26 novembro 2013









fábula  da  escolha  de  um  avatar







pensei primeiro numa imagem da fúria do mar, um mar anterior ao mar, claro,
mas cedo percebi que essa grandiosidade se dilui num quadrado tão pequeno
depois foi um veleiro, sem mastros mas com velas a ouvir segredos do vento
só que os navios fantasma não se podem captar num instantâneo da memória
lembrei-me então de reproduções de cordames ásperos e antigos nós náuticos
e dedos de marinheiros a eles unidos em lendas de plantações de naus a haver


aprisionado a imagens de dedos, espraiados nas mãos como um rio num delta
recordei os de vermeer, que nunca vi, e até os de bach aflorando um teclado frio
e por fim veio-me à lembrança aquela imagem de miles davis a tocar um trompete
que não se vê mas está mais que presente, num colorido imortal a preto e branco








{captada por irving penn durante as sessões para a escolha da capa do álbum “tutu”, esta é uma fotografia mais-que-perfeita: 
uma mão negra de palma tão clara como a minha empunha um trompete de um dourado baço; embora pareça imóvel, o trompete está vivo, 
ouço-lhe a respiração: um silvo agudo aqui, um murmúrio ali. dizem-me que há quem o não veja, e apenas se aperceba dos dedos mágicos, 
dobrados misteriosamente, mas creio não ser esse o meu e o teu caso, leitor}







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