01 outubro 2015







Paris





Quando vi o mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu itinerário. Ao descer para a praia
já era quase escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas as famílias eram negligentes
e estavam em férias.

O coreto tinha sido assaltado
por jovens excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma história à minha espera na Gare du Nord essa noite.







Rui Pires Cabral






2 comentários:

  1. Quando se vê o mar, quando alguém vê o mar e consegue senti-lo, os itinerários reduzem-se a manchas que salpicaram a memória.

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