30 novembro 2012

















diane arbus
by steven frank





























 [mais canções sem palavras]





















Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.










Luís Vaz de Camões






















[alcainça]












29 novembro 2012











A pressão dos mercados







Emprestem-me palavras para o poema; ou dêem-me
sílabas a crédito, para que as ponha a render
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?

É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.

E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba – o ar –
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.









Nuno Júdice























john lee hooker
by mark seller











28 novembro 2012











lançada em mil novecentos e noventa e nove na colecção de sessenta e nove canções de amor 
provenientes dos campos magnéticos, esta foi seguramente a última grande música pop do milénio passado.



 
Eligible, not too stupid
Intelligible, and cute as cupid
Knowledgeable, but not always right
Salvageable, and free for the night

Well my heart's runnin' round like a chicken with its head cut off
All around the barn yard falling in and out of love
Poor thing's blind as a bat
Gettin' up, fallin' down, gettin' up
Who'd fall in love with a chicken with its head cut off?

(Woah Nelly)

My wife doesn't understand me
Many dozens, hope to land me
I'm for free love
And I'm in free fall
This could be love
Or nothing at all

But my heart's runnin' round like a chicken with its head cut off
All around the barn yard falling in and out of love
Poor thing's blind as a bat
Gettin' up, fallin' down, gettin' up
Who'd fall in love with a chicken with its head cut off?

We don't have to be stars exploding in the night
Or electric eels under the covers
We don't have to be
Anything quite so unreal
Lets just be lovers

Well my heart's runnin' round like a chicken with it's head cut off
All around the barn yard falling in and out of love
Poor thing's blind as a bat
Gettin' up, fallin' down, gettin' up
Who'd fall in love with a chicken with its head cut off?

(It ain't pretty)

























on being an angel
by francesca woodman











27 novembro 2012











Da verdade do amor







Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito


pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados


não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor










José Tolentino Mendonça












 









james marshall hendrix festeja hoje setenta risonhíssimos outonos...

parabéns  jimi!


jimi hendrix
by jim marshall





música
























jimi hendrix
by baron wolman



















esta foi a primeira canção de hendrix que alguma vez ouvi.
com sorte, não será a última...



Hey Joe, where you goin' with that gun in your handHey Joe, I said where you goin' with that gun in your handI'm goin' down to shoot my ol' ladyI caught her messin' 'round with another man
Yeah, I'm goin' down to shoot my ol' lady nowYou know I caught her messin' 'round with another manAnd that ain't too cool
Hey Joe, hey, Joe, I heard you shot your woman downHey Joe, hey, Joe, I heard you shot your woman down, babyHe said, "Yeah, I did it, yes I did, I shot herYou know I caught her messin' 'round with another man"
Yes I did, I shot herYou know I caught my her messin' 'round with another manYeah, and I gave her the gun
Hey Joe, hey JoeWhere you gonna run to, now where you gonna run to nowHey Joe, hey JoeLord, where you gonna run to, now where you gonna run to, baby
I'm goin' way down south, way down southWay down to Mexico way, yeahI'm goin' way down south, way down south, babyWay down where I can be free
Ain't no one gonna mess with me there, babyAin't no hang-man gonnaHe ain't gonna put a rope, a rope around me, yeahYou better believe it, baby
Hey, Joe, you better run on down, you betterGoodbye everybody









26 novembro 2012














[a baixa pombalina vista do elevador de santa justa]
























volto muitas vezes a este grande momento de ryland peter cooder, incluído na banda sonora de "crossroads".
há azuis assim, em que foi deixado um espaço em branco para podermos incluir as nossas próprias palavras.



(instrumental)












25 novembro 2012

















new york city
piet mondrian





















Realidade








Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.


Atingido o espírito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer
não mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê. 










Isabel de Sá
















"Life is a moderately good play with a badly written third act."




- Truman Capote






















truman capote
by arnold newman













24 novembro 2012
















os caçadores na neve
pieter brueghel



















Vidro côncavo







Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.


Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.









António Gedeão








[muitos parabéns ao meu querido professor rómulo, que sopra hoje cento e seis velas]