31 janeiro 2015







são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres
sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver
sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária
sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral
sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas
sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa
eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa
sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos
eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque me achei só
eu a fugir de encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar
eu em cada vivo, em cada morto, em cada esquina da cidade
sou eu não conseguindo adormecer e, adormecendo, não dormindo
sou eu sem saber fugir a uma luxúria que jamais me faz feliz
eu a habitar um corpo doloroso, como semáforo amarelo
eu vendo outra coisa em cada coisa e em tudo palavras de papel
eu carregando o peso do passado sobre um futuro inexorável
eu mais mortal que os mortais e defrontando a imortalidade
sou eu com a cara e a alma à venda nos escaparates insensíveis
eu pedindo esmola a quem despreza o que lhe posso dar
sou eu rindo-me de mim para evitar chorar por tudo o mais
sou eu irremediavelmente sozinho para toda a eternidade
sou eu sem música de fundo, vendo-me num espelho desbotado
sou eu a fumar como se me defumasse para me poder comer
sou eu silenciando um grito por minuto e escrevendo no mel
eu vestindo toda esta nudez, só para só amar a verdade do amor

e se isto é difícil de entender, dizendo-te outra coisa não seria eu 







Miguel Martins














hotel bedroom
lucian freud






30 janeiro 2015





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






este velho standard data dos tempos iniciais da carreira de ella, com a orquestra de chick webb. 
ainda hoje mantém o mesmo optimismo – e nos faz querer dançar na rua.




a) ella





b) eles e elas 


My fur coat's sold

Oh Lord ain't it cold

But I'm not gonna holler

'cause I've still got a dollar

And when I get low

Oooh, I get high



My man walked out

Now you know that ain't right

Well he better watch out

If I meet him tonight

I said when I get low

Oooh, I get high



All this hard luck in this town has found me

Nobody knows what troubles are all around me



Oh, I'm all alone

With no one to pet me

My old rocking chair

Ain't never gonna get me

'cause when I get low

Oooh, I get high


When I get low

Oooh, I get high












marion cotillard
elliott bliss





29 janeiro 2015





Hoje, também os carros dançam




Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu – que mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de planos, de lençóis, de secretária... Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado... Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.






Filipa Leal











[alcainça]





28 janeiro 2015






uma das grandes formações de marsalis foi esta, com o seu pai no piano, riley na bateria e veal no contrabaixo. 
eram imbatíveis a recriar standards, transformando-os sempre naquilo a que chamo nocturnos mais-que-perfeitos. 
neste caso, apenas "em família", e em menos de dois minutos, fica tudo dito. 














tangerine 1
jeannie sellmer





27 janeiro 2015





fábula  da  inquietude





nos rios sem nascente nem foz não é apenas a água que corre:
há faluas e caravelas e, por vezes, o nosso navio das viagens felizes
que, sem bússola nem carta de marear, navega à vista e nunca naufraga







[dedicado a isabel pires, a quem furtei uma ideia e algumas palavras]








[cais das colunas]






26 janeiro 2015





joe colombo nasceu em itália, foi criado em locarno na suíça e tem feito a sua carreira na américa e um pouco por todo o lado. a sua linguagem na guitarra é herdeira de stevie ray vaughan, eric clapton e até um pouco de jimi hendrix (o seu herói confesso). curiosa é também a sua abordagem áspera e crua aos azuis, que cultiva sempre que pode. e na próxima semana vou finalmente ouvi-lo no hootenanny da culturgest - um dos concertos por mim mais aguardados neste ano que agora começa.













apenas um nome




alejandra alejandra
por baixo estou eu
alejandra






Alejandra Pizarnik





25 janeiro 2015






(…e um pouco mais de céu na terra…)



Vorrei spiegarvi, oh Dio!

Qual è l'affanno mio;

ma mi condanna il fato

a piangere e tacer.



Arder non può il mio core

per chi vorrebbe amore

e fa che cruda io sembri,

un barbaro dover.



Ah conte, partite,

correte, fuggite

lontano da me;

la vostra diletta

Emilia v'aspetta,

languir non la fate,

è degna d'amor.



Ah stelle spietate!

nemiche mi siete.

Mi perdo s'ei resta.


Partite, correte,

D'amor non parlate,

è vostro il suo cor.












l'empire des lumières
rené magritte





24 janeiro 2015






Exma. Senhora D. Ophelia Queiroz:


Um abjecto e miseravel individuo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de communicar a V. Exª  considerando que o estado mental d’elle o impede de communicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha secca (exemplo da obediencia e da disciplina) – que V. Exª está prohibida de:
(1) pesar menos grammas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no individuo em questão.

