas ilhas.
    Como um herói antigo, bem podia
    debruçar-me na areia do destino
    e dar-lhe a consistência das histórias;
    ocorrem-me aventuras, episódios,
    naufrágios casuais, duros exílios,
    que na arte do verso são figuras
    de alguma obscura ausência primitiva.
    Suspenso de uma trave, protegido
    pelas paredes mestras desta casa
    erguida, como um barco, sobre abismos,
    com pouco esforço poderia ter
    no papel branco um novo corpo de asas,
    e descansar enfim, todo coberto
    por um suave manto de memórias.
    Mas se vou transformar-me, não aspiro
    à condição de marco funerário
    ou ténue monumento de mim mesmo;
    nem tenho grande pressa de lembrar
    a morte mal parada deste inverno,
    ratos armados espalhando a peste,
    outros deixados nos carris da sorte.
    Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
    um tanto mole, e pouco colorido;
    não tem o corte puro do besouro,
    nem o jeito frugal do escaravelho;
    mal chega a florescer, logo envelhece,
    e o pouco que constrói cedo parece,
    transfigurado em sombra, não ter sido.
    Assim serei também; por mais que digam
    que nesta mutação me desperdiço
    e arrisco até uma burlesca queda,
    eu teimo em ser humano por um dia
    para que possas ver-me tal qual sou:
    um grão, de fina areia, que se move
    no dourado rumor da tua pele,
    o breve estremecer que te percorre,
    a preguiçosa vida dos sentidos;
    e depois, teu igual, talvez te vença
    ou me deixe vencer, e te pertença
    com a vaidade que me vem de ter
    o sábio coração de um aranhiço.»

    (António Franco Alexandre)

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  4. acho que agora já anda por aqui... :)

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