01 junho 2013







(ainda o a.o.)

faz-me a maior das confusões olhar para um jornal e verificar que existem opinadores que, envergonhadamente, deixam incluir uma etiquetazinha dizendo "o autor escreve de acordo com a antiga ortografia". mas qual antiga? o que deviam fazer era adicionar "este autor opta por não escrever de acordo com a nova ortografia", ou então fazer como eu, que nunca publiquei textos em jornais ou revistas ou livros mas que, se o fizesse, não deixava de juntar "este autor NUNCA escreverá de acordo com o a.o.".
bem sei que não sou bom exemplo, eu que rejeito as maiúsculas (até a minha assinatura é em minúsculas), mas neste caso escrevo NUNCA para ênfase e também escrevo a.o. (por ser menor e desprezível).
nunca lhe chamei acordo ortográfico, prefiro aborto ortopédico, porque foi isso que aconteceu: uns iluminados consideraram que a língua estava manca e resolveram implantar umas próteses avulsas. correu mal, claro, e agora resultou este aleijão, do qual ninguém parece gostar mas que vai subsistindo camufladamente. eu sempre disse 

"a cor do horto gráfico é de burro quando foge"...
vem isto a propósito da crónica da ana cristina leonardo no "expresso" de hoje, um semanário que deixei de comprar quando em má hora aderiu à terapêutica ortopédica, mas a que retornei, muito por força do hábito e também pela presença de cronistas como ela, que aos poucos (ou muitos) se apercebem da leviana adopção ("burrocrática" diria o herberto) do a.o. - e também pela possibilidade de ler o belíssimo texto de richard zenith de hoje, transcrição do seu discurso de aceitação do prémio pessoa, e aceitar que tem de ser um estrangeiro a lembrar-nos o valor da nossa maltratada língua...
volto a incitar à revolta: temos de recusar o aleijão. ponto final. e é muito simples: basta não escrever em acordês. que me conste, não se pode multar nem prender quem dá erros de ortografia, não é? passemos então por incultos & analfabetos & retrógrados & tudo - mas escrevamos na nossa língua, que evolui apenas por ser vivida por nós e em nós, e que não precisa de plásticas estéticas. incito e cito (pedro mexia): "é preciso acabar com aberrações como a recessiva “receção”, o tauromáquico “espetador” e a lasciva “arquiteta”. mainada.









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