19 janeiro 2017







Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro 
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de 
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas 
novíssimas nuvens em pé.





Cláudia R. Sampaio







6 comentários:

  1. Por causa do "homem que me levante com os olhos" (bonito!), fiquei a pensar que as nossas pessoas são as que têm condições para fazer isso connosco.
    Boa tarde, josé luís! Com sol aqui :)

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  2. ufa.
    que bonito.
    ondes descobres estas coisas, José Luís?

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    1. em livros ;) neste caso, "ver no escuro", ed. tinta-da-china

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  3. Que maravilha o poema da Cláudia, vou procurar o livro...
    ~CC~

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    1. ;)
      (outro aqui: http://novascartasdemarear.blogspot.pt/2016/07/morro-todos-os-dias-especialmente.html)

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