30 junho 2015






fábula  da  arca  de  noé
(versão alternativa)







no dia da grande inundação ficou escondido
imperceptível entre as folhas de uma árvore
viu chegar noé com a sua velha t-shirt
apreciou o ritmo ordeiro da entrada dos animais
subindo contentes para a barca, lado a lado,
casais felizes contados com o grito “2”
dito pela mulher de noé na base da rampa
e com o “dois” de confirmação dito por ele
à entrada da grande arca de madeira resinosa

o que mais lhe custou não foi ter sido rejeitado
nem sequer noé lhe ter chamado “hermafrodita”
a maior dor foi ouvir aquele improvável e irreal grito “1”
ser aceite com um sorriso pelo “um” prazenteiro de noé















les yeux clos
odilon redon





29 junho 2015






segunda-feira de azuis e notícias tristes. chris squire, um dos fundadores dos yes (um daqueles super-grupos de prog rock que povoaram a minha adolescência), não resistiu a uma leucemia aguda que lhe tinha sido diagnosticada há poucos meses. com o seu desaparecimento o grupo verdadeiramente acabou, porque ele era o elo que sempre conseguiu unir (e reunir) os outros elementos, muitas vezes dispersos em carreiras a solo (jon anderson, rick wakeman, etc). 
vi-os tocar uma única vez ao vivo, em barcelona, há muito muito tempo, mas sei que foi um dos maiores baixistas que alguma vez (ou)vi. i still remember the dream there (i still remember the time you said goodbye).

 

Long distance runaround
Long time waiting to feel the sound
I still remember the dream there
I still remember the time you said goodbye
Did we really tell lies
Letting in the sunshine
Did we really count to one hundred

Cold summer listening
Hot colour melting the anger to stone
I still remember the dream there
I still remember the time you said goodbye
Did we really tell lies
Did we really count to one hundred

Long distance runaround
Long time waiting to feel the sound
I still remember the dream there
I still remember the time you said goodbye
Did we really tell lies
Letting in the sunshine
Did we really count to one hundred

Cold summer listening
Hot colour melting the anger to stone
I still remember the dream there
I still remember the time you said goodbye
Did we really tell lies
Did we really count to one hundred

Looking for the sunshine











este grande azul tem uma versão mais longa, gravada alguns anos mais tarde - e depois veio a ser objecto de um dueto com van morrison (na fase final da carreira, com as gravações de john lee "with friends") - mas é neste original que se revela tudo aquilo que faz de hooker inimitável. não é o esquema métrico nem o seu estilo pessoal na guitarra: é aquele indício (aliás propositadamente velado, creio) dessa atmosfera particular, uma vivência dos azuis que mais ninguém conseguiu sugerir.



It serves me right to suffer, serves me right to be alone
Serves me right to suffer, serves me right to be alone
Because in my mind I'm still livin' in days done past and gone

Ev'rytime I see a woman she makes me think of mine
Yeah, ev'rytime you see a woman she makes me think of mine
And that's why, that's why, that's why I can't keep from cryin'

My doctor put me on milk, cream and alcohol
My doctor put me on milk, cream and alcohol
He told me that's why you can't sleep at night














[óbidos]





28 junho 2015






Atestado médico






Cursei medicina, aprofundei a anatomia,
Especializei-me em fisiologia.
Depois, meu adorado organismo
Composto de devaneios de primavera, conheci-te.
Deslumbrou-se o meu encéfalo,
O meu sistema endócrino desregulou-se de todo.
Resultado: tu bem sabes:
apaixonei-me por ti, desmedidamente,
O que mostra perfeitamente a medida
Daquilo que me é impossível medir.
Só para teres uma ideia, a admirável pigmentação
Das tuas íris de tal modo contaminou as minhas,
Que durante cinco dias tudo, tudo em meu redor
Ganhou tons de pôr de sol outonal.
Um daltonismo esplêndido.
Entretanto o meu coração, órgão vital
Com as suas duas válvulas, os seus dois ventrículos
E as suas duas aurículas,
Passou a contrair e a distender os seus compartimentos
De maneira mirífica, mais intensa, mais exaltada.
Nunca este músculo me tangeu assim tão irrequieto.
Perplexo, decidi analisar o inesperado fenómeno.
Não muito tempo depois, esbarrei,
Espanto de fogueira, com uma estranheza anatómica:
Ao contrário do que a medicina me ensinou,
Revelaram-me as minhas examinações, pasmei,
Que possuo um órgão vital a mais. Não quis crer.
Decidi reexaminar. Tal-qualmente o mesmo resultado:
No interior da minha cavidade torácica,
Os meus mestres não iriam acreditar,
Com um outro coração me deparei : o teu.
O teu, o teu colorido coração, meu adorado
Organismo composto de devaneios de primavera.
Nas minhas artérias e nas minhas veias
Circula também o teu sangue,
Líquido vermelho e viscoso que nutre
Esse extraordinário órgão
Segregante de espantosas e eufóricas auroras,
Tão vital para mim quanto
Os demais órgãos do corpo humano.
Falo obviamente do amor,
Um órgão totalmente alheio à medicina.
De acordo com o mencionado,
Mais o quadro clínico apresentado,
Atesto que sou portador
De uma prodigiosa síndrome,
Vendaval vivificante, confluência de encantamentos,
O que me confere uma capacidade permanecente
De manobrar o leme da burocracia das estrelas,
As rédeas do canto das aves, a alavanca das ambições das flores.









