02 janeiro 2013











Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes de viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.









Maria do Rosário Pedreira








( vê-se e lê-se muito melhor aqui )

6 comentários:

  1. Melancólico, mas muito bonito. :)

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  2. Comprei recentemente "Poesia reunida", que acabei por oferecer. :)

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  3. "as ondas ameaçam os lagos dos meus olhos" é muito bonito

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  4. deep: também tenho. fui ao lançamento.
    mónica: bonito demais, até.

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