31 maio 2015






[e, a propósito das suas oitenta e cinco risonhas translações solares... muitos parabéns, clinton jr.]




clint eastwood
martin schoeller










‹‹ Flaubert believed that it was impossible to explain one art form in terms of another, and that great paintings required no words of explanation. Braque thought the ideal state would be reached when we said nothing at all in front of a painting. But we are very far from reaching that state. We remain incorrigibly verbal creatures who love to explain things, to form opinions, to argue... it is a rare picture which stuns, or argues, us into silence. And if one does, it is only a short time before we want to explain and understand the very silence into which we have been plunged. ››






Julian Barnes










jennifer lawrence
willy vanderperre





30 maio 2015






nas elípticas (e desconfio infinitas) arrumações de élepês, cêdês e velhas cassettes, fui dar com este grupo, hoje praticamente desconhecido. os diva começaram onde acabaram os odisseia latina, com a entrada em cena de natália casanova, uma das grandes vozes da pop naquela mudança de década para os anos noventa (bem vividos...). esta canção ainda hoje se ouve bem e faz-nos pensar que desapareceram cedo demais. o que será feito dela e deles?




amor errante
por onde andas
há tanto tempo
amor errante
seguindo o vento
sempre distante
sem um lamento

sem parar nem pensar
ao partir e voltar
para sempre hás-de errar
onde o vento soprar

amor distante
por quem eu espero
contando o tempo
a cada instante

para sempre hás-de errar
onde o vento soprar

amor errante
por quem demoras
há tanto tempo
amor distante
eu conto as horas
amor errante
ainda há tempo

para voltar
meu amor tão distante
onde te leva o vento
meu amor tão distante
volta enquanto há tempo






28 maio 2015






"Para um escritor, talvez a questão não seja tanto conhecer as árvores mas conhecer-lhes o nome. Há aquela história que se conta sobre Eugénio de Andrade. Que o poeta, estando um dia de visita a uma biblioteca pública algures, se detém junto de uma jarra de flores belíssimas. “Como se chamam?”, terá perguntado. Ao que a bibliotecária, com a suave fleuma de que só os grandes leitores são capazes, responde, “Frésias. Os seus poemas estão cheios delas”. Não sei se a história é verídica, mas é útil para esta conversa sobre nomes e coisas e o que se passa aí pelo meio. Para o poeta, o nome é já a coisa."






Jacinto Lucas Pires






[para a Rosa]








[alcainça]






27 maio 2015






era o único nome que me faria ir a um festival no porto mas, dado só se venderem passes para os três dias (com custo acima de cem euros), desculpa-me mark kozelek, ficas agendado para a próxima... e olha, vou ver o kurt wagner primeiro.



A pillow lays on cold cement
A blanket by a broken vent
She's there a while
And then she's gone
I'm away for weeks
Arrive at night
She hears my steps
Turns off the light and runs

No mind at all, more space than I need
It's just me among the weeds
Among the ghosts
Among the leaves
We've never met but she's a girl
Romance paper books
The floor is covered
In long blonde curls

On afternoons I walk the graves
The rusted cars, the mine shaft caves
See a girl sadly unkempt
A child of neglect
Under moons I pass the tombs
Cross the highways, smell the fumes
See a girl frighteningly gaunt
Somebody didn't want
How do I tell her I don't care
If she sleeps downstairs?

I see her on my errand runs
Looking nervous like a young Mia Farrow
Walk along the gas stops
Window browsing pawn shops
Guns, bows and arrows
Up on past the Halfway house
Past the signs Eighty South
Buttercup and Carrows
Drinking Wild Irish Rose
At the dead end of the road
Sleeping with the sparrows

When evening comes I play guitar
For the planets and the stars
I leave the porch light on
Like I do when I'm gone
Winter, spring, summer, fall
Basement's yours, have a ball
There's always room for you there
Really baby I don't care













[largo de são sebastião da pedreira]






26 maio 2015






fábula  desaguada  em  mim,  desaguada  em  ti





continua a haver um tesouro escondido em ti. nem sempre
me foi possível descobrir sob que mistério se ocultava, mas
sei que permanece intacto. lembra-te do que te disse quando
deitei o teu corpo no escuro frio das águas, das palavras que
te sussurrei, letras diluídas que inscrevi num beijo nos teus
lábios serenos: o teu rio sem foz só pode desaguar em mim.


continua a haver um tesouro escondido em mim. nem sempre
te foi possível descobrir sob que mistério se ocultava, mas
sabes que permanece intacto. lembro-me do que disseste quando
deitaste o meu corpo frio no escuro das águas, das palavras que
me sussurraste, letras diluídas que inscreveste num beijo nos meus
lábios serenos: o meu rio sem foz só pode desaguar em ti.





25 maio 2015








dada siegt
raoul hausmann











este é um dos grandes cartões de visita de otis spann, um dos maiores pianistas de azuis de todos os tempos. 
custa pensar que morreu de cancro no fígado aos quarenta anos em chicago e que durante mais de trinta anos 
a sua sepultura permaneceu não identificada.



I got a gal that lives up on the hill
If she won't marry me, I know her sister will

My baby's little and low and she builds up from the ground
Every time that I kiss her, know my loves comes fallin' down

Tell me baby, what's on your worried mind?
When I thought you were leaving, you were lovin' me all the time.

Cause you're little and low and you're built up from the ground
Every time that I kiss you, know my loves comes fallin' down

Goodbye baby, little girl you left your card and gone
I'm gonna miss you baby, and the way that I carry on.





23 maio 2015






Como nos bares decrépitos
do red light district, há letras
do meu nome que já não
se acendem e outras
que piscam ou
tremeluzem
a noite inteira.






José Mário Silva












[largo do conde barão]






22 maio 2015





então não é que parecia mesmo que estava a adivinhar, quando escrevi isto há uns tempos?… 
pois bem, embuído de genuíno espírito de serviço público, informo toda a gente: os costeletadecarneiro estarão em lisboa no dia 14 de julho para um concerto no são jorge. é escusado estar para aqui a dizer que, a par de tom waits, bill callahan e mark kozelek, kurt wagner é um dos poucos americanos geniais, sempre em estado de graça, que vale a pena ir ouvir. quem não for, para além de se arrepender para o resto da vida, é foleiro, sem gosto nenhum, cheira mal dos pés, sofre de maleitas inconfessáveis, doenças piores que as doenças - e, claro, perde um final de concerto assim:



Here comes the cool air, the light chill of the fall
Blowing from either direction
Blowing across the yard it's crisp and it's cool
Dogs like it, as they sit around in the sun
And stubbornly i remain under a tree
The wind gusts up stronger from time to time
We're supposed to grow cold as the day wears on
I'm looking for the future, today, today, today

And at the same time i am dreading the outcome of our actions
Fall makes me feel a little sad sometimes
Whip out the sweater and the second layer and it's time for a change
And surely it's the way, Oh boy, Oh shit! (Let's record it)

A rednecks safe from a bitchy English professor
He seems unconcerned with my purity of expression
And I can see his point, which is all well and good...
Sometimes i'm not sure if i can see my...

Shake this time when it doesn't really mind
You do just fine and you wont next time
If you want it

Back to the weather, i must admit it looked pretty nice
Why are my legs shaking
Why are there still mosquitoes
Shouldn't they be in bed and dead by now

I guess i should give it, give it a little more time
Give it, give it, a little more time





21 maio 2015








jack nicholson
brigitte lacombe











Antes não nos pesava
o passado, colhíamos os dias
ainda verdes, a frescura da sua polpa
na vontade dos nossos dedos.
Depois vieram os sinais
dos primeiros cansaços sem remédio,
a noite fincou-se nas pedras,
fez-se de estorvos.
Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.







Rui Pires Cabral







20 maio 2015






no começo dos anos sessenta, booker t. jones e steve cropper eram músicos de estúdio de uma nova editora de memphis, a stax records. com mais alguns constituíram o sempre presente som de fundo que se nota quando se ouvem canções de nomes como otis redding, wilson pickett e sam & dave - e a eles se deve o chamado "stax sound". este tema, hoje icónico, resultou de um improviso em estúdio, entre duas gravações, a partir de um motivo baseado em ray charles, o suficiente para os músicos de estúdio o gravarem com nome próprio - e garantirem um lugar na história.















target
paula rego





19 maio 2015






fábula  desaguada  em  mim





continua a haver um tesouro escondido em ti. nem sempre
me foi possível descobrir sob que mistério se ocultava, mas
sei que permanece intacto. lembra-te do que te disse quando
deitei o teu corpo no escuro frio das águas, das palavras que
te sussurrei, letras diluídas que inscrevi num beijo nos teus
lábios serenos: o teu rio sem foz só pode desaguar em mim.














[calçada da bica pequena]






18 maio 2015





um azul clássico nesta segunda-feira, de escolha incontornável…




Everyday, everyday I have the blues
Everyday, everyday I have the blues
When you see me worried baby
Because it's you I hate to lose

Oh nobody loves me, nobody seems to care
Yes nobody loves me, nobody seems to care
Speaking of bad luck and trouble
Well you know I had my share

I'm gonna pack my suitcase, move on down the line
Yes I'm gonna pack my suitcase, move on down the line
Where there ain't nobody worried
And there ain't nobody crying





17 maio 2015







Árvore





Conheço as suas raízes. É tudo o que vejo.
Há um movimento que a percorre devagar. Não sei
se ela existe. Imagino apenas como são os ramos,
este odor mais secreto, as primeiras folhas
aquecidas. Mas eu existo para ela. Sou
a sua própria sombra, o espaço que fica à volta
para que se torne maior. É assim que chega
o que não passa de um pressentimento. Ela compreende
este segredo. Estremece. Comigo procuro trazer
só um pouco de terra. É a terra de que ela precisa.






Fernando Guimarães






[para a Rosa]







[museu da cidade]






16 maio 2015





“Early in life, the world divides crudely into those who have had sex and those who haven’t. Later, into those who have known love, and those who haven’t. Later still – at least, if we are lucky (or, on the other hand, unlucky) – it divides into those who have endured grief, and those who haven’t. These divisions are absolute; they are tropics we cross.”






Julian Barnes












"frida kahlo pós-moderna" (gravura num bar de lisboa)
autor desconhecido





15 maio 2015






as sextas-feiras também são dias de azuis.
riley ben king era o último dos grandes bluesmen ainda vivos. teve um nascimento verdadeiramente icónico: numa plantação de algodão no mississippi rural profundo. cedo ganhou a alcunha de "blues boy king" (e daí a abreviatura do seu nome). dele, john lennon e jimi hendrix disseram ser o melhor guitarrista que alguma vez tinham ouvido.
uma noite houve um incêndio numa sala onde actuava. toda a gente foi evacuada mas ele voltou atrás para tentar salvar a guitarra. mais tarde soube que o fogo começara devido a uma discussão por causa de uma jovem chamada lucille 
- e daí em diante todas as suas guitarras tiveram esse nome. 
na tristeza da notícia da sua partida aos oitenta e nove anos (imagino-o no céu, com a nova harpa "lucille", a tocar azuis celestes no meio de anjos maravilhados) ocorre-me esta pergunta: quão triste (aliás azul) consegues ficar?



riley ben king (1925-2015…(… 










anacronia sentimental





prometes que vens
hás-de chegar de noite, quando as corujas despertam
e os pirilampos piscam luzeiros fugidios,
e hás-de subir o grande muro com a força dos teus braços
os pés em esforço nos esconsos das pedras

prometes que vens
esperarás com paciência a distracção sonolenta
do cão e, sem ruído, saltarás com a leveza
de um gato e tocarás o chão com a delicadeza de mil pétalas
só o meu coração estremecerá

prometes que vens
que, sim, hás-de subir o caminho de heras que serpenteia
até à minha janela, guardarás na roupa todas
as flores que colheres pelo caminho e junta-las-ás
em ramos perfumados para me dar

prometes que vens
que desaguarás em mim como um rio a galgar as margens,
uma torrente de água que me fará perder o pé e
me arrastará para abismos de onde não quererei sair,
novos atlantes habitando a superfície fofa do meu embalo

prometes que vens
e eu digo que, sim, hei-de esperar-te no fim de todas as heras
abrindo os braços aos ramos que trarás, pronta a deixar-me
prender com os limos do teu corpo, silenciando o cão que
dentro de mim rosna que seria suficiente que tocasses à campainha

caso realmente quisesses vir.









Carla  Pinto Coelho