Dinis Moura





27 junho 2015






esta velha balada de bryan ferry fechava o album "manifesto", na reunião da banda no final da década de setenta. 
e continua a apetecer-me rodopiar enquanto a ouço. aliás, a apetecer rodopiar-me.



Now the ballroom´s empty
Everybody I have known
Has been and gone
With the music over
Here am I
A shadow echoing on
Spin me round…

Now there must be something
In what they say of all things
Great and small
There´s a dozen roses
Lying almost dying
To say it all
Spin me round…

A nether world dancing toy
I´m wired for sound
Does it matter to me
Who turns the key?

Now if life is for living
Then the way is clear
But I don´t understand
Why the dream has ended
Yet I can´t wake up
Lend a hand -
Spin me round…











[ os jacarandás da rua castilho ]






26 junho 2015





Navegações doentes




Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluidos
e o devaneio em barcos de desejo

Os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

Tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos







Ana Luísa Amaral













[ cais da(s) coluna(s) ]





25 junho 2015






esta canção é demasiado antiga para ter esperança de a ouvir no próximo dia 14. 
mas que era uma delícia, lá isso...



OH Ohio seems like a dream to me now
News papers in an empty basket
And I know all we'll show
I wrote your name upon the paper bag
Round today, green tomorrow
Green doesn't matter
Yeah green doesn't matter

And I hear that the word is up
And a dog's gotta do what a dog's gotta do
And green doesn't matter
Yeah green just doesn't matter
When you're blue

Busting my chops
Green fields into rocks
Beyond the fruited plain
Where there grows no fruit of the game
And I've gotten your holding inside my head, inside my head
Green doesn't matter
Green doesn't matter
Yeah green doesn't matter much
Yeah green just doesn't matter much
Green doesn't matter
When you're blue











object (soap bubble set)
joseph cornell





23 junho 2015






noah’s  ark  fable
(foolish extended english version) 





on the day of the flood
noah woke up early.
he put on an old t-shirt
wherein it was written:


adam shot the apple
into his vein
adam said to eve:
me tarzan, you jane *



“2” … “two”
“2” … “two”
“2” … “two”
“2” … “two”


“2” … “two”
“1” … “one”
“one?… ah yes, it's you
welcome aboard…”








* stolen from a timbuk3 song

22 junho 2015









aves
angelo musco











morris holt foi mais um dos nomes nascidos no mississippi que seguiu o percurso dos grandes executantes oriundos do delta, tornando-se conhecido em chicago. foi o seu mentor magic sam a dar-lhe a alcunha definitiva. só gravou o primeiro disco aos quarenta anos, mas os seus solos de guitarra, lentos e apaixonados, deram-lhe fama e tornaram-se a sua imagem de marca. ainda muito jovem tivera uma grande paixão pelo piano, mas tendo perdido o dedo mínimo da mão direita num acidente com uma descaroçadora de algodão, a seis-cordas acabou por ser uma (segunda) escolha feliz.







21 junho 2015








[castelo de vide]











uma das grandes canções de kozelek na fase sun kil moon. e gosto imenso deste clip, 
com uma animação de aleksandr petrov baseada em "o velho e o mar" de hemingway.



i sit here and wait
on the banks of the carquinez strait
watchin’ pelicans swish
for a beak of sunning king fish
and i meditate
up shore from the golden gate
watchin’ sea lions bask in the sunshine
and find that my eyes
can still be awed and surprised

all night i hear wails
of the union pacific rails
of alley cat scraps
of lost baby humpbacks
of incoming ships
in from their epic long trips
and of mother’s dying these sounds never leave
be there for them
spend every moment you can

and love your girl dearly
look deep into her soul
and say that i love you
before your body turns cold
i love my girl dearly
and her little dog boo
we’re a small pack
but hey we’re happy too
i sing her a song i write her a poem
i gave her my bed and the keys to my home

whenever we want
we’ll just pick up and go
out to the forests
to the mountains of el dorado
or take morning walks
along the rivers that shine
like old silver dollars
buffalo nickles and dimes
but one day she may leave if i lie or i cheat
but i hope that she don’t
‘cause i need her so

i tie on my bait
on pier on the carquinez strait
with others i cast
sharing some time and some laughs
i come home so proud
when my stringer is heavy and full
when the night crickets chirp
and they shut down the old arsenal
and my wonderful love
she’ll cook my favorite dishes
dungeness crab
and a plate of pan fried king fish
and we’ll fall asleep when our stomachs are full
and in the mornin’ i’ll wish
for a bigger catch of king fish





20 junho 2015







Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida
Sou isso, enfim
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.







Álvaro de Campos