21 novembro 2013








Sê lenha






Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.

Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.









Ana Marques Gastão









2 comentários:

  1. Mas como é que consegues descobrir poemas tão bons?
    Agora um comentário (ainda mais) disparatado: hoje vieram trazer-me duas cargas de lenha.
    ;)

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