Pela minha parte, e como intimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja communicação (com sacrificio) me encarrego, aconselho V. Exª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do individuo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossivel dar esse justo destino à entidade fingidamente humana a quem elle competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimenta V. Exª

Álvaro de Campos
engº naval












new york office
edward hopper





23 janeiro 2015






d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :






esta canção foi gravada em 1977, naquela transição entre o punk e a new-wave. e foi o único sucesso de wreckless eric, de quem não se voltou a ouvir falar, talvez por ainda andar à procura da tal rapariga.
mas trinta anos depois é a única canção que harold crick sabe tocar na guitarra, no fabuloso “stranger than fiction”, como que a dizer-nos que mesmo um fiscal das finanças merece ser feliz.




a) eric goulden



b) will ferrell



When I was a young boy
My mama said to me
There's only one girl in the world for you
But she probably lives in Tahiti

I'd go the whole wide world
I'd go the whole wide world
Just to find her

Or maybe she's in the Bahamas
Where the Caribean sea is blue
Weeping in a tropical moonlit night
Because nobody's told her 'bout you

I'd go the whole wide world
I'd go the whole wide world
Just to find her
I'd go the whole wide world
I'd go the whole wide world
Find out where they hide her

Why am I hanging around in the rain out here
Trying to pick up a girl
Why are my eyes filling up with these lonely tears
When there're girls all over the world

Is she lying on a tropical beach somewhere
Underneath the tropical sun
Pining away in a heatwave there
Hoping that I won't be long

I should be lying on that sun-soaked beach with her
Caressing her warm brown skin
And then in a year or maybe not quite
We'll be sharing the same next of kin

I'd go the whole wide world
I'd go the whole wide world
Just to find her
I'd go the whole wide world
I'd go the whole wide world
Find out where they hide her













portrait of an artist (pool with two figures)
david hockney





22 janeiro 2015





aqui e ali tinha referido que talvez o encontro de uma alma gémea fosse uma questão dependente de uma escolha planetária. mas olho para o cosmos à noite e cada vez mais sou levado a concordar com stephin merritt: não é de um planeta novo que preciso…



Time stands still - all I can feel is the time standing still.
As you put down the keys and say 'don't call me please', while the radio plays,
"I Think I Need a New Heart", oh...
"I Think I Need a New Heart", oh...

You've lied, too, but it's a sin that I can't tell the truth,
Cause it all comes out wrong unless I put it in a song, so the radio plays,
"I Think I Need a New Heart", just for you.
"I Think I Need a New Heart".

Cause I always say "I love you", when I mean "turn out the light".
And I say "let's run away", when I just mean "stay the night".
But the words you want to hear, you will never hear from me.
I'll never say "happy anniversary"; never stay to say "happy anniversary".

So I think I need a new heart, oh...
I think I need a new heart, oh...
Give me time...













[mouraria, placard indicativo do restaurante "o amoraria"]





20 janeiro 2015





nova  fábula  da  raposa  e  as  uvas





«contam que certa raposa
andando muito esfaimada
viu roxos maduros cachos
pendentes de alta latada…»



contrariando a fábula perene
do tal senhor de la fontaine
a raposa parou, ergueu o nariz,
pulou, comeu as uvas que quis
e terminou com um disparate:
alguns morangos com chocolate.












[jardins gulbenkian]





19 janeiro 2015







stevie ray vaughan é um dos grandes guitarristas do rock, que gostava de escrever e tocar azuis. vendo hoje estes antigos registos em palco (no caso, uma cover de um clássico de buddy guy), é fácil imaginar o que ainda nos poderia ter dado se a sua carreira não tivesse terminado nesse dia de verão de 1990 em que apanhou o helicóptero errado.



You better leave, you better leave my little girl alone
You better leave, you better leave my little girl alone
Lord before I get evil man, and I go and do something wrong

You call my house, just yesterday
I picked up the extension and I heard every word you say
Why don't you just go, man and leave my little girl alone
Now before I get evil man, and I go and do something wrong

You call my house all hours of the night
Let me tell you mister that's a sure, sure way to start a fight
Why don't you just go on man and leave my little girl alone
Lord before I get evil man and I'm gonna do something wrong












marion cotillard
matt jones





17 janeiro 2015






Lisboa, Cerca Moura





É verão e o branco de Lisboa não se cansa
da brancura, o céu de um azul
pálido e constante, na sombra da esplanada.
Os pedreiros falam alto, num português bruto,
os estrangeiros, que nunca leram Cesário,
louvam o encanto da lota, as raparigas passam,
melhores que qualquer cidade,
enquanto o vento tempera o calor

lembrando que existe um rio.
Mas a sombra é um parêntesis, a brancura
um parêntesis, o próprio vento e as raparigas
uma suspensão no quotidiano
que teima em desintegrar-se,
em resistir à superfície da escrita.
Nesta cidade que tranquilamente
se deixa ficar nas colinas, quem sabe
se à espera, quem pode saber.






Pedro Mexia













[largo das portas do sol]





16 janeiro 2015






ouvi hoje esta canção, na sua edição original. e depois recordei a versão "orquestrada" para a colectânea the love songs
há sempre qualquer coisa intemporal na voz de hammill, como se fosse outra vez a primeira vez que se ouve. 
é isso um clássico?



Drawing back the curtains, sluggish city daylight in the afternoon...


Here's that special silence, just before you walk out of the hotel room.


Each time we're so close I assume 
that we'll never be again -

oh, how long must we pretend
 that we're just good friends?




A casual affair is all that you can spare 
from your emotional change;


A calendar of meetings,
 strangers on the street,
 the best we ever arrange.


Now I just can't stand all the pain,
 all the constant make and mend;


how long can we pretend
 that we're just good friends?




I gave you my devotion,
 hiding nothing up my sleeve -


If I walked clean out of your life 
would you even notice me leave?


So much tangled-up emotion,
 should I stay or should I go?


If I walked clean out of your life 
how long would it take you know?


(are we such good friends?)


How sordid this has become
 as the means approach the end – 
And how long can we pretend