01 novembro 2015








Neste lugar de autocarro
sentou-se antes de mim
um outro
alguém
munido de uma faca e de tal
incisiva inquietação que
eram mais de cem os cortes nas costas
do banco em frente.

Terá quem estava à sua frente
pressentido
a lâmina dirigida às costas?

E em que pensava o esquartejador de bancos?

Quem sabe
imaginou-se a cortar alguém.
Provavelmente
a si mesmo

e o banco tem costas largas.








Ana Tecedeiro





3 comentários:

  1. Por muito que custe, parece-me sempre preferível sabermos das facadas que nos dão, incluindo as que são cravadas pelas costas. E já agora: nas costas dos outros vemos as nossas.
    Como ainda não tenho - mas em breve vou ter! - o novo livro da Ana, não sei se o poema consta desta edição. De qualquer forma, e como julgo que o josé luís não se importa de prestar serviço público de estafeta de felicitações, envio por aqui os parabéns à Ana. ;)
    Continuação de bom domingo.

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  2. eu não vou ter o último (não tive o primeiro, o segundo?) livro da anita no alfarrabista, mas isto é o retrato da minha adolescência nos transportes da margem Sul.

    obrigada pela partilha daquilo que é uma memória, onde quer que ela esteja... :)

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