24 setembro 2013











A (i)legibilidade do livro






O livro está aberto e há demasiada luz.
Tudo o que escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.











António Ramos Rosa












2 comentários:

  1. sempre tão bonito!
    E viva à poesia

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  2. ATÉ ONDE VÓS ESTAIS

    Oh, presenças amigas, ó momento
    em que alongo o braço e toco em cheio os rostos
    A minha língua abriu-se para dizer a face
    do vento que percorre as vossas vidas.

    Estou perante a noite mais profunda,
    a delicada noite das raízes: vejo rostos
    vejo os sinais e os suores das vossas vidas.

    Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
    poços de água verde, e vou convosco ter,
    minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.

    A terra que penetro é este chão de terra
    com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
    A vertente que desço é uma subida às vossas vidas.

    ANTÓNIO RAMOS ROSA
    In O centro na distância, 1981

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