10 abril 2015







Carta de Amor

(A Eugénio de Andrade)





Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade

Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração








Jorge Sousa Braga







8 comentários:

  1. Respostas
    1. :
      sabia
      que haveria
      uma flor que gostaria
      ;)

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  2. "Um dia destes vou-te matar...
    Uma certeira bala de pólen
    mesmo sobre o coração"

    já disse algo semelhante:
    um dia destes vou-te matar
    era capaz de entrar por ti adentro
    para te matar em mim...
    depois pensei melhor:
    seriamos então um, disse. :-)

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  3. É um poema que fica assim entre o sério adocicado e a ironia...
    E ainda dizem que já não se escrevem cartas de amor!

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    1. claro que escrevem... ;)
      http://novascartasdemarear.blogspot.pt/2012/05/nao-me-leve-mal-longe-de-mim-querer.html

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  4. Qualquer coisa me lembrou o poema de Raquel Nobre Guerra (do qual, deixo apenas um pequenino excerto):

    «Namorar à distância com a forma perfeita de tudo: eis tudo!
    Namorar nu à vista das coisas, entrar-lhes, destapá-las subir-lhes pelos pés
    das camas, aos destelhados mais que tudo substantivando!
    Ah poder sonhar-me a sós com a idade de domar tigres e leões!
    E ter um ralo especial como bueiro para onde escoasse como cimento
    esta grande obscenidade!
    E Deus na unidade dos queimados do Esfinge Gorda!
    E o leviatânico reverso exortando os fiéis com sucesso!
    E as garrafas bebidas e o Pai Nosso Também!
    E tudo acima a transcender e o transcendente ámen!
    E as semanas santas como bolos frescos em montras triplamente iluminadas!
    E a dormição da Virgem como restos de hóstia na minha língua:
    um pão branco sem miolo e na côdea inteira a alma grega da festa!»

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