30 março 2017






Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.






José Miguel Silva






4 comentários:

  1. Gosto muito deste poema. Num todo e por algumas referências mais em particular, como o tempo morto, o deus que se afasta, a solidão, o não se aprender nada há dois séculos.
    Mas é curioso que foi o cortar dos pulsos que mais me levou a fixá-lo. É que sei que o li há pouco tempo por essa referência, talvez por ser um lado mais "espectacular".
    Bom dia, josé luís (aqui o sol voltou a ficar cansado.)

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    1. bom dia, (aqui o sol ainda vai aparecendo) ;)

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  2. Respostas
    1. mapas alheios - e afinal tão nossos... ;)